Mulheres em conselhos impulsionam ou freiam a inovação?

Companhias com bom desempenho podem esperar mais inovação ao incluir mais mulheres em seus boards.

mulheres na diretoria das empresas
Crédito: master1305/ Getty Images

Stephen J. Smulowitz 4 minutos de leitura

Mulheres nos conselhos tornam as empresas mais inovadoras ou mais avessas ao risco? A resposta é: os dois. Tudo depende de como a companhia está performando em relação às próprias metas.

Em um estudo recente, analisamos 524 empresas do S&P 1500 entre 1999 e 2016, medindo inovação a partir da atividade de patentes, pois elas refletem tanto produção criativa quanto disposição para assumir riscos.

Patentes exigem investimentos significativos em ideias novas que podem fracassar, divulgação de informações proprietárias e custos jurídicos elevados. Em outras palavras, representam apostas reais no futuro.

Os resultados revelaram um padrão marcante. Quando as empresas tinham desempenho abaixo de suas metas, a entrada de mais mulheres no conselho estava associada a uma redução no número de patentes registradas.

Já quando as companhias superavam seus objetivos, o cenário se invertia: quanto maior o número de mulheres no conselho, maior a produção de patentes. O mesmo ocorreu em momentos de folga financeira: conselhos com mais mulheres estavam ligados a um aumento da atividade inovadora.

O quadro mudou quando analisamos as chamadas inovações radicais – patentes que figuram no top 10% em número de citações. Nesse universo de alto risco e alto retorno, prevaleceu o efeito mais conservador.

conselhos com mais mulheres parecem priorizar a sobrevivência da organização quando os resultados se deterioram.

Quando o desempenho da empresa ficava abaixo das aspirações, o aumento da presença feminina no conselho vinha acompanhado de menos inovações radicais. E não houve aumento correspondente dessas inovações quando os resultados superavam as metas.

Um dado surpreendeu. Previmos que conselhos com mais mulheres reduziriam a inovação quando as empresas se aproximassem da falência. O que ocorreu foi o oposto: à medida que o risco de insolvência crescia, conselhos com mais mulheres ampliavam o número de patentes.

Isso sugere que diretoras podem lutar mais intensamente pela sobrevivência da empresa por meio da inovação quando enfrentam ameaças existenciais.

POR QUE ISSO IMPORTA

Entre 2000 e 2024, a presença de mulheres nos conselhos das empresas do S&P 500 subiu de 27% para 34%. Ainda assim, pesquisas anteriores apresentavam conclusões conflitantes sobre o impacto dessas diretoras.

Alguns estudos indicavam que mulheres reduzem a propensão ao risco corporativo; outros mostravam que elas estimulam inovação e criatividade. Nosso trabalho sugere que ambas as perspectivas estão corretas, dependendo do contexto.

Para empresas e reguladores que defendem maior diversidade de gênero nos conselhos, o estudo traz implicações práticas. Companhias com bom desempenho podem esperar mais inovação ao incluir mais mulheres em seus boards.

Essas diretoras tendem a agregar perspectivas diversas, aprimorar a tomada de decisão e melhorar a alocação de recursos, o que pode se traduzir em mais patentes.

Por outro lado, empresas com desempenho fraco podem ver conselhos com maior presença feminina priorizando estabilidade em vez de inovação arriscada. E isso não é necessariamente negativo.

Pesquisas mostram que bancos liderados por mulheres tiveram menor probabilidade de quebrar durante a crise financeira e que empresas com mais diretoras enfrentam menos estresse financeiro. A redução da inovação em tempos difíceis pode refletir gestão prudente de risco – e não mera aversão a ele.

Leia mais: O mito da abelha-rainha – quando só há espaço para uma mulher no topo

Teorias tradicionais sugerem que desempenho ruim leva a buscas mais arriscadas por soluções. Mas conselhos com mais mulheres parecem priorizar a sobrevivência da organização quando os resultados se deterioram. É possível que avaliem que tentativas fracassadas de inovação poderiam agravar uma situação já delicada.

O estudo também dialoga com o fenômeno do penhasco de vidro (“glass cliff”), quando mulheres assumem cargos de liderança justamente em períodos de crise.

Nossos achados indicam que essas diretoras podem oferecer exatamente o que empresas em dificuldade precisam: avaliação cautelosa de riscos e foco na sobrevivência, em vez de gastos potencialmente desperdiçados com inovação incerta.

O QUE AINDA NÃO SABEMOS

Medimos inovação por meio de patentes, mas muitas inovações nunca se transformam em registros formais. Ainda não está claro como mulheres nos conselhos influenciam outras formas de inovação, como direitos autorais, segredos comerciais ou vantagem de pioneirismo.

Também não sabemos exatamente quais mecanismos explicam as diferenças observadas. Diretoras defendem ativamente estratégias distintas de inovação? Elas alteram a dinâmica das discussões no conselho? Influenciam indiretamente as decisões do CEO e da equipe executiva? Pesquisas futuras precisarão abrir essa “caixa-preta” da tomada de decisão nos conselhos.

Por fim, é preciso avaliar os efeitos de longo prazo. Medimos o volume de patentes, mas não se elas se traduziram em sucesso comercial ou vantagem competitiva. Entender se os padrões de inovação identificados efetivamente melhoram o desempenho das empresas será crucial para orientar decisões estratégicas.


SOBRE O AUTOR

Stephen J. Smulowitz é professor assistente de administração estratégica na Universidade Wake Forest. saiba mais