Perfeccionismo gera resultados ou apenas burnout?

Biografias de pessoas com realizações excepcionais costumam explicar o sucesso por meio de traços de personalidade

Perfeccionismo gera resultados ou apenas burnout?
Claudio Guglieri, Andrey Soldatov via Unsplash / Yan Krukov via Pexels

Tomas Chamorro-Premuzic 5 minutos de leitura

Biografias de pessoas com realizações excepcionais costumam explicar o sucesso por meio de traços de personalidade, destacando as chamadas “armas psicológicas letais” que as tornaram grandiosas.

Assim, a aspereza de Steve Jobs é reformulada como perfeccionismo visionário; a impulsividade de Elon Musk, como ousadia na tomada de riscos; e a persistência de Jeff Bezos, como obsessão intransigente pelo cliente.

A mesma alquimia retrospectiva se aplica às mulheres: a intensidade emocional de Oprah Winfrey se torna empatia e autenticidade radicais; a disciplina e a consciência de Indra Nooyi são reinterpretadas como liderança estratégica de longo prazo, orientada por valores; e a firmeza e a impaciência de Diane Hendricks diante da incompetência são celebradas como execução decisiva e rigor operacional.

Em todos os casos, características que antes poderiam parecer problemáticas são transformadas em virtudes quando o sucesso torna a história digna de ser contada.

A REALIDADE É MAIS COMPLEXA DO QUE AS NARRATIVAS DE SUCESSO

A realidade, como sempre, é muito mais complexa do que nossa limitada paciência e capacidade de atenção parecem tolerar atualmente. Todos os traços humanos ou padrões de comportamento podem ser bons ou ruins, dependendo do contexto, da intensidade e do resultado analisado.

A confiança, por exemplo, geralmente é positiva, mas quando dissociada da competência real — ou elevada em excesso — pode impedir o aprendizado, fazer com que as pessoas pareçam arrogantes e levar à subestimação dos riscos, à grandiosidade delirante e à distorção da realidade. Esse fenômeno tende a ser mais provável em algumas culturas do que em outras.

TUDO COM MODERAÇÃO

É por isso que Aristóteles argumentava que a virtude reside na moderação: o ponto médio ideal entre dois extremos igualmente problemáticos. A coragem situa-se entre a covardia e a imprudência; a generosidade, entre a avareza e o desperdício; a ambição, entre a apatia e a obsessão.

A ciência moderna concorda com essa visão: a falta de algo bom deixa o potencial por realizar, mas o excesso transforma a força em desvantagem.

QUANDO O PERFECCIONISMO DEIXA DE SER VIRTUDE

O perfeccionismo ilustra bem essa lógica. Em níveis baixos, pode refletir descuido ou desinteresse. Em níveis moderados, sinaliza altos padrões, diligência e orgulho no próprio trabalho.

Mas, ao ultrapassar certo limite, o perfeccionismo deixa de ser sobre excelência e passa a ser sobre medo: medo de errar, de ser julgado, de não atingir expectativas. Nesse ponto, ele já não melhora o desempenho. Pelo contrário, alimenta ansiedade, indecisão, microgestão, exaustão e desgaste nos relacionamentos profissionais.

O DESAFIO PARA AS ORGANIZAÇÕES

O problema é que o perfeccionismo muitas vezes se disfarça de comprometimento, especialmente em culturas que recompensam excesso de trabalho, autocrítica constante e ocupação permanente. A verdadeira tarefa da liderança não é eliminar padrões elevados, mas impedir que eles se transformem em autopunição ou controle excessivo sobre os outros.

Assim como ocorre com a confiança, a ambição ou a motivação, o objetivo não é “mais” ou “menos”, mas o suficiente — e saber reconhecer quando o suficiente se transforma em excesso.

UMA NOVA ABORDAGEM PARA ENTENDER O PERFECCIONISMO

Uma revisão acadêmica recente sintetiza décadas de pesquisas sobre o perfeccionismo, definido como a tendência estável de estabelecer padrões excessivamente altos para si ou para os outros, combinada com autoavaliação extremamente crítica e preocupação crônica com erros, avaliações e fracassos.

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A análise distingue claramente a busca pela excelência da motivação baseada no medo da imperfeição — uma diferença crucial para entender por que o perfeccionismo costuma prejudicar o bem-estar e a colaboração, oferecendo apenas ganhos frágeis ou de curto prazo em desempenho.

TRÊS VANTAGENS DO PERFECCIONISMO (QUANDO ELE É DO TIPO “CERTO”)

1 - Maior engajamento e alcance de metas em contextos específicos

Altos padrões pessoais, motivados internamente, podem estar associados a maior engajamento, persistência, alcance de metas e satisfação no trabalho, especialmente em funções estruturadas e previsíveis, nas quais qualidade e precisão são essenciais.

2 - Atenção aos detalhes na liderança

Líderes com perfeccionismo auto-orientado tendem a prestar mais atenção aos detalhes e, em ambientes estáveis, podem tomar decisões estratégicas mais cuidadosas e abrangentes.

3 - Sinalização de credibilidade no curto prazo

O perfeccionismo pode funcionar como um sinal de confiabilidade e seriedade, especialmente no início da carreira ou em ambientes de alta pressão por desempenho, favorecendo a progressão profissional inicial.

TRÊS DESVANTAGENS DO PERFECCIONISMO (MAIS FREQUENTES E CONSISTENTES)

1 - Prejuízo ao bem-estar sem ganhos reais de desempenho

Estudos mostram associações fracas entre perfeccionismo e desempenho, mas relações fortes com burnout, estresse, ansiedade, depressão, distúrbios do sono e dificuldade de recuperação.

2 - Vício em trabalho e incapacidade de desligar

Preocupações perfeccionistas estão ligadas ao excesso de compromissos, presenteísmo, procrastinação e ruminação constante, tornando até os momentos de descanso mentalmente exaustivos.

3 - Liderança tóxica e impacto negativo nas equipes

Quando o perfeccionismo é imposto aos outros, líderes tendem a microgerenciar, punir erros, reduzir a segurança psicológica e minar a criatividade e o bem-estar dos liderados.

POR QUE BUSCAR O “EXCELENCISMO”

O perfeccionismo não é uma estratégia eficaz de desempenho, mas um traço ligado a um estilo motivacional frágil. Os autores da revisão apontam o “excelencismo” — padrões altos, porém flexíveis e sem medo do fracasso — como uma alternativa mais saudável e sustentável.

Para líderes e organizações, a mensagem é clara: não se trata de recompensar perfeccionistas, mas de cultivar a excelência sem medo. Altos padrões são essenciais, desde que combinados com flexibilidade, aprendizado e segurança psicológica.

Em uma economia que valoriza velocidade, adaptação e colaboração, os líderes mais eficazes não são os que nunca erram, mas os que sabem quando a precisão importa e quando “bom o suficiente” é uma escolha estratégica. O perfeccionismo confunde controle com qualidade. A excelência otimiza o impacto.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na ... saiba mais