Data centers viram vilões – e a indústria tenta mudar essa imagem
Disputa por imagem: como o setor de data center tenta reconquistar a opinião pública diante da resistência das comunidades

Com a oposição das comunidades ganhando força, defensores dos data centers partiram para uma ofensiva total de relações públicas nos Estados Unidos.
No Natal, no estado da Virgínia – que concentra o maior número de data centers do país – um anúncio parecia passar sem parar. “Os data centers da Virgínia estão… investindo bilhões em energia limpa”, dizia a narração, enquanto eram exibidas imagens aéreas de reluzentes painéis solares. “Criando empregos bem remunerados” (entram em cena trabalhadores com coletes amarelos e capacetes) “e construindo um futuro energético melhor.”
A peça foi patrocinada pela Virginia Connects, grupo ligado à indústria que investiu pelo menos US$ 700 mil em marketing digital no estado no ano fiscal de 2024.
O comercial enfatizava que os data centers pagam seus próprios custos de energia – sugerindo que isso poderia ajudar a reduzir as contas residenciais – e apresentava as instalações como motores de geração de empregos locais.
Mas as coisas não são bem assim. Embora entidades do setor afirmem que cada novo data center cria “dezenas a centenas” de empregos “bem remunerados e altamente qualificados”, alguns pesquisadores argumentam que essas estruturas geram muito menos vagas do que outros segmentos, como manufatura e armazenagem.
Greg LeRoy, fundador do grupo de pesquisa e advocacy Good Jobs First, afirma que, em seu primeiro grande estudo sobre empregos em data centers, realizado há nove anos, constatou que desenvolvedores embolsavam mais de US$ 1 milhão em subsídios estaduais para cada emprego permanente criado. Com o avanço dos hyperscalers (gigantes de infraestrutura em nuvem), esse número “continua muito próximo disso”, diz ele.
Outros especialistas corroboram essa avaliação. Um relatório de 2025 de pesquisadores da Universidade de Michigan foi direto: “Data centers não trazem empregos de tecnologia bem remunerados para as comunidades locais.”
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Uma análise recente da Food & Water Watch, organização sem fins lucrativos que monitora abusos corporativos, apontou que, na Virgínia, o investimento necessário para criar um emprego permanente em um data center foi quase 100 vezes maior do que o exigido para gerar vagas equivalentes em outros setores.
“Os data centers representam o extremo da hipercapitalização na manufatura”, afirma LeRoy. “Depois de construídos, o número de pessoas necessárias para monitorá-los é muito pequeno.” Empreiteiros podem ser acionados quando algo quebra e equipamentos são substituídos a cada poucos anos. “Mas isso não é emprego permanente”, ressalta.
IMAGEM DOS DATA CENTERS NA BERLINDA
Jon Hukill, porta-voz da Data Center Coalition – grupo de lobby do setor que criou a Virginia Connects em 2024 – afirma que a indústria “está comprometida em pagar integralmente pelo custo da energia que utiliza” e busca “responder a este momento de forma que apoie tanto o desenvolvimento de data centers quanto uma rede elétrica acessível e confiável para todos os clientes”.
Em nível nacional, segundo Hukill, o setor “sustentou 4,7 milhões de empregos e contribuiu com US$ 162 bilhões em impostos federais, estaduais e locais em 2023”.
Ainda assim, dezenas de grupos comunitários nos Estados Unidos se mobilizaram contra a expansão dos data centers, citando temores de que as instalações drenem recursos hídricos, sobrecarreguem as redes elétricas e poluam o ar ao redor.

De acordo com o Data Center Watch – projeto da empresa de segurança em IA 10a Labs –, quase 200 grupos comunitários estão atualmente ativos e conseguiram bloquear ou atrasar 20 projetos de data centers, que representariam US$ 98 bilhões em investimentos potenciais apenas entre abril e junho de 2025.
A reação negativa escancarou um problema crescente de imagem para a indústria de IA. “Com muita frequência, somos retratados como vorazes consumidores de energia, intensivos em uso de água e prejudiciais ao meio ambiente”, escreveu o profissional de marketing de data centers Steve Lim.
73% dos moradores da Virgínia atribuem aos data centers o aumento nas contas de energia.
Essa narrativa, argumenta ele, “deturpa nosso papel na sociedade e pode prejudicar nossa capacidade de crescer”. Em resposta, o setor intensificou sua comunicação.
Alguns desenvolvedores, como a Starwood Digital Ventures, em Delaware, passaram a usar anúncios no Facebook para conquistar moradores locais. As campanhas defendem que os data centers podem ajudar a manter baixos impostos sobre propriedades, gerar empregos no estado e preservar a integridade de áreas úmidas próximas.
Segundo reportagem do "Spotlight Delaware", a empresa também afirmou que criará três vezes mais empregos do que havia informado inicialmente às autoridades locais.
REAÇÃO NEGATIVA DAS COMUNIDADES
A pressão das comunidades também transformou os data centers em tema político. Na Virgínia, Abigail Spanberger venceu a eleição para governadora em novembro, em parte com a promessa de regular o setor e fazer com que os desenvolvedores paguem sua “parte justa” da eletricidade consumida.
Parlamentares estaduais analisaram 30 projetos de lei voltados à regulação dos data centers. Em meio às preocupações com o aumento das tarifas de energia, reguladores da Virgínia aprovaram uma nova estrutura tarifária para data centers de IA e outros grandes consumidores de eletricidade.
As mudanças, que entram em vigor em 2027, foram desenhadas para proteger consumidores residenciais dos custos associados à expansão dessas instalações.

Esse cenário pode, paradoxalmente, incentivar as empresas a investir ainda mais na construção de imagem. Na chamada Data Center Alley, na Virgínia, os anúncios não dão sinais de desacelerar.
Elena Schlossberg, ativista contrária aos data centers no condado de Prince William, diz que sua caixa de correio vem sendo inundada há oito meses com panfletos da Virginia Connects.
As promessas de contas de luz mais baixas, bons empregos e responsabilidade climática, afirma ela, lembram os anúncios de cigarro de décadas atrás, que exaltavam supostos benefícios do fumo para a saúde.
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Mas Schlossberg duvida que a estratégia de marketing funcione. Uma pesquisa recente mostrou que 73% dos moradores da Virgínia atribuem aos data centers o aumento nas contas de energia.
“Não dá para colocar a pasta de dente de volta no tubo”, diz ela. “As pessoas já sabem que ainda estão pagando essa conta. Elas sabem disso.”
Este artigo foi publicado no Grist, organização de mídia independente que cobre mudanças climáticas. Leia o artigo original