Super Bowl testa tecnologia inédita para inclusão de torcedores cegos
Um grupo de 10 torcedores cegos e com baixa visão terá a oportunidade de usar um dispositivo tátil para vivenciar o jogo que acontece neste domingo

Alguns torcedores cegos ou com baixa visão terão um acesso sem precedentes ao Super Bowl – a final do torneio de futebol americano – graças a um dispositivo tátil que acompanha a bola, emite vibrações nas jogadas mais importantes e oferece áudio em tempo real.
A National Footbal League (NFL) se uniu à OneCourt e à Ticketmaster para testar essa experiência de jogo ampliada em 15 partidas da temporada regular.
Cerca de 10 torcedores cegos ou com baixa visão terão a chance de usar a mesma tecnologia no Super Bowl, em Santa Clara, na Califórnia, onde os times do Seattle Seahawks e do New England Patriots se enfrentam neste domingo (dia 8). Com as mãos sobre o dispositivo, eles poderão sentir a posição da bola e ouvir tudo o que acontece ao longo da partida.
Scott Thornhill mal pode esperar. Diretor executivo do American Council of the Blind (Conselho Americano dos Cegos), ele estará entre os torcedores no estádio, com um tablet da OneCourt apoiado no colo e a transmissão da Westwood One chegando pelos fones de ouvido. Diagnosticado com retinose pigmentar aos oito anos, acabou perdendo completamente a visão.
“Como alguém que cresceu praticando esportes antes de perder a visão, estou recuperando uma parte enorme da minha vida que senti falta por muito tempo. Poder ir a um jogo e não precisar esperar que alguém me diga o que aconteceu… é difícil até descrever o quanto isso significa para mim.
Clark Roberts viveu essa experiência em primeira mão. Torcedor dos Seahawks, ele foi convidado pelo time para assistir ao jogo em casa contra o Indianapolis Colts, em 14 de dezembro, usando o dispositivo da OneCourt – do tamanho de um iPad mais grosso, com linhas em relevo que desenham um campo de futebol americano.
“O dispositivo faz duas coisas maravilhosas. Ele vibra de formas diferentes para jogadas diferentes e, pelos fones de ouvido, eu conseguia ouvir o incrível narrador de Seattle", conta Roberts, que perdeu a visão aos 24 anos, também em decorrência da retinose pigmentar.
"O áudio em tempo real é a grande beleza do dispositivo, porque normalmente, quando estou ouvindo um jogo, pode haver um atraso de até um minuto ou mais.Isso torna cansativo ficar perguntando o tempo todo para familiares e amigos o que aconteceu", explica. “Você consegue imaginar como isso pode abrir portas para tudo, não só para o futebol?”
UMA EXPERIÊNCIA INÉDITA PARA TORCEDORES CEGOS
A OneCourt já está trabalhando nisso. A empresa fechou parcerias com equipes da NBA e da Major League Baseball para disponibilizar seus dispositivos em jogos e está em conversas para levá-los também à NHL, além de outras ligas e organizações esportivas pelo mundo.
A OneCourt foi lançada em 2023, depois que o fundador, Jerred Mace, viu uma pessoa cega assistindo a uma partida de futebol enquanto ainda era estudante da Universidade de Washington.
Com sede em Seattle, a startup usa os dados de rastreamento da NFL fornecidos pela Genius Sports e os traduz em feedback para o dispositivo, criando vibrações específicas para as principais jogadas.
Esses dados são gerados por câmeras e chips embutidos na bola, nos uniformes dos jogadores e em outros pontos do campo. A mesma tecnologia é usada pelo sistema NextGen Stats da NFL para saúde e segurança dos atletas, estatísticas e apostas.
“É um testemunho da maturidade do produto e da nossa empresa o fato de termos passado, nos últimos um ou dois anos, de entregas para um punhado de equipes para estarmos agora no maior evento do esporte norte-americano”, afirma Antyush Bollini, cofundador da OneCourt.
o dispositivo acompanha a bola, emite vibrações nas jogadas mais importantes e oferece áudio em tempo real.
Segundo Scott Aller, diretor sênior de desenvolvimento de clientes da Ticketmaster, o financiamento da empresa para o projeto piloto da NFL foi destinado a subsidiar o dispositivo, tornando-o gratuito para os torcedores. “Essa é uma vitória enorme de impacto social”, diz Aller. “Esperamos conseguir fazer um investimento como esse em todos os nossos mercados.”
Depois que algumas equipes procuraram a liga em busca de formas de ampliar o acesso para todos os torcedores, a NFL passou os últimos meses testando o programa e decidiu, por fim, estrear o dispositivo no Super Bowl.
“Não ignoramos o fato de que temos torcedores cegos ou com baixa visão e queremos fazer o certo por eles”, afirma Belynda Gardner, diretora sênior de diversidade, equidade e inclusão da NFL. Segundo ela, a liga ficou bastante encorajada com os resultados do piloto e com o potencial da tecnologia.
Leia mais: Transformação digital AI-first inclusiva e acessível
“Estamos analisando o que aprendemos e avaliando como isso pode ser implementado daqui para frente”, diz. “Ainda não há próximos passos definidos. Vamos usar esse período antes da próxima temporada para determinar como essa tecnologia se encaixa no conjunto de iniciativas da NFL.”