SXSW 2026: 7 speakers para acompanhar o futuro sem se desconectar do humano
Neste edição do festival, temas como saúde social, ética tecnológica e ‘inteligência artificial emocional’ aparecem com força

O debate sobre como garantir que o humano permaneça no centro do futuro promete ganhar destaque na edição deste ano do South by Southwest, que acontece em Austin, no Texas, entre 12 e 18 de março. Temas como saúde social, ética tecnológica e ‘inteligência artificial emocional’ aparecem com força, principalmente, nas vozes de sete pesquisadoras.
Logo na abertura do evento, a autora best-seller Jennifer Wallace explora o conceito de mattering (sentir que importamos), título do seu último livro. Trabalhamos, mas em geral, não estamos nos sentindo vistos. O que está em jogo não é apenas produtividade, mas o reconhecimento humano.
O ponto que ela ressalta é que não basta ocupar um lugar ou ter um trabalho importante, é preciso sentir que fazemos diferença. A partir de suas pesquisas, ela aponta caminhos práticos para cultivar esse senso de valor, um antídoto potente para a solidão e o burnout que marcam o nosso tempo, e que não nascem apenas do excesso de demandas, mas da ausência de significado relacional.
É nesse contexto que a especialista Kasley Killam, autora de "Saúde Social" (publicado no Brasil pela editora Manole), retorna ao SXSW trazendo uma provocação que já havia ganhado destaque no ano anterior: a saúde social está hoje onde a saúde mental estava há 10 ou 15 anos, ou seja, à beira de um ponto de virada.
Este ano, ela apresentará tendências e inovações que estão moldando um movimento mundial crescente em torno da conexão humana como pilar de longevidade, bem-estar e florescimento.
Mas talvez uma das provocações mais desconfortáveis e necessárias venha de Susan McPherson, autora de "The Lost Art of Connecting" (A arte perdida de se conectar, em tradução livre). Para ela, o problema não é a tecnologia em si, mas o uso que fazemos dela para evitar aquilo que sustenta relações reais: a fricção.
Em nome da eficiência, substituímos o cuidado por conveniência, evitamos conversas difíceis e perdemos, silenciosamente, a capacidade de sustentar o desconforto e a presença do outro. O resultado é um enfraquecimento do nosso “músculo da conexão”.
Sua proposta é mostrar caminhos para reconstruir confiança, colaboração e pertencimento. Ela aborda ainda como fazer escolhas conscientes nos relacionamentos e no ambiente digital. E como voltar a sustentar as conversas que temos evitado.

Essa discussão ganha ainda mais relevância quando atravessada pelo avanço da inteligência artificial. O painel “Reclaiming Our Humanity in the Age of AI” (Recuperando nossa humanidade na era da IA), traz Karen Hao propondo uma mudança importante de perspectiva: o desafio da IA não é apenas tecnológico, mas ético, social e relacional.

Karen é jornalista premiada, cobre a OpenAI desde 2019, foi reconhecida por investigar a interseção entre inteligência artificial e sociedade. Ela é autora do livro "The Empire of AI" (O império da IA, em tradução livre) e lidera a AI Spotlight Series do Pulitzer Center, programa que já capacitou milhares de jornalistas para cobrir IA com rigor e profundidade.
Seu trabalho já recebeu prêmios como o American Humanist Media Award (2024) e o National Magazine Award (2022), consolidando sua voz como uma das mais relevantes no debate sobre IA e humanidade.
Neste painel, ao lado de Karen estará Timnit Gebru. Nascida na Etiópia, é uma das vozes mais influentes do mundo em ética da inteligência artificial.

Pesquisadora, cientista da computação e especialista em polarização algorítmica, ela é fundadora e diretora do DAIR Institute, organização independente dedicada a desenvolver pesquisas em IA mais responsáveis, inclusivas e socialmente orientadas. Também cofundou a Black in AI, comunidade global que apoia pesquisadores negros na área de inteligência artificial.
Na mesma direção, a cientista Rana el Kaliouby, autora de "Girl Decoded" ("Decodificada"), reforça a urgência de um futuro em que a inteligência artificial seja centrada no humano.

Criada no Egito e no Kuwait – sua mãe foi uma das primeiras programadoras de computador do Oriente Médio –, Rana tornou-se pesquisadora em Cambridge e no MIT até fundar a Affectiva, empresa spin-off do MIT Media Lab, e é pioneira mundial no campo da inteligência emocional artificial (emotion AI).
Sua tecnologia, capaz de identificar emoções humanas a partir de expressões faciais e variações de voz, é usada por um quarto das empresas da Fortune Global 500. Professora na Harvard Business School, sua trajetória é dedicada a um objetivo claro: humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize.
Ela também atenta para um ponto relevante: enquanto avançamos na tentativa de tornar as máquinas mais empáticas, corremos o risco de nos tornar mais mecânicos, mais impacientes, mais funcionais e menos disponíveis para a complexidade do outro.
O line up conta ainda com Jillian Turecki, autora de "It Begins with You" ("Começa com você: 9 verdades sobre o amor que ninguém te contou"), que reforça que relações saudáveis não são fruto de sorte ou química, mas de competência.

Autoconhecimento, regulação emocional, clareza de valores e comunicação honesta deixam de ser temas periféricos para ocupar um lugar estratégico, tanto na vida pessoal quanto no ambiente de trabalho.
Equipes não colapsam apenas por falta de estratégia. Colapsam por falta de confiança. E confiança não se constrói com alinhamento superficial, mas com segurança para atravessar diferenças.
Ao acompanhar o SXSW, de perto ou à distância, talvez a dica mais valiosa seja observar não apenas as tecnologias apresentadas, mas o que elas revelam sobre a forma como estamos nos relacionando.
Onde, na sua rotina, as pessoas estão performando mais do que se sentindo relevantes? Isso que você está fazendo te ajuda a construir vínculos melhores? Se a resposta for não, talvez esteja faltando uma parte essencial da equação.
Por isso, mais do que acompanhar tendências, o convite dessa edição do “South by” como carinhosamente chamamos o evento, é quem estamos nos tornando uns para os outros? Porque não será a sofisticação da tecnologia que definirá a qualidade do nosso futuro, mas a qualidade das relações que conseguirmos sustentar dentro dele.
Dicas de leitura
- "Mattering: The Secret to a Life of Deep Connection and Purpose", Jennifer Wallace (Penguin Random House, 2026)
- "Never Enough: When Achievement Culture Becomes Toxic", Jennifer Wallace (Penguin Random House, 2023)
- "The Art and Science of Connection: Why Social Health Is the Missing Key", Kasley Killam (HarperCollins, 2024)
- "The Lost Art of Connecting: The Gather, Ask, Do Method", Susan McPherson (McGraw-Hill, 2021)
- "Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman's OpenAI", Karen Hao (Penguin Press, 2025)
- "Decodificada", Rana el Kaliouby (Editora Nacional, 2020)
- "It Begins With You: The 9 Hard Truths About Love", Jillian Turecki (HarperOne/HarperCollins, 2025)
Dicas de painéis
- Keynote: Jennifer B Wallace
Jennifer Breheny Wallace
12 de março, 13h
Hilton Grand Ballroom (Salon HJK) - Featured Session: Social Health Trends & Predictions: Connection Is the New Frontier
Kasley Killam
12 de março, 16h
Hilton Grand Ballroom (Salon HJK) - How to Meaningfully Connect in a World That Has Gone to Sh*t
Susan McPherson
12 de março, 16h
Hilton Austin Downtown (Salon B) - Featured Session: Reclaiming Our Humanity in the Age of AI
Karen Hao & Timnit Gebru
15 de março, 16h
JW Marriott – Salon 6-8 - Keynote: Why the Future of AI Must Be Human Centric
Rana el Kaliouby
15 de março, 13h
Hilton Austin Downtown – Hilton Grand Ballroom (Salon HJK) - Featured Session: The Three Laws of a Healthy Relationship
Jillian Turecki
17 de março, 10h
JW Marriott – Salon 1-4
