5 perguntas para Tracy Mann, autora do livro “O mundo todo é Bahia” e consultora do SXSW

Tracy Mann, autora do livro "O mundo todo é Bahia" e consultora do SXSW
Crédito: Divulgação

Redação Fast Company Brasil 4 minutos de leitura

A Bahia deu a Tracy Mann a régua e o compasso. A norte-americana, conhecida como a “embaixadora do Brasil” no South by Southwest (SXSW), realça que a raiz de sua relação com a criatividade brasileira vem de antes – muito antes de Austin.

É uma conexão mais profunda do que a construída recentemente, quando passou a apoiar também o SP2B, festival de inovação em São Paulo.

No seu novo livro "O mundo todo é a Bahia", Tracy volta aos anos 1970, quando viveu em Salvador e registrou a experiência em diários pessoais. A publicação será lançada hoje (23/02), ás 19h30 no Bar Balcão em São Paulo.

Entre descobertas e inseguranças da juventude, acompanhou de perto uma cena cultural em ebulição e conviveu com nomes como Gilberto Gil e Dominguinhos. Viu também o lado nada glorioso do período: a ditadura militar.

Na conversa a seguir, ela revisita os encantos, os aprendizados e as inspirações brasileiras que a acompanham desde então.

FC Brasil – Você revela de maneira muito transparente um lado pessoal que pouca gente conhece: sua história como adolescente e jovem no Brasil dos anos 70. O que a motivou a revelar as suas memórias neste momento?

Tracy Mann – O tom do livro veio dos diários que escrevi durante os anos que vivi no Brasil. Fiz a escolha de deixar a menina que eu era, com todas as suas frescuras e inseguranças, ser a voz da história.

Estou trabalhando neste livro há mais de 10 anos. Demorou para tomar a forma que você vê agora. Espero que ele abra uma nova jornada para mim como escritora.

Já estou terminando um romance sobre o Parque Lage no finalzinho da ditadura. O Brasil não para de me fascinar.

FC Brasil – Os EUA adotaram políticas duras com os estrangeiros. O Brasil está embargado de conseguir passaportes, por exemplo. Nos anos 70, você chegou com o olhar estrangeiro sobre o Brasil que passava por um período de ditadura. Que paralelo você faz entre hoje e o que viveu por aqui?

Tracy Mann – Uma das coisas mais interessantes é como as pessoas se conformam com a autocracia. Não entendi como a vida da classe média alta em São Paulo continuava normal na década de 70.

Ainda tem muita gente que não entende o tamanho do Brasil e o seu poder econômico.

Não conheci os ativistas paulistas da época e, depois de entender que tinha gente morta, torturada, censurada, não me conformei que a vida das pessoas continuasse sem grandes repercussões.

No início do mandato de Donald Trump, senti que estávamos passando pela mesma coisa, fingindo que não era tão ruim o que estava acontecendo. Mas depois de Minneapolis, vi o povo aqui acordar. Acho que vai ter uma espécie de revolução, mas não dá para prever o que vai acontecer. 

FC Brasil – Você viveu no Brasil e, hoje em dia, se autointitula “brasilianista”. Quando precisa explicar a brasilidade para estrangeiros, o que costuma destacar?

Tracy Mann – Sou brasilianista de rua e de alma. Quando falo do Brasil, começo pela potência do país. Ainda tem muita gente que não entende o tamanho do Brasil e o seu poder econômico.

Falo da diversidade geográfica e das pessoas. Falo da cultura que tem um papel essencial na vida dos brasileiros. Falo do astral ou axé – ou qualquer palavra que possa ser usada para descrever a alma brasileira que é, pra mim, sempre cheia de possibilidade. O ditado “o Brasil é o país do futuro” é um mantra para mim.

Fast Company Brasil – O “Brasil core” está em alta. O país está no Oscar pelo segundo ano seguido, o número de turistas estrangeiros cresce, artistas que vêm para cá enaltecem nossa cultura. Qual o papel do soft power brasileiro no mercado de inovação?

Tracy Mann – Percebo que as inovações brasileiras são muito under-reported [pouco divulgadas] no mundo lá fora. Tantas tecnologias existentes, tantas soluções desenvolvidas pelo brasileiro para os desafios reais escondidas do olhar estrangeiro.

mulher caminha ao lado de uma parede decorada com a bandeira brasileira
Crédito: Bia Santana/ Pexels

Agora, o soft power da cultura brasileira ainda é mal utilizado. Ela é o diferencial do Brasil, aquilo que atrai as pessoas para engajar com a inovação e a economia brasileiras.

FC Brasil – Você conviveu com algumas lendas da música nacional, como Gilberto Gil e Dominguinhos, além de ter vivido e estudado em Salvador. Há um ditado que diz que você sai da Bahia, mas a Bahia não sai de você. O que você carrega da Bahia?

Tracy Mann – Acho importante destacar que a cena da Bahia de minha época foi algo única. Além dos grandes nomes, como Gil, Caetano, Gal, tinha tanta gente de grande talento – Mario Cravo Neto, José e Zizi Possi, Waly Salomão.

Respiramos essa criatividade. Ela se imprimiu na gente. Sinto que encontrei a minha tribo na Bahia e esta tribo me sustenta até hoje. Do fundo do sertão até a praia de Arembepe, a Bahia sempre será o meu norte, a minha régua e o meu compasso.

SERVIÇO

Lançamento "O Mundo todo é a Bahia"
Horário: 19h30
Endereço: Brar Balcão - Rua Dr. Melo Alves, 150 - Cerqueira César, São Paulo


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Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil. saiba mais