Rival do Pinterest, Cosmos ainda define o papel da IA
Com design minimalista e algoritmo treinado a partir de uma lista selecionada de criativos, o app chegou ao topo da categoria Design na App Store

Para profissionais que trabalham com painéis visuais de referências (moodboards) mas já estão cansados de administrar listas no Instagram e perfis no Pinterest, o Cosmos surgiu em 2023 para conquistar milhões de usuários em um mercado já bastante concorrido.
Com um design minimalista e um algoritmo treinado a partir de uma lista cuidadosamente selecionada de criativos, o app chegou ao topo da categoria Design na App Store.
Segundo a empresa, hoje ele é usado por equipes criativas de companhias como Nike, Apple e Amazon, que coletam mais de 10 milhões de peças de conteúdo por mês de toda a internet para suas coleções.
Esse crescimento foi suficiente para levantar uma de investimentos de US$ 15 milhões. Ao mesmo tempo, a empresa avalia estratégias de monetização que vão de assinaturas premium a uma futura aposta em e-commerce.
A plataforma, que nasceu com uma proposta parecida com a do Pinterest, em breve também deve se tornar um espaço para portfólios criativos – mais próximo da forma como designers usam Instagram e Behance.
Mas, ao mesmo tempo em que traça o futuro da empresa, o fundador Andy, McCune, enfrenta um dilema central: como empregar as tecnologias mais recentes de IA para apoiar a comunidade criativa – mesmo quando uma parcela considerável dessa comunidade afirma não querer IA alguma.
QUANDO USAR IA – E QUANDO NÃO USAR
A IA generativa segue sendo tão controversa quanto inevitável. Embora muitos criativos a estejam adotando em massa como parte de seus próprios processos, existe um claro “fator incômodo” entre o público em relação à atual onda de marketing com IA e à ascensão da palavra coringa de 2025: AI slop (algo como "lixo de IA").
Hoje, o Cosmos usa modelos de machine learning para identificar o que considera imagens de alta qualidade e alinhadas ao gosto de seus usuários, distribuindo esse conteúdo em seus feeds. A plataforma também usa IA para rastrear e rotular automaticamente a procedência das imagens.
Enquanto o Instagram muitas vezes funciona como um grande "pesqueiro" do trabalho alheio, os sistemas do Cosmos vasculham a web para descobrir de que filme veio aquele frame impactante ou quem fez determinada foto e fazem a atribuição correta.

A empresa também oferece uma configuração, semelhante à do Pinterest, que permite aos criativos desfocar ou bloquear todo o conteúdo gerado por IA em seus feeds. Segundo o Cosmos, 10% dos usuários optaram por bloquear esse tipo de conteúdo – um percentual maior do que a empresa esperava inicialmente.
Poucas pessoas costumam personalizar configurações em aplicativos e o Cosmos não fez praticamente nada para divulgar que essa opção sequer existe. “Foi surpreendente para mim”, afirma McCune. “Agora estamos tendo conversas do tipo: será que essa [configuração] deveria fazer parte do onboarding?”.
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Ao mesmo tempo, bloquear IA não é uma configuração que ele queira definir como padrão, mesmo que isso pudesse diferenciar o Cosmos de seus concorrentes. Quando a opção foi lançada pela primeira vez, ela desfocava automaticamente conteúdos de IA, o que foi suficiente para causar confusão entre os usuários.
“De repente, eles voltaram aos seus moodboards e viram um monte de imagens que haviam salvo no passado ficarem borradas. E pensaram: ‘espera aí, eu não sabia que estava salvando imagens de IA’”, relata McCune. “Isso foi frustrante. Eles sentiram que tinham sido enganados. Para o usuário final, é muito importante poder participar dessa decisão, ter escolha sobre o que quer ver.”
POR QUE NÃO BLOQUEAR A IA, SIMPLESMENTE?
Um dos principais motivos pelos quais McCune não quer bloquear conteúdo gerado por IA é simples: ele sabe que alguns usuários querem esse tipo de material. E, de forma mais ampla, a indústria do design – o coração do Cosmos – vai usar cada vez mais ferramentas de IA no futuro.
Especialmente agora que a plataforma começa a deixar de ser apenas um espaço de criação de painéis visuais para se tornar um portfólio criativo pessoal, banir trabalhos gerados por IA significaria silenciar vozes e experimentações potencialmente de ponta.

“Acho que a IA será apenas mais um meio que as pessoas vão usar para se expressar, assim como a pintura, a fotografia digital ou o design gráfico”, diz McCune. “Se realmente queremos ser a casa dos criativos, é importante não escolher quais meios consideramos permitidos ou não.”
Ainda assim, existem limites em relação à IA que McCune não está disposto a cruzar, por considerar que eles fogem da missão da empresa e entram em conflito com a própria comunidade criativa.
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“Existe um caminho muito fácil que poderíamos seguir agora, e que não seguimos, que é colocar a IA generativa no centro do produto”, afirma McCune.
“Poderíamos ter construído muito rapidamente uma empresa multibilionária se fosse possível clicar com o botão direito em qualquer imagem no Cosmos e gerar um prompt em cima dela. Isso é algo que escolhemos não fazer, porque essa não é a empresa que queremos construir.”