Cultura indígena influencia design urbano e transforma Toronto

O Centro Indígena de Toronto serve a grande população indígena da cidade, refletindo sua cultura e seus valores tradicionais

prédio em Toronto inspirado na cultura indígena do Canadá
Crédito: Riley Snelling/ KGA

Nate Berg 5 minutos de leitura

A franja metálica que desce da borda do centro comunitário de saúde da Anishnawbe Health Toronto, perto do centro da cidade, é o maior indicativo de que algo diferente está acontecendo ali.

Criada para oferecer atendimento de saúde centralizado e práticas de cura tradicionais à população indígena de Toronto – estimada em cerca de 90 mil pessoas –, a clínica é o elemento central de uma quadra singular, liderada pela própria comunidade indígena e concebida para refletir sua cultura.

A franja contínua, composta por mais de 12 mil fios de corrente de aço inoxidável – um tipo de detalhe estético que normalmente seria o primeiro a ser cortado pelos responsáveis por cortes de custos em um empreendimento convencional – é apenas um dos muitos elementos do projeto que exibem, sem concessões, suas raízes indígenas.

espaço na cidade de Toronto dedicado aos povos indígenas do Canadá
Crédito: James Brittain/ KGA

Dos serviços oferecidos às formas arquitetônicas do prédio, passando pela orientação do paisagismo, o empreendimento incorpora tradições, práticas e princípios indígenas de uma maneira ainda rara na maioria dos ambientes urbanos.

Batizado de The Indigenous Hub, o conjunto ocupa um quarteirão inteiro e inclui, além do centro de saúde, um centro indígena de capacitação profissional, duas torres residenciais de médio porte e praças públicas e privadas.

Referências materiais e iconográficas indígenas aparecem por todo o terreno, desde fachadas que evocam padrões de mantas sagradas e rituais de cura até revestimentos de parede que remetem à casca das árvores que um dia formaram florestas nesse local.

É um projeto que vai a extremos pouco usuais para colocar esses elementos em evidência. E que também exigiu que todos os envolvidos – do incorporador aos arquitetos e paisagistas – repensassem sua abordagem em relação ao desenvolvimento urbano.

UM LUGAR DE INDIGENEIDADE

Localizado em uma área que já foi a planície de inundação do rio Don – e, antes disso, terras ancestrais e áreas de caça de povos indígenas por milhares de anos –, o terreno carrega um profundo significado para a comunidade.

Os projetistas do empreendimento, entre eles um escritório de arquitetura indígena, dedicaram grande esforço para traduzir essas conexões na aparência e na experiência do lugar.

espaço na cidade de Toronto dedicado aos povos indígenas do Canadá
Crédito: Riley Snelling/ KGA

“A intenção sempre foi garantir que, quando as pessoas estivessem nesse quarteirão, entendessem que se trata de um lugar de indigeneidade e também compreendessem onde estão dentro da cidade”, diz Matthew Hickey, sócio do Two Row Architect, um escritório indígena que assessorou o projeto em todas as suas etapas.

Trabalhando em estreita colaboração com a Stantec Architecture, a Two Row ajudou a criar o plano urbano do quarteirão. Depois, atuou ao lado da Stantec e do escritório BDP Quadrangle para orientar o desenho dos prédios e dos espaços externos.

Isso incluiu fachadas inspiradas em vestimentas tradicionais, espaços de cura conectados diretamente à terra e uma praça central – o Jardim dos Povos Indígenas – onde são cultivadas plantas medicinais.

espaço na cidade de Toronto dedicado aos povos indígenas do Canadá
Crédito: James Brittain/ KGA

Esse desenvolvimento liderado por indígenas levou décadas para se concretizar. A Anishnawbe Health Toronto vinha, desde os anos 1980, buscando um local para consolidar e aprimorar os serviços que já prestava à população indígena da cidade.

No fim dos anos 2000, quando a cidade de Toronto se candidatou a sediar os Jogos Pan-Americanos de 2015, essa antiga planície de inundação foi apontada como um possível local de reurbanização.

espaço na cidade de Toronto dedicado aos povos indígenas do Canadá
Crédito: Riley Snelling/ KGA

Como parte do plano – e em consonância com os Chamados à Ação da Comissão da Verdade e Reconciliação do Canadá –, uma área de cerca de um hectare foi reservada para usos indígenas.

A organização beneficente de saúde Anishnawbe Health Toronto (AHT) foi escolhida para ocupar o terreno como sede de seus serviços. Coube então aos projetistas criar um trecho da cidade que evidenciasse seu caráter indígena e estimulasse as pessoas a refletirem sobre os povos indígenas e suas práticas.

RESGATE DA CULTURA ANCESTRAL

Eles passaram a encarar o projeto primeiro como uma paisagem, organizando os prédios em torno do que se tornou o Jardim dos Povos Indígenas. Os arquitetos chegaram a ajustar as fachadas dos edifícios ao redor do jardim central para refletir mais luz no átrio voltado para o leste.

“Não teríamos feito isso se não estivéssemos discutindo e entendendo o quão importantes esses elementos são”, afirma Les Klein, cofundador da BDP Quadrangle.

Esse nível de intencionalidade ajudou a tornar o prédio do centro de saúde especialmente marcante. Além da franja metálica, a fachada é revestida com alumínio perfurado, em um padrão inspirado em uma manta estrelada, símbolo de conexão com os ancestrais e com o cosmos.

espaço na cidade de Toronto dedicado aos povos indígenas do Canadá
Crédito: James Brittain/ KGA

No interior, espaços clínicos convencionais dividem lugar com áreas de cura tradicionais em cada um dos quatro andares. No nível da rua, o aço curvo e oxidado indica onde esses espaços estão localizados.

Seguindo o princípio indígena de que os espaços de cura devem estar em contato direto com a terra, o plano do quarteirão foi alterado para deslocar todo o estacionamento subterrâneo e as áreas de subsolo para fora da projeção do centro de saúde, posicionando-os sob as duas torres residenciais na borda do terreno.

Os materiais de construção reforçam outras referências ao longo do conjunto, incluindo tijolos multicoloridos que evocam a forma de um cesto trançado e painéis pré-moldados de concreto com textura inspirada na casca de bétulas nativas.

A franja que envolve o centro de saúde talvez seja a escolha de design mais significativa e a que melhor representa o que torna esse empreendimento tão singular.

Ela se inspira nos xales usados por dançarinos fancy em powwows indígenas e também no som produzido pelos vestidos jingle, tradicionalmente usados em rituais de cura.

“Para uma dançarina de jingle dress, tudo gira em torno da cura. Elas dançam para que as pessoas sejam curadas, e aquele som faz parte disso”, diz Hickey. “Para nós, dançar não é apenas dançar ou se exibir. Assim como a arquitetura não é sobre exibição. É sobre o que ela faz.”


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais