Qualificado demais” não é elogio — é um risco na contratação

Remover o rótulo de risco exige que você assuma a responsabilidade pela sua experiência e pelas suas intenções, simultaneamente.

“Qualificado demais” não é elogio — é um risco na contratação
DNY59 via Getty Images

Isaiah Hankel 5 minutos de leitura

Quanto mais qualificado você for hoje, mais difícil será conseguir um emprego. Isso não é um palpite. É uma realidade científica comprovada.

Um estudo recente publicado no Journal of Personality and Social Psychology descobriu que, quando os candidatos a emprego eram percebidos como "altamente capazes", altamente experientes, altamente qualificados ou simplesmente mais avançados do que o exigido para o cargo, eles tinham menos probabilidade de serem contratados do que candidatos com menor capacidade, mesmo quando todos os outros fatores eram iguais.

Os pesquisadores por trás deste estudo descobriram algo que a maioria dos recrutadores jamais admitiria: candidatos que parecem "bons demais" para uma vaga são vistos com desconfiança. Não devido a alguma falha específica, mas sim pelo que eles poderiam fazer.

Eles podem sair cedo demais. Podem esperar uma remuneração excessiva. Podem agir com arrogância. Podem desestabilizar a hierarquia. Ou podem simplesmente ficar entediados e ir embora. Portanto, os empregadores se previnem. Escolhem o caminho de menor resistência. Deixam passar os candidatos mais capazes, não por duvidarem de suas habilidades, mas por temerem suas motivações.

O RÓTULO INVISÍVEL

Cada vez mais, o rótulo de "qualificado demais" é usado para evitar confrontar formas mais profundas de preconceito contra a idade, a formação acadêmica ou contra aqueles que, na opinião deles, podem não se encaixar na hierarquia da empresa. Essas preocupações são mais emocionais do que racionais, enraizadas no medo, na insegurança e no desejo por segurança, calma e estabilidade.

Se você está no mercado de trabalho há algum tempo e tem um currículo extenso, experiência e muita formação acadêmica, com certeza já sentiu isso na pele. Você se candidatou a vagas que combinam perfeitamente com seu perfil e não recebeu nenhuma resposta. Não é coisa da sua cabeça. O sistema está te rotulando como um problema. Felizmente, esse viés pode ser superado.

Mulher sênior no trabalho
Foto: Freepik

REESCREVENDO A HISTÓRIA

O mesmo estudo mostrou que candidatos altamente capacitados podem ser contratados se souberem como reescrever a história que os empregadores contam a si mesmos. Os pesquisadores descobriram que, quando candidatos altamente capacitados tomavam três atitudes específicas, o viés de contratação contra eles desaparecia. Não diminuía, era eliminado.

Essas atitudes específicas incluem:

- Alto comprometimento com a empresa e com a função.

- Alinhamento organizacional, cultura e valores.

- Aspiração pela vaga em si, e não por qualquer vaga.

De modo geral, o maior medo dos recrutadores em relação a candidatos altamente qualificados é que eles estejam, secretamente, esperando por algo melhor. Claro, muitos estão.

Eles se candidatam a várias vagas. Mantêm as portas abertas. Mencionam que estão considerando outras oportunidades durante as entrevistas. E é exatamente isso que os prejudica.

Assim como na busca pela cultura ideal da empresa, os empregadores hoje em dia não contratam apenas por habilidades, mas sim por comprometimento. Se eles acreditam que você aceitará outra oferta ou desistirá após receber uma proposta, eles não correrão o risco. Ponto final.

O estudo mencionado anteriormente constatou que mesmo os candidatos mais qualificados eram vistos de forma mais positiva e tinham maior probabilidade de serem contratados quando demonstravam alto nível de comprometimento tanto com a empresa quanto com o cargo. Não se tratava de interesse genérico, nem de mera cortesia profissional, mas sim de comprometimento real, observável e direcionado.

O QUE FAZER

Então, como você demonstra isso? Você faz isso de três maneiras: preparação, posicionamento e linguagem.

Os três elementos trabalham juntos para mudar a percepção do empregador sobre você, de risco de evasão para primeira opção.

Os recrutadores percebem quando um candidato fez a sua pesquisa, e para profissionais experientes, a preparação é ainda mais importante. Você não pode confiar apenas no seu currículo para convencer.

Você precisa mostrar que não se candidatou à vaga apenas porque ela correspondia a algumas palavras-chave; você se candidatou porque escolheu a empresa por um motivo específico.

Muitos candidatos superqualificados, sem querer, minam seu próprio comprometimento ao dizerem coisas como: "Já tenho muita experiência nessa área". Ou, simplesmente, "Já fiz isso antes". Ou, de forma egocêntrica, "Essa vaga combina com a minha experiência".

Nenhuma dessas declarações demonstra lealdade. No máximo, demonstram neutralidade. Elas dizem: "Eu consigo fazer este trabalho", e não "Eu quero este trabalho".

COMECE MOSTRANDO O QUE VEM A SEGUIR

Para evitar se posicionar acidentalmente como alguém que está se candidatando apenas para receber um salário, você precisa parar de começar falando sobre o que já fez e começar a falar sobre o que deseja fazer a seguir. E o que deseja fazer a seguir? Deixe claro que é esta vaga.

Eles não estão pedindo para avaliar suas ambições. Estão pedindo para avaliar sua lealdade. O que eles querem ouvir é simples: “Eu me vejo aqui. Fazendo o que a empresa precisa. Evoluindo com a equipe. Permanecendo, contribuindo e crescendo.”

Eles querem uma linguagem que diga: “Esta não é uma parada temporária. É aqui que pretendo ficar.” O compromisso a longo prazo é o que constrói confiança.

É o que garante a sua contratação em um sistema que presume que pessoas como você, alguém experiente, superqualificado e com recursos, vão embora assim que algo mais atraente aparecer.

Os sistemas de contratação atuais são estruturados para minimizar o risco percebido. E, neste momento, candidatos altamente capacitados e com excelentes qualificações parecem arriscados. Não pelo que já fizeram, mas pelo que os empregadores presumem que farão no futuro.

Se você se identifica com essa situação e deseja mudá-la, precisa tornar novas suposições mais fáceis de acreditar. Não se trata de se diminuir. Trata-se de demonstrar comprometimento, não ambivalência. Colaboração, não superioridade. Foco, não distração.

Remover o rótulo de risco exige que você assuma a responsabilidade pela sua experiência e pelas suas intenções, simultaneamente.


SOBRE O AUTOR

Isaiah Hankel é o fundador e CEO da Overqualified™, consultoria de carreira que ajuda profissionais experientes a resgatar seu valor n... saiba mais