Esta agência de publicidade funciona só com criativos neurodiversos

A Ability Machine foi desenhada para respeitar os ritmos individuais, ao mesmo tempo em que oferece experiência profissional prática

Ability Machine, agência de publicidade com profissionais neurodivergentes
Crédito: Ability Machine

Grace Snelling 4 minutos de leitura

Na nova agência de publicidade Ability Machine, em Nashville, nos EUA, os criativos têm à disposição um pacote completo de ferramentas, de estúdios de podcast e fotografia a equipamentos de iluminação e softwares de design.

Mas o diferencial vai além da infraestrutura tradicional. A agência conta com salas sensoriais silenciosas, iluminação regulável e um sistema flexível de assentos. Da forma como os projetos são conduzidos ao espaço físico, cada detalhe foi pensado para atender a equipe: todos adultos com deficiência intelectual.

A Ability Machine se define como um estúdio “movido por mentes neurodivergentes” que transforma criatividade “em propósito e renda para adultos com diferentes habilidades”.

Em pouco tempo, a agência já trabalhou com marcas locais e também com nomes nacionais como Mercedes-Benz e Kind, desenvolvendo desde slogans até intervenções artísticas para lojas e campanhas publicitárias.

A Ability Machine nasceu como um desdobramento formal da organização sem fins lucrativos On the Avenue, focada em autismo. A entidade oferece um estúdio onde adultos com deficiência intelectual podem explorar paixões criativas e, em alguns casos, conquistar oportunidades de trabalho em diferentes projetos.

O fundador da On the Avenue, Tom Woodard, lidera a organização há 10 anos. Antes disso, construiu uma longa carreira em publicidade e branding, ajudando marcas a criarem jingles icônicos.

Segundo ele, a ideia da Ability Machine amadureceu aos poucos, à medida que começou a levar projetos criativos próprios para a comunidade da On the Avenue e pedir contribuições.

A Ability Machine funciona dentro do galpão de 560 metros quadrados da ONG, que já conta com sala de podcast, estúdio de som, softwares de gravação multipista e outros recursos.

O ambiente foi desenhado com acessibilidade como prioridade: diferentes opções de assento conforme a necessidade de cada pessoa, salas sensoriais para reduzir sobrecarga de estímulos e ajustes personalizados de luz e som.

“É incrível porque, se alguém diz ‘precisamos de um storyboard urgente’, podemos recorrer a um membro da comunidade e contratá-lo imediatamente”, afirma Woodard. “Há uma familiaridade com o prédio, com a equipe, com o ambiente, algo de que pessoas com deficiência intelectual precisam para prosperar.”

UM ESPAÇO PARA NEURODIVERGENTES CRIATIVOS

A rotina na On the Avenue segue o formato de um dia de trabalho convencional. Os membros chegam às 8h, iniciam com uma conversa em grupo, fazem uma caminhada pelo bairro e depois participam do chamado “aprendizado baseado em tarefas”, comparável a um plano educacional individualizado.

O objetivo é oferecer um ambiente estruturado e produtivo – algo que, para muitos adultos com deficiência intelectual, é difícil de encontrar após o fim do ensino médio, aos 18 anos.

Esse aprendizado se organiza a partir dos interesses dos próprios participantes. Um exemplo é Riley, que transformou sua paixão por esportes universitários no podcast Rowdy Riley’s Sports Review. No programa, ele já entrevistou mais de 15 jogadores e técnicos da NFL (a liga de futebol americano dos EUA). Agora, a equipe busca parceiros para monetizar o projeto.

Foi a partir de iniciativas como essa que a ideia da Ability Machine começou a ganhar forma. O conceito se consolidou quando Woodard levou um projeto de sua própria agência criativa para uma tradicional loja de doces de Nashville, a Goo Goo, e convidou membros da On the Avenue a participar.

“Estávamos reformando a loja da Terceira Avenida”, lembra Woodard. “O time da Goo Goo veio, sentamos todos à mesa e eu trouxe várias pessoas da On the Avenue. Um deles começou a desenhar Goo Goos roxos e a experimentar ideias. Aquilo despertou algo neles.”

A Ability Machine se define como um estúdio “movido por mentes neurodivergentes”.

Depois desse encontro, os membros ajudaram a finalizar o design da loja e criaram o slogan “Never Chocolate Alone” (“Nunca chocolate sozinho”), em referência às barras da marca, conhecidas por suas misturas de ingredientes.

A partir daí, Woodard passou a apresentar a nova agência a outras empresas. Vieram novos projetos: uma parceria com a Kind para criar arte em seus escritórios em Nova York; cartões de agradecimento personalizados e livros de colorir para uma concessionária local da Mercedes; e uma campanha para a cervejaria Music City Beer Co.

Nos últimos meses, Woodard oficializou a operação sob a marca Ability Machine, com apoio do parceiro criativo e estratégico Lewis e da desenvolvedora web Ally.

UM NOVO TIPO DE AGÊNCIA

O modelo de trabalho da Ability Machine é flexível. Parte do time é composta por funcionários fixos; outra parte são membros da On the Avenue que podem participar de projetos específicos, em regime parcial, recebendo por hora.

O sistema foi desenhado para respeitar os ritmos individuais, ao mesmo tempo em que oferece experiência profissional prática. Hoje, a Ability Machine já tem vários projetos em andamento. Woodard, porém, quer ampliar o alcance do modelo.

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Enquanto agências tradicionais não adaptarem seus escritórios para incluir profissionais com deficiência intelectual, ele acredita que contratar a Ability Machine para projetos menores é uma forma concreta de apoiar a comunidade.

“Eu não queria criar uma agência apenas para ser mais uma agência”, diz Woodard. “Queria construir algo com propósito.”


SOBRE A AUTORA

Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z. saiba mais