Colômbia terá candidata gerada por IA nas eleições; entenda como vai funcionar

Representada nas redes sociais como uma mulher de pele azul e voz sintetizada, Gaitana não é uma pessoa física

Candidata azul IA da Colômbia.
Foto: Instagram/ Gaitana_IA

Joyce Canelle 3 minutos de leitura

A menos de três semanas das eleições legislativas na Colômbia, uma iniciativa inédita ganhou espaço no debate público. Pela primeira vez, uma inteligência artificial (IA) foi lançada como candidata ao Congresso. Batizada de Gaitana, a plataforma digital concorre ao Senado e à Câmara dos Representantes pelo Distrito Eleitoral Especial Indígena com a proposta de transformar a forma de decidir e votar projetos de lei no país.

Representada nas redes sociais como uma mulher de pele azul e voz sintetizada, Gaitana não é uma pessoa física, mas um sistema criado para reunir opiniões, organizar propostas e definir votos com base no consenso da comunidade que a acompanha. O projeto foi idealizado por Carlos Redondo, integrante do povo Zenú, na região do Caribe colombiano.

Segundo publicado pela imprensa espanhola, a candidatura aparece na cédula como independente, identificada pelas iniciais IA, a legislação colombiana não permite que uma IA seja formalmente registrada como candidata. Por isso, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que Redondo e outro representante humano ocupem as cadeiras, caso eleitos, comprometendo-se a seguir integralmente as decisões produzidas pela plataforma.

COMO FUNCIONA A CANDIDATURA DIGITAL?

O funcionamento da proposta é baseado em participação coletiva. Segundo o criador, a plataforma recebe sugestões de temas e projetos de lei enviadas pelos usuários e a partir disso, o sistema organiza as informações, resume o conteúdo e apresenta versões simplificadas para facilitar a compreensão.

Projetos extensos são condensados em materiais visuais e explicativos. A comunidade, que atualmente reúne mais de dez mil participantes entre indígenas e afro-colombianos, analisa o conteúdo e registra suas posições. O sistema então compila as respostas e transforma o resultado em uma decisão objetiva.

A regra definida é simples, quando um dos lados alcança 50% mais um dos votos registrados, considera-se formado o consenso. Essa passa a ser a orientação que os representantes humanos deverão seguir nas sessões plenárias do Congresso.

Redondo afirma que a inspiração vem das práticas tradicionais das comunidades indígenas, nas quais as decisões são tomadas após diálogo amplo. Para ele, a tecnologia apenas traduz para o ambiente digital um modelo coletivo já existente.

PROPOSTA ANTI-SISTEMA

A candidatura de Gaitana se apresenta como uma alternativa ao modelo político tradicional, o criador do projeto critica o que considera distanciamento entre parlamentares e as demandas reais da população, ele afirma que, nos últimos anos, muitos projetos de lei considerados pouco relevantes dominaram a pauta legislativa.

Dentro dessa lógica, a proposta também prevê redução de estruturas internas de gabinete, segundo Redondo, a plataforma não necessitaria de parte da equipe técnica normalmente vinculada a um congressista. O regimento interno elaborado pelo grupo estabelece que a candidatura abriria mão de determinados benefícios associados ao cargo.

Ainda assim, o idealizador reconhece que a tecnologia enfrenta limites, questões relacionadas à segurança de dados e à gestão de opiniões muito divergentes são apontadas como desafios. O sistema opera atualmente com três pequenos servidores, e o grupo afirma que o impacto ambiental é reduzido.

DESAFIOS E INCERTEZAS

Um dos questionamentos envolve a possibilidade de manipulação do processo participativo, caso uma maioria organizada decidisse boicotar votações estratégicas, os representantes humanos teriam de cumprir a orientação gerada pela plataforma. O criador admite a hipótese, mas afirma que seria necessária uma mobilização expressiva para alterar decisões de forma coordenada.

Outro ponto em aberto é o real alcance do projeto entre os jovens eleitores, pesquisas indicam que apenas um terço das pessoas com menos de 24 anos pretende comparecer às urnas, e a adesão dessa faixa etária pode ser determinante para o desempenho da candidatura.

A experiência colombiana coloca o país no centro de um debate mais amplo sobre o uso de tecnologias digitais na política, ao propor que decisões legislativas sejam definidas por um sistema alimentado pela participação coletiva, Gaitana IA testa os limites entre representação tradicional e deliberação mediada por dados.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais