Tiktok foi feito para viciar crianças? Entenda acusação da União Europeia
Ao oferecer recompensas contínuas na forma de novos vídeos, a plataforma estimularia o uso compulsivo

A Comissão Europeia concluiu, em avaliação preliminar divulgada nesta sexta-feira (6), que o TikTok pode estar violando o Regulamento dos Serviços Digitais ao adotar um modelo de funcionamento que incentiva o uso compulsivo da plataforma, especialmente entre crianças e adolescentes.
A análise faz parte de uma investigação formal iniciada em 2024 e aponta falhas na forma como a empresa avalia e reduz os riscos à saúde mental e ao bem-estar dos usuários.
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APLICATIVO PRENDE A ATENÇÃO
Segundo a Comissão, o problema central está na própria arquitetura do TikTok. Recursos como rolagem infinita, reprodução automática de vídeos, notificações constantes e um sistema de recomendação altamente personalizado criam um ambiente no qual o usuário é estimulado a permanecer conectado por longos períodos sem perceber o tempo passar.
Na avaliação dos investigadores europeus, esse modelo transforma o consumo de conteúdo em um comportamento quase automático. Ao oferecer recompensas contínuas na forma de novos vídeos, a plataforma estimularia o uso compulsivo e reduziria o autocontrole, um efeito considerado ainda mais grave no caso de menores de idade.
RISCOS À SAÚDE MENTAL
A investigação indica que o TikTok não teria avaliado de forma adequada os impactos dessas práticas sobre a saúde física e mental de seus usuários.
A Comissão destaca que a empresa teria ignorado sinais claros de uso excessivo, como o tempo prolongado de navegação durante a noite por adolescentes, a frequência com que a aplicação é aberta ao longo do dia e outros indicadores de dependência digital.
Especialistas ouvidos no processo apontam que esse tipo de estímulo contínuo pode estar associado a dificuldades de concentração, distúrbios do sono e aumento de comportamentos compulsivos, sobretudo em públicos mais vulneráveis.
MEDIDAS CONSIDERADAS INSUFICIENTES
Embora o TikTok afirme oferecer ferramentas de gestão do tempo de tela e controles parentais, a Comissão Europeia entende que essas soluções não são eficazes.
De acordo com a análise preliminar, os limites de tempo podem ser facilmente ignorados pelos usuários e criam pouca barreira real ao uso prolongado. Já os controles parentais exigem conhecimento técnico e dedicação constante dos responsáveis, o que reduziria sua efetividade na prática.
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Para a Comissão, a simples oferta dessas ferramentas não é suficiente para cumprir as obrigações previstas no Regulamento dos Serviços Digitais.
POSSÍVEIS MUDANÇAS EXIGIDAS
Diante das conclusões iniciais, a Comissão considera que o TikTok precisará promover mudanças estruturais no funcionamento do serviço.
Entre as possibilidades mencionadas estão a limitação ou desativação progressiva da rolagem infinita, a criação de pausas obrigatórias e mais eficazes no uso do aplicativo, inclusive durante a noite, e ajustes no sistema de recomendação de conteúdo.
Essas medidas, segundo o órgão europeu, seriam necessárias para reduzir de forma concreta os riscos associados à chamada concepção viciante da plataforma.
PRÓXIMOS PASSOS
As conclusões divulgadas não encerram o processo, o TikTok terá agora a oportunidade de acessar os documentos da investigação e apresentar sua defesa por escrito. Paralelamente, o Comitê Europeu dos Serviços Digitais será consultado.
Caso as conclusões preliminares sejam confirmadas ao final do procedimento, a Comissão Europeia poderá declarar formalmente o descumprimento da lei e aplicar uma multa que pode chegar a até 6% do faturamento anual global da empresa.
O QUE ACONTECEU?
O caso faz parte de uma apuração mais ampla sobre a atuação do TikTok na União Europeia. Além do design considerado viciante, o inquérito analisa o efeito conhecido como “buraco de coelho” dos sistemas de recomendação, o risco de crianças acessarem conteúdos inadequados por falhas na verificação de idade e as obrigações da plataforma em relação à privacidade e à proteção de menores.
Outros pontos da investigação já tiveram desfechos parciais, como o acesso de pesquisadores a dados públicos e a transparência da publicidade.
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A questão da dependência digital, no entanto, segue no centro do debate e reacende uma pergunta que preocupa autoridades, pais e educadores, até que ponto o TikTok foi projetado para manter crianças conectadas o máximo de tempo possível,