Plágio viral no TikTok: criadores acusam imitadores

Tendências virais se espalham e influenciadores republicam vídeos quase idênticos, levantando questões sobre direitos autorais

postagem de Ellie Frazier no TikTok
Créditos: Ellie Frazier/ Tiktok / Andrey Matveev/ Unsplash

Eve Upton-Clark 3 minutos de leitura

Ellie Frazier começou a postar conteúdo há três anos, compartilhando vlogs do seu dia a dia e dicas para outros criadores.

Conforme sua base de seguidores foi crescendo, ela passou a notar outros criadores publicando vídeos com roteiros assustadoramente parecidos com os seus. Os clipes tinham a mesma sensação. O estilo de edição, idêntico.

Em um exemplo, Frazier se alongava em frente a uma janela; outra criadora também se alongava diante de uma janela. Frazier cortava legumes; a outra cortava uma laranja. Isoladamente, talvez isso não chamasse tanta atenção. Mas o texto da narração usado pela outra criadora era quase uma reprodução palavra por palavra das falas de Frazier.

“Há uma diferença muito clara entre se inspirar em todo mundo, dar os devidos créditos, e roubar o roteiro de narração de alguém palavra por palavra várias vezes seguidas”, diz Frazier em uma publicação recente. “E ainda assumir nos comentários que aquilo é trabalho próprio.”

@elliewfrazier it’s just not cool  she doesn’t even follow me 沈沈沈 #contentcreators #contentcreatortips #socialmediatips ♬ original sound - ELLIE FRAZIER

Plágio – apresentar as ideias, palavras, imagens ou o trabalho de outra pessoa como se fossem seus, sem crédito –, embora muitas vezes difícil de levar à justiça, é um pecado capital na maioria das indústrias. Ainda assim, as redes sociais operam, em grande parte, como se fossem um território à parte.

O TikTok afirma que remove conteúdos que “violem ou infrinjam os direitos de propriedade intelectual de terceiros, incluindo direitos autorais e marcas registradas”.

No entanto, muitas publicações na plataforma não atingem de forma clara o limite legal para serem consideradas propriedade intelectual protegida por direitos autorais, o que faz com que a aplicação das regras recaia, muitas vezes, sobre os próprios criadores.

Com volumes massivos de conteúdo sendo enviados todos os dias, criadores “copia e cola” muitas vezes pesam o risco de serem descobertos contra a possibilidade de lucrar com um conceito viral com esforço mínimo. Há, inclusive, conteúdos dedicados a explicar exatamente como plagiar o trabalho de outras pessoas.

Determinar quem copiou quem também é, em grande medida, um exercício fútil. Em uma plataforma que prospera com a mimetização, a originalidade verdadeira é rara.

O ciclo de vida de uma tendência é conhecido: alguém cria um vídeo original. Se ele viraliza, milhares o replicam. Alguns marcam o criador original. Mas, à medida que a tendência ganha tração, esse crédito costuma se perder no algoritmo.

plágio é um pecado capital na maioria das indústrias.

Depois que a ideia é replicada o suficiente para ser rotulada como “trend”, passa a ser encarada como território livre.

Frazier não é a primeira a chamar atenção para o crescimento do plágio digital. Em um processo inédito movido em 2024, uma criadora do TikTok tentou processar outra por copiar sua “estética neutra, bege e creme” e publicar conteúdos com “estilo, tom, ângulo de câmera e/ou texto idênticos”.

Mais de um ano depois, o chamado “Sad Beige Lawsuit” foi arquivado após a autora da ação optar por não dar continuidade ao caso.

Leia também: Musk e Dorsey defendem o fim da propriedade intelectual. Isso é bom para quem?

A imitação pode até ser considerada a forma mais sincera de elogio, mas o plágio online, no fim das contas, não beneficia ninguém.

O criador original perde o reconhecimento pela ideia. O copiador abre mão da chance de desenvolver uma voz própria. E o público fica condenado a rolar um feed infinito de vídeos de baixa qualidade, quase indistinguíveis uns dos outros.


SOBRE A AUTORA

Eve Upton-Clark é jornalista especializada em cultura digital e sociedade. saiba mais