7 mudanças para deixar de premiar líderes narcisistas

O narcisismo é frequentemente confundido com confiança, ambição ou carisma

7 mudanças para deixar de premiar líderes narcisistas
master1305 eekinyalgin via Getty Images

Laëtitia Vitaud 5 minutos de leitura

Eles mentem. Repetidamente. Descaradamente. Mentem mesmo quando a verdade seria mais fácil. Mentem quando a mentira pode ser facilmente desmascarada.

Mentem para dominar, confundir e exercer controle. Tratam a contradição como um ataque e a discordância como uma traição. Essas são características definidoras da liderança narcisista.

Leia mais: Seu chefe pode ser o maior inimigo da sua carreira

Por mais estranho que pareça, tanto na política quanto nas organizações, continuamos recompensando líderes narcisistas, dando-lhes mais poder.

Nós os promovemos, financiamos, votamos neles, os desculpamos e normalizamos seu comportamento, mesmo quando há sinais de alerta inconfundíveis que deveriam nos impedir de fazer isso.

É óbvio que os narcisistas buscam poder. A grande — e mais urgente — questão é: por que continuamos dando poder a eles?

ESCOLHEMOS NARCISISTAS QUANDO ESTAMOS ANSIOSOS

O narcisismo é frequentemente confundido com confiança, ambição ou carisma. Na realidade, o narcisismo patológico é definido por grandiosidade, uma necessidade constante de admiração, baixa empatia, intolerância à crítica e uma tendência a instrumentalizar os outros.

Em altas doses, o narcisismo é profundamente corrosivo. Líderes altamente narcisistas assumem mais riscos, manipulam com mais liberdade, quebram regras com mais facilidade e não aprendem com os próprios erros.

Eles externalizam a culpa, reescrevem a história e preferem bajuladores leais a profissionais competentes.

Como argumentou o psicólogo organizacional Adam Grant, raramente somos ingênuos em relação a líderes narcisistas.

Como argumentou o psicólogo organizacional Adam Grant, raramente somos ingênuos em relação a líderes narcisistas. Na maioria das vezes, nós os reconhecemos rapidamente.

Eles se gabam, monopolizam a atenção, encenam indignação, mentem abertamente e repetidamente. Nós vemos tudo isso — e, ainda assim, os escolhemos.

Leia mais: Por que a obsessão por autodisciplina está nos deixando exaustos

O CAOS E A CERTEZA

Uma das principais razões é que o caos nos faz ansiar por certeza. Em momentos de crise — instabilidade econômica, guerras, disrupção tecnológica, ansiedade climática — confundimos confiança ostensiva com competência.

A nuance parece fraqueza. A complexidade parece insuportável. O medo reduz nossa tolerância à ambiguidade. Isso nos torna vulneráveis a líderes que prometem controle, simplicidade e respostas absolutas — não importa o quão fictícias essas respostas possam ser.

Sob essa perspectiva, Donald Trump não é exatamente uma anomalia. Ele é um sintoma. Suas mentiras constantes, sua grandiosidade e seu desprezo pelas instituições são extremos, mas a dinâmica subjacente é familiar.

Os mesmos comportamentos — em menor escala — são recompensados diariamente em empresas, startups, organizações de mídia e instituições públicas ao redor do mundo.

7 COISAS PARA MUDAR SE QUISERMOS MENOS LÍDERES NARCISISTAS

Se líderes narcisistas continuam a ascender, é porque nossos sistemas continuam a selecioná-los e protegê-los. Mudar os resultados exige mudar as regras do jogo. Aqui estão sete mudanças essenciais.

1 - PARE DE CONFUNDIR VISIBILIDADE COM VALOR

Líderes narcisistas prosperam com atenção. Eles dominam reuniões, interrompem os outros e inundam o ambiente com o que parece ser certeza.

pessoa narcisista se olha em um espelho quebrado
Créditos: JNemchinova/ iStock/ Ismael Sánchez/ Pexels

Em muitos contextos, visibilidade é confundida com contribuição. Para combater isso, organizações precisam redesenhar ativamente a forma como a influência é exercida — limitando o tempo de fala e priorizando contribuições escritas, por exemplo.

O valor deve ser medido pela clareza criada, não pelo ruído produzido. Tratar visibilidade como valor cria um risco moral: aqueles menos afetados pela dúvida ganham influência desproporcional.

2 - TORNAR A MENTIRA CUSTOSA

Narcisistas mentem porque funciona. As mentiras são toleradas, minimizadas ou reformuladas como “estilo de comunicação”. Essa tolerância é fatal.

Declarações falsas devem ser corrigidas publicamente e com rapidez. A desonestidade repetida precisa gerar consequências claras para a reputação e a carreira. Tratar a verdade como opcional corrói instituições rapidamente.

Leia mais: 5 livros LGBTQIAPN+ para mais diversidade no ambiente de trabalho

Quanto mais tempo uma mentira permanece sem contestação, mais se sinaliza que a realidade é negociável — e que o poder, não a verdade, define as regras.

3 - AVALIAR LÍDERES PELOS RESULTADOS COLETIVOS

Líderes narcisistas frequentemente impressionam em métricas individuais enquanto, silenciosamente, destroem suas equipes. Medir liderança sem considerar rotatividade, esgotamento, desengajamento e perda de confiança é um erro grave.

Inteligência coletiva, segurança psicológica e capacidade de aprendizagem devem ser indicadores centrais de desempenho — não preocupações secundárias. Resultados obtidos às custas da confiança e da retenção representam extração de curto prazo, não desempenho sustentável.

4 - PARE DE RECOMPENSAR A ÂNSIA POR PODER

Ambição desmedida não é prova de potencial de liderança. Personalidades narcisistas são estatisticamente mais propensas a se autopromover, disputar autoridade e buscar promoções incessantemente.

Sistemas que equiparam ambição à competência praticamente garantem maus resultados. A seleção de líderes deve incluir pessoas capazes que não desejam o poder pelo poder — e tratar a autopromoção excessiva como um sinal de alerta.

5 - INSTITUCIONALIZAR A DISSIDÊNCIA

Líderes narcisistas temem a contradição e a punem, direta ou indiretamente. Por isso, a dissidência não pode depender apenas de coragem individual.

Leia mais: Na volta ao trabalho presencial, startups adotam escritórios sem sapatos

"Discordar também é contribuir para a inteligência coletiva."

Organizações devem proteger estruturalmente a discordância, por meio de funções formais de advogado do diabo, proteções robustas a denunciantes e incentivos claros para quem traz más notícias cedo.

Um líder que não tolera dissenso é fundamentalmente perigoso. Discordar também é contribuir para a inteligência coletiva.

6 - REDEFINIR O CARISMA

Carisma costuma ser confundido com dominância, confiança teatral e força verbal. Mas liderança sustentável pode se manifestar de outras formas: autoridade serena, moderação, curiosidade e capacidade de mudar de opinião diante de novas evidências. Enquanto glorificarmos o pior tipo de “personalidade forte”, líderes narcisistas continuarão a prosperar.

Nossa definição de carisma também é profundamente marcada por gênero: traços como assertividade agressiva, domínio verbal e distanciamento emocional são valorizados, enquanto comportamentos como escuta ativa são sistematicamente subestimados.

7 - ENFRENTAR A CAUSA RAIZ: O MEDO

Líderes narcisistas ascendem mais rápido em sistemas ansiosos. Quando as pessoas se sentem inseguras — econômica, social ou psicologicamente — tendem a terceirizar a sensação de segurança para quem a projeta com mais intensidade.

Reduzir a precariedade, ampliar a equidade e construir segurança psicológica real não são apenas imperativos morais. São defesas estruturais contra a liderança narcisista.

Líderes narcisistas não conquistam poder sozinhos. Eles são favorecidos por nossos medos, nossas métricas, nossos mitos sobre liderança e nossa relutância em confrontar verdades incômodas.

Se queremos líderes diferentes, precisamos nos tornar selecionadores diferentes. O problema não é que os narcisistas existam. É que continuamos a confundi-los com líderes.


SOBRE A AUTORA

Laëtitia Vitaud é escritora, palestrante e especialista no futuro do trabalho, com uma perspectiva distintamente feminista e europeia.... saiba mais