Davos 2026 revela o descompasso entre clima e prioridades globais
Em Davos 2026, painéis e discussões sobre clima e sustentabilidade perderam espaço para conversas sobre geopolítica e inteligência artificial

O evento anual do Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, é um importante espaço de observação e atualização das agendas que vão orientar as lideranças globais ao longo do ano. Na edição de 2026, que ocorreu entre os dias 19 e 23 de janeiro, ficou evidente o impacto das incertezas do atual cenário geopolítico.
O Global Risks Report, publicado pelo Fórum no último mês, aponta um aumento significativo das preocupações relacionadas às tensões geopolíticas, porém demonstra uma redução na percepção dos riscos ambientais no curto prazo.
Esse dado se refletiu diretamente na programação e nas prioridades do evento. Em Davos 2026, painéis e discussões sobre clima e sustentabilidade, que tradicionalmente ocupavam posição de destaque, perderam espaço para conversas sobre geopolítica e inteligência artificial.
O crescimento dessas agendas, por si só, não é o problema. O ponto central é o risco de que esse deslocamento aconteça em detrimento da pauta climática e social, como se fosse possível tratá-las de forma dissociada.
O crescimento econômico, a competitividade global e a expansão da inteligência artificial não são viáveis sem resiliência climática, segurança energética e proteção dos recursos naturais. São sistemas intrinsecamente conectados, que se reforçam mutuamente.
Ainda assim, essa interdependência não se traduziu com a força necessária nos palcos principais, revelando um descompasso entre a gravidade da crise ambiental e o espaço que ela vem ocupando nas discussões públicas de alto nível. Existiu, sem dúvida, uma apatia generalizada circulando pelo ar frio da montanha Suíça.
O Global Risks Report demonstra uma redução na percepção dos riscos ambientais no curto prazo.
As consequências das mudanças climáticas, no entanto, já são uma realidade concreta. Nos últimos anos, práticas corporativas voltadas ao seu enfrentamento ganharam visibilidade e escala, mas há um receio crescente de que pressões geopolíticas levem a retrocessos nesses compromissos.
Trata-se de um tema que deveria atravessar todas as áreas debatidas, já que, com acontecimentos recentes, fatos e ciência provam que não há futuro econômico, tecnológico ou social estável sem uma ação imediata.
Diante desse cenário, a manutenção da pauta climática em Davos ficou, em grande medida, a cargo das organizações da sociedade civil, que desempenharam um papel relevante ao garantir que o tema seguisse presente em reuniões bilaterais e discussões a portas fechadas.

Organizações de eventos paralelos ao Fórum, como na Brazil House, Goals House, Hub Culture e InTent foram exemplos de construção de espaços de diálogo, reforçando que o que diferencia os verdadeiros líderes globais não é a negação das pressões geopolíticas, do avanço da inteligência artificial ou das demandas por crescimento, mas a compreensão de que o custo de tratar essas forças de forma isolada, sem a verdadeira responsabilização e visão do impacto gerado, pode ser alto demais.
Também merecem destaque as falas de representantes de alguns países, como a do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que ressaltou que, no atual contexto de ruptura global e de grandes potências agindo sem limites, as potências médias têm “a capacidade de contribuir para a construção de uma nova ordem que incorpore valores como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados”.
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Se Davos tradicionalmente estabelece o tom do ano, ele também deixa claro que o debate está longe de se encerrar. Ao longo dos próximos meses, uma série de encontros internacionais seguirá moldando prioridades, alianças e decisões estratégicas.
Em um cenário marcado por incertezas, a forma como esses espaços continuarão a integrar, ou fragmentar, a agenda climática será determinante para o rumo das decisões globais.
