IA resolve mistério de tabuleiro romano de 2 mil anos

Ao simular milhares de partidas e analisar padrões de desgaste, pesquisadores reconstruíram as regras de um jogo de tabuleiro há muito perdido

peça de pedra, parte de jogo antigo cujas regras foram descobertas com ajuda de IA
Crédito: Walter Crist

Chris Morris 3 minutos de leitura

Em algum momento na virada do século 20, arqueólogos em Heerlen, no sudeste da Holanda, encontraram uma pedra branca lisa de aparência incomum. Sabiam que a região já havia sido o assentamento romano de Coriovallum, mas nunca tinham visto nada parecido – e não faziam ideia de sua função.

Por quase 100 anos, a pedra ficou guardada em um depósito do Thermenmuseum (Museu das Termas), um enigma que intrigava pesquisadores. Até que, há seis anos, o arqueólogo Walter Crist a notou ao passear pelo museu.

Especialista em jogos de tabuleiro antigos, Crist reconheceu que se tratava de um jogo desse tipo – embora não de um que já tivesse visto. A curiosidade foi imediata. Agora, com ajuda da inteligência artificial, ele acredita ter desvendado o mistério e até descoberto como jogar.

A pedra não chama muita atenção: mede cerca de 20 centímetros e é feita de calcário jurássico branco. Linhas gravadas formam um desenho oblongo, semelhante a um losango dentro de um retângulo. Em artigo publicado na revista "Antiquity", Crist e sua equipe detalham o que aconteceu quando programaram dois agentes de IA do sistema de jogos Ludii para tentar resolver o enigma.

Os pesquisadores fizeram a IA jogar contra si mesma milhares de vezes, testando mais de 100 conjuntos diferentes de regras inspirados em jogos europeus conhecidos, modernos e antigos. Em seguida, compararam os movimentos gerados com os padrões de desgaste na superfície da pedra, analisando quais estilos de jogo mais se alinhavam aos sulcos existentes.

peça de pedra, parte de jogo antigo cujas regras foram descobertas com ajuda de IA
Crédito: Walter Crist

Tudo indica que o tabuleiro era usado para um jogo de bloqueio – tipo de jogo em que o objetivo é impedir o adversário de se mover (pense em títulos modernos como Go ou Blokus).

Jogos desse tipo eram raros na Europa antiga e, até então, só haviam sido datados da Idade Média. A descoberta sugere que já eram praticados vários séculos antes.

Ao final, a IA e os pesquisadores identificaram nove conjuntos de regras compatíveis com o desgaste observado. Crist e sua equipe batizaram o jogo de Ludus Coriovalli – “o jogo de Coriovallum”.

“Ao combinar simulação por IA com análise de desgaste para identificar e modelar vestígios de partidas, é possível não apenas reconhecer potenciais tabuleiros, mas também reconstruir regras jogáveis que indicam como as pessoas jogavam no passado”, afirma o artigo.

tabuleiros mostram regras de jogo antigo, descobertas com ajuda de IA
Crédito: Walter Crist

E quais seriam as regras? Segundo os pesquisadores:

  • Um jogador controla quatro “cães”; o outro controla duas “lebres”.
  • Os cães começam nos quatro pontos mais à esquerda; as lebres, nos dois pontos internos do lado direito.
  • Os jogadores se alternam movendo uma peça para um espaço vazio adjacente.
  • Os cães tentam bloquear as lebres, enquanto as lebres procuram permanecer livres pelo maior tempo possível. Se forem bloqueadas, os jogadores trocam de papel e jogam novamente.
  • Vence quem conseguir durar mais tempo no papel das lebres.

Entendeu? Ótimo, porque não se trata apenas de uma reconstrução teórica. O jogo pode ser jogado online. Crist e sua equipe disponibilizaram uma simulação de Ludus Coriovalli no Ludii, aberta a qualquer pessoa que queira experimentar.

Mas por que estudar os jogos praticados por civilizações antigas? Além da curiosidade, Crist argumenta que eles oferecem uma visão mais concreta da vida cotidiana no passado e criam uma conexão com a história que vai além de números frios ou fragmentos de cerâmica.

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“A capacidade de identificar brincadeiras e jogos na arqueologia fortalece a compreensão da nossa herança lúdica e torna a vida antiga mais acessível às pessoas de hoje, já que o ato de jogar um jogo de tabuleiro é fundamentalmente o mesmo agora e há milênios”, escreve ele no artigo.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais