A ansiedade silenciosa de trabalhar em um mundo moldado pela IA
Apesar desse cenário, o economista do trabalho David Autor argumenta que temos mais controle sobre o futuro do que costumamos imaginar

Você não está sozinho em se sentir despreparado para o avanço acelerado da inteligência artificial (IA). Até mesmo Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, afirmou ter ficado impressionado com o poder crescente das ferramentas de IA.
O jornalista Ira Glass, apresentador do programa This American Life, da NPR, não é cientista da computação. Ele não trabalha no Google, na Apple ou na Nvidia. Ainda assim, tem um ouvido apurado para frases certeiras. Em 2024, organizou um episódio inteiro em torno de uma expressão que ecoa o sentimento de muita gente diante da IA: “despreparados para o que já aconteceu”.
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Criada pelo jornalista científico Alex Steffen, a frase captura a sensação inquietante de que a experiência e o conhecimento acumulados ao longo da vida podem ter se tornado obsoletos — ou, no mínimo, muito menos valiosos do que antes.
Sempre que ministro workshops em escritórios de advocacia, agências governamentais ou organizações sem fins lucrativos, ouço a mesma preocupação. Profissionais altamente qualificados e experientes se perguntam se ainda haverá espaço para eles em uma economia em que a IA generativa consegue executar, de forma rápida e relativamente barata, uma lista cada vez maior de tarefas que hoje sustentam milhões de empregos.
ENXERGAR UM FUTURO QUE NÃO TE INCLUI
No livro "Genius Makers: The Mavericks Who Brought AI to Google, Facebook, and the World" (2022), o repórter de tecnologia Cade Metz descreve o pânico vivido por Chris Brockett, um pesquisador veterano da Microsoft, ao entrar em contato pela primeira vez com um programa de IA capaz de fazer praticamente tudo o que ele levou décadas para aprender.
Dominado pela ideia de que um software havia tornado suas habilidades e conhecimentos irrelevantes, Brockett precisou ser levado às pressas ao hospital, acreditando estar tendo um ataque cardíaco.
“Meu corpo, aos 52 anos, teve um daqueles momentos em que vislumbrei um futuro no qual eu não estaria envolvido”, contou ele mais tarde a Metz.
No livro Vida 3.0: Ser Humano na Era da Inteligência Artificial (2018), o físico do MIT Max Tegmark expressa uma ansiedade semelhante. “Com a tecnologia em constante aprimoramento, será que a ascensão da IA acabará eclipsando as habilidades que me dão senso de autoestima e valor no mercado de trabalho?”, questiona.
A resposta para essa pergunta, de forma inquietante, muitas vezes parece estar fora do nosso controle individual.
UM RITMO QUE SÓ ACELERA
“Estamos vendo mais produtos e avanços relacionados à IA em um único dia do que víamos em um ano inteiro, há uma década”, afirmou um gerente de produto do Vale do Silício em entrevista à Vanity Fair em 2023. Desde então, a velocidade só aumentou.
Até mesmo Dario Amodei, que lidera uma das empresas mais importantes do setor, admite sentir esse impacto. Em entrevista ao podcast Hard Fork, ele refletiu: “Penso em todas as vezes em que escrevi código. Ser bom nisso sempre fez parte da minha identidade. Aí eu penso: ‘Meu Deus, esses sistemas de IA vão conseguir fazer isso muito melhor do que eu’”.
A ironia de esses medos surgirem justamente na mente de alguém que ajuda a construir essas tecnologias não passa despercebida por ele.
“Mesmo sendo eu quem cria esses sistemas, mesmo sendo um dos que mais se beneficiam deles, ainda há algo neles que soa um pouco ameaçador”, afirmou.
O FUTURO COMO UM PROBLEMA DE PLANEJAMENTO
Apesar desse cenário, o economista do trabalho David Autor argumenta que temos mais controle sobre o futuro do que costumamos imaginar.
Em 2024, Autor foi entrevistado pela Bloomberg News após a publicação do artigo Aplicando IA para Reconstruir Empregos da Classe Média. No estudo, ele defende que a IA, se bem utilizada, pode permitir que mais pessoas realizem tarefas de tomada de decisão de alto valor — hoje concentradas em especialistas como médicos, advogados, programadores e educadores.
Segundo Autor, essa mudança poderia melhorar a qualidade dos empregos, reduzir a desigualdade salarial e — assim como a Revolução Industrial fez com os bens de consumo — baratear serviços essenciais como saúde, educação e assistência jurídica.
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O ponto mais animador de sua análise surge quando ele responde à ideia de um “apocalipse da IA”, no qual o deslocamento econômico seria inevitável.
“O futuro não deve ser tratado como um exercício de previsão”, disse. “Ele deve ser tratado como um problema de planejamento. O futuro não é algo que simplesmente esperamos acontecer. Temos enorme controle sobre ele, e a qualidade desse futuro depende dos investimentos e das estruturas que criamos hoje.”
TODOS NA LINHA DE PARTIDA
Em cursos e workshops de IA que ministro para estudantes de direito e advogados — muitos preocupados com suas perspectivas profissionais — procuro reforçar essa ideia de que o futuro é mais uma questão de design do que de previsão.
O aspecto positivo do momento atual da IA é que ainda há tempo para escolhas conscientes. Embora o primeiro artigo científico sobre redes neurais tenha sido publicado em 1943, ainda estamos nos estágios iniciais da chamada IA generativa.
Ninguém está irremediavelmente atrasado. E ninguém está muito à frente. Cada um de nós, na verdade, está em uma posição privilegiada: bem na linha de partida.
Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.