Tarifas de Trump triplicam custos de empresas nos EUA

Tarifas mais altas elevaram custos de importação, pressionando preços, lucros e contratações em empresas que empregam 48 milhões de americanos; Suprema Corte suspendeu decisão

Tarifas de Trump triplicam custos de empresas nos EUA
roberthyrons via Getty Images / Igor Omilaev via Unsplash

Josh Boak 4 minutos de leitura

As tarifas pagas por empresas de médio porte nos EUA triplicaram ao longo do ano passado, segundo uma nova pesquisa vinculada a um dos principais bancos americanos, divulgada na quinta-feira (19) — mais uma prova de que a pressão do presidente Donald Trump para aumentar os impostos sobre importações está causando disrupção econômica.

A pesquisa foi divulgada um dia antes de a Suprema Corte americana derrubar o tarifaço anunciado em 2025 pelo republicado meses depois de chegar à Casa Branca. A decisão de sexta-feira (20) está relacionada às tarifas impostas sob uma lei de poderes de emergência, incluindo as abrangentes tarifas "recíprocas" que Trump aplicou a quase todos os outros países, inclusive contra o Brasil

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Os impostos adicionais fizeram com que empresas que empregam um total de 48 milhões de pessoas nos EUA — o tipo de negócio que Trump prometeu revitalizar — tivessem que encontrar maneiras de absorver a nova despesa, repassando-a aos clientes na forma de preços mais altos, contratando menos funcionários ou aceitando lucros menores.

"Essa é uma grande mudança no custo de operação delas", disse Chi Mac, diretor de pesquisa de negócios do JPMorgan Chase Institute, que publicou a análise. "Também vemos alguns indícios de que elas podem estar deixando de negociar com a China e talvez se voltando para outras regiões da Ásia."

QUEM PAGA A CONTA SÃO AS EMPRESAS AMERICANAS

A pesquisa não especifica como os custos adicionais estão se espalhando pela economia, mas indica que as tarifas estão sendo pagas por empresas americanas. Faz parte de um crescente conjunto de análises econômicas que contestam as alegações do governo de que estrangeiros pagam as tarifas.

O relatório do JPMorgan Chase Institute utilizou dados de pagamentos para analisar empresas que podem não ter o poder de precificação de grandes multinacionais para compensar as tarifas, mas que podem ser pequenas o suficiente para alterar rapidamente suas cadeias de suprimentos e minimizar a exposição aos aumentos de impostos.

As empresas tendiam a ter receitas entre US$ 10 milhões e US$ 1 bilhão, com menos de 500 funcionários, uma categoria conhecida como "mercado intermediário".

OS EFEITOS DO TARIFAÇO

A análise sugere que o objetivo do governo Trump de reduzir a dependência direta dos fabricantes chineses está sendo alcançado. Os pagamentos à China por essas empresas foram 20% menores do que os níveis de outubro de 2024, mas não está claro se isso significa que o gigante asiático está simplesmente redirecionando seus produtos por outros países ou se as cadeias de suprimentos foram alteradas.

Os autores da análise enfatizaram, em entrevista, que as empresas ainda estão se adaptando às tarifas e afirmaram que planejam continuar estudando o assunto.

O governo Trump tem insistido que as tarifas são uma bênção para a economia, as empresas e os trabalhadores.

O governo Trump tem insistido que as tarifas são uma bênção para a economia, as empresas e os trabalhadores. Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, criticou duramente na quarta-feira (18) uma pesquisa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) de Nova York que mostra que quase 90% do ônus das tarifas de Trump recaiu sobre as empresas e os consumidores americanos.

"O estudo é uma vergonha", disse Hassett à CNBC. "É, creio eu, o pior estudo que já vi na história do Sistema do Federal Reserve. As pessoas associadas a este estudo deveriam ser punidas."

INTERESSE DA SEGURANÇA NACIONAL?

Trump aumentou a taxa média de tarifa de 2,6% para 13% no ano passado, de acordo com os pesquisadores do Fed de Nova York. Ele disse que as tarifas sobre alguns itens, como aço, armários de cozinha e gabinetes de banheiro, eram do interesse da segurança nacional do país — e declarou estado de emergência econômica para contornar o Congresso e impor uma taxa básica sobre mercadorias de grande parte do mundo em abril passado, em um evento que chamou de "Dia da Libertação".

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As altas taxas de juros provocaram pânico nos mercados financeiros, levando Trump a recuar em suas propostas e, em seguida, a iniciar negociações com diversos países, resultando em um novo conjunto de acordos comerciais. Agora, com a decisão da Suprema Corte sobre Trump ter extrapolado sua autoridade legal ao declarar estado de emergência econômica, a Casa Branca vai ter de se preparar para pagar a conta e reembolsar parte dos impostos desembolsados pelos importadores americanos.

Trump foi eleito em 2024 com a promessa de conter a inflação, mas suas tarifas contribuíram para a frustração dos eleitores com o custo de vida. Embora a inflação não tenha disparado durante o mandato de Trump até o momento, a contratação diminuiu drasticamente e uma equipe de economistas acadêmicos estima que os preços ao consumidor foram cerca de 0,8 ponto percentual mais altos do que seriam em outras circunstâncias. (Associated Press)


SOBRE O AUTOR

Josh Boak é jornalista da Associated Press e cobre temas relacionados a política e economia. saiba mais