Investir no clima é óbvio — e este fundo quer provar
A Obvious Ventures acaba de levantar US$ 360 milhões e afirma que, mesmo com recuos políticos e menos hype, a tecnologia climática continua sendo uma das apostas mais racionais do mercado

Quando a Obvious Ventures foi lançada há 12 anos, com foco em empresas com impacto positivo no mundo, a ideia era uma aposta contrária à tendência: startups que abordassem questões climáticas, de saúde e resiliência econômica poderiam gerar grandes retornos, e não apenas um impacto positivo superficial.
Fundada pelo cofundador do Twitter, Ev Williams, e outros, a empresa apoiou companhias como a Beyond Meat, a Recursion Pharmaceuticals (empresa de descoberta de medicamentos por IA) e a Diamond Foundry, que produz diamantes sustentáveis cultivados em laboratório.
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Em 2020, outras empresas de capital de risco entraram no mercado de investimentos climáticos. O investimento geral em tecnologia climática disparou. Agora, com a implementação de políticas anti-clima pelo governo de Donald Trump e a retração de alguns investidores, a Obvious está se mobilizando.
Recém-saída do fechamento de seu quinto fundo — com o valor exato de US$ 360.360.360 — a empresa permanece otimista. Conversamos com o diretor administrativo Andrew Beebe sobre o crescimento da Obvious e o estado atual dos investimentos climáticos na era Trump.
INVESTIMENTOS COM IMPACTO POSITIVOS ESTÃO MAIS POPULARES
No início, a abordagem da Obvious era incomum. “Começamos com a ideia básica de que as maiores empresas da nossa época serão aquelas que resolverem os maiores problemas do mundo”, diz Beebe.
Algumas pessoas interpretaram isso como “investimento de impacto”, que só traria retornos modestos. Mas a Obvious pensava diferente: a tese era que resolver desafios globais poderia impulsionar o sucesso financeiro.
Com o tempo, à medida que a Obvious Ventures obtinha sucessos iniciais com empresas como a Beyond Meat, um número crescente de investidores seguiu na mesma direção. (A Beyond Meat enfrentou dificuldades desde então, mas teve o IPO de melhor desempenho nos EUA em 2019.)
“Doze anos depois, muitas empresas de capital de risco copiaram, ou melhor, se inspiraram em nossa linguagem.”
Andrew Beebe, da Obvious
“Doze anos depois, muitas empresas de capital de risco copiaram, ou melhor, se inspiraram em nossa linguagem”, afirma Beebe. “Mas nós apreciamos isso. Definitivamente consideramos a imitação uma forma sincera de elogio. E por causa disso, mas também por causa do sucesso dessas empresas pioneiras, tem sido mais fácil explicar o que significa ‘impacto global’", diz o executivo.
Ainda segundo o diretor da Obvious, "isso é importante com os sócios comanditários. Mas também é muito importante com os fundadores, para que não estejamos apenas recebendo, sabe, um serviço de limpeza de tapetes de ioga ou algo do tipo, mas sim ideias extraordinárias sobre como reduzir drasticamente o custo da energia geotérmica ou usar IA para a descoberta de medicamentos. A grande mudança é que acho que mais pessoas conseguem entender com mais facilidade o que fazemos e por que fazemos. E o movimento de empresas com impacto global positivo está mais forte do que nunca.”
INVESTIDORES CLIMÁTICOS INTELIGENTES NÃO ESTÃO RECUANDO
Com a mudança de rumo do governo do governo nos Estados Unidos em relação à política climática — retirando bilhões de dólares em financiamento para projetos de energia limpa, créditos fiscais para veículos elétricos e outros incentivos, e investindo mais na indústria de combustíveis fósseis — o investimento climático caiu. Mas os fundamentos não mudaram, e Beebe afirma que investir no clima ainda faz sentido.
"Eu adoro investir em clima porque é a macroeconomia por excelência."
Andrew Beebe, da Obvious
“Por definição, as empresas de capital de risco sobrevivem aos ciclos presidenciais. E, neste caso, com facilidade, porque só temos mais dois anos. Mas, mais importante ainda, no que diz respeito ao clima, eu adoro investir em clima porque é a macroeconomia por excelência. Infelizmente, conseguimos prever com muita precisão para onde as coisas estão indo. E isso nem sempre é verdade", analisa Beebe.

Na área da saúde, é difícil prever o futuro, avalia o executivo. "Mas o clima, o problema literalmente piora a cada dia, mesmo que o governo opte por ignorá-lo — muitas vezes, porque opta por ignorá-lo. E, no entanto, há muitos investidores nos EUA que dizem: ‘Bem, o apoio do governo acabou. E veja só, as pessoas não estão mais comprando veículos elétricos. Então, vamos em frente.’ E eu adoro isso. Esses turistas deveriam voltar para casa. E, suponho, voltar para o SaaS corporativo ou o que for. Enquanto isso, tanto do lado dos fundadores quanto do lado dos investidores, as pessoas que realmente entendem a ciência e realmente entendem a macroeconomia não vão a lugar nenhum.”
Com o crescimento do investimento climático nos últimos anos, a Obvious Ventures concentrou grande parte de seu último fundo em outras áreas, como saúde e robótica. O setor climático "ficou realmente supervalorizado e inflacionado", diz ele. Mas agora é um investimento melhor. "Foi apenas no último ano, e neste ano, que me sinto muito mais confortável em investir pesado em projetos climáticos."
A Lei One Big Beautiful Big Act reduziu drasticamente o apoio a uma ampla gama de startups climáticas. Ainda assim, Beebe argumenta que algumas das medidas presentes na Lei de Redução da Inflação original não eram necessárias. "Eu apoiei muito o projeto de lei climática como americano, como terráqueo", afirma.
“Mas, do ponto de vista de investimento, houve muita expectativa em torno disso, e muito dinheiro foi investido em coisas que eu não achava que dariam certo. Nós meio que recuamos e, de um total de talvez 25 empresas, apenas uma foi realmente impactada por toda essa polêmica. Agora, por causa disso, muitas dessas coisas que eu não achava que mereciam investimento não vão receber mais investimento. Eu diria que um exemplo disso é a captura direta de ar — muita gente está realmente interessada nisso como categoria de investimento, mas eu não acredito. Então, acho que muitas dessas coisas vão acabar fracassando.”
"Estou mais otimista em relação ao cenário de investimentos e ao clima do que nos últimos cinco anos."
Andrew Beebe, da Obvious
Beebe acredita que outras tecnologias, desde aquelas que ajudam a rede elétrica até a aviação elétrica, podem crescer agora. "Todas essas coisas não estão recebendo tanta atenção e têm preços melhores, mas são soluções incríveis e melhores do que as que existem hoje", diz. "É difícil dizer que estamos redobrando nossos esforços em relação ao clima, porque sempre estivemos envolvidos nisso, mas, com certeza, estou mais otimista em relação ao cenário de investimentos e ao clima do que nos últimos cinco anos."
AINDA HÁ ESPAÇO PARA OTIMISMO SOBRE O CLIMA
Em seu último relatório anual, a Obvious inclui algumas previsões de Beebe sobre o que pode acontecer na próxima década — como a ideia de que teremos energia tão barata que não precisaremos medir e que pararemos de vender carros movidos a gasolina.
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Apesar dos desafios, Beebe está otimista. "Adoro aquela citação de Gates que diz que superestimamos o que podemos fazer em dois anos e subestimamos o que podemos fazer em 10", afirma. “Previsões para a próxima década são relativamente fáceis para mim, mas o curto prazo é outra história. Sabe, sou um otimista nato, sou investidor de capital de risco, temos que ser assim. Mas acho que, em geral, sou muito mais otimista do que muita gente por aí.”

Mesmo com a “retórica infeliz” do governo federal, o executivo afirma que estados, empresas de serviços públicos e startups continuam avançando com soluções. As montadoras americanas correm o risco de ficar para trás no mercado de veículos elétricos, mas, globalmente, o setor continua em plena expansão.
“O resto do mundo também já percebeu que energia solar com armazenamento, energia eólica com armazenamento, é muito mais barata do que gás natural”, diz ele.
“A maioria das empresas de serviços públicos dos EUA também já percebeu isso. Infelizmente, há algumas pessoas no governo que, na minha opinião, também sabem disso, mas decidiram simplesmente ignorar o problema. Isso não vai durar. Este será o nosso maior ano em termos de instalações de energia solar até agora, e acho que provavelmente veremos algo semelhante no próximo ano. Depois disso, haverá uma queda sem grandes mudanças. Mas acho que veremos algumas mudanças. Estou bastante otimista", explica Beebe.