Só sei que nada sei: a lição socrática para uma vida boa em tempos de certezas rasas
Precisamos voltar a pensar, a questionar, a ter senso crítico, a refletir. Saber fazer as perguntas, ao invés de ter respostas prontas e limitadas

Sócrates (filósofo 469 – 399 a.C) nos deixou um legado sobre como devemos viver e sobre a importância da virtude, da justiça, e do conhecimento verdadeiro para a construção de uma vida plena e feliz.
O primeiro passo para isso seria o reconhecimento da própria ignorância, abrir caminho para uma busca contínua por conhecimento, questionamento e aprendizado. Sua base filosófica nos provoca a buscarmos a seguinte evolução:
- Ignorância consciente: saber que não se sabe. Para Sócrates, o maior obstáculo ao conhecimento não é a falta de informação, mas a ilusão de saber.
- Busca ativa da verdade (maiêutica): questionar, investigar, dialogar. Sócrates utilizava o diálogo não para trazer respostas prontas, mas para ajudar o interlocutor a refletir e encontrar suas próprias respostas.
- Ética do conhecimento: responsabilidade sobre o que se afirma. Na sua visão, o conhecimento impõe uma responsabilidade. Não se pode mais viver no "piloto automático" ou espalhar opiniões vazias (doxa) após ter buscado a verdade (episteme).
Sócrates, um dos maiores filósofos e pensadores da nossa sociedade, perguntava antes de afirmar.
Hoje, abro meu Instagram e vejo o oposto disso: opiniões fechadas, afirmações fortes, vozes muito altas impondo caminhos e conselhos, fórmulas mágicas sendo descritas e pouca – ou nenhuma – reflexão, questionamentos, conhecimento, humildade e vulnerabilidade.
O resultado disso é uma grande polarização, empobrecimento do debate e intolerância à divergência de pensamento. Dificulta o aprendizado coletivo e decisões éticas para o bem da nossa sociedade.
“Uma vida não examinada não merece ser vivida”
Sócrates
Defendemos nossas visões sem nem nos abrirmos para outro olhar. Entregamos nossas mentes e reflexões para a inteligência artificial, para um político, para um coach ou algum influenciador. Vivemos um grande "efeito Dunning-Kruger digital": achamos que sabemos tudo, mas a grande verdade é que talvez não saibamos nada.
É preciso resgatar o pensamento analítico – que, não por acaso, segundo o Fórum Econômico Mundial, é a principal habilidade de um profissional atualmente, mais até do que literacia em tecnologia.
Precisamos voltar a pensar, a questionar, a ter senso crítico, a refletir. Saber fazer as perguntas, conectar os pontos de vista, ampliar o pensamento, ao invés de ter respostas prontas e limitadas.
E, principalmente, precisamos nos lembrar: Sócrates pregava que falar sobre o que não se sabe é uma falha moral. Não é preciso saber todos os temas, ter uma opinião para tudo. Precisamos ser humildes e deixar isso para os estudiosos, pesquisadores, especialistas em seus temas. Precisamos ouvir mais, e não só falar.
