“Saunas para rãs” entram na luta contra doença que devasta anfíbios
Uma alternativa simples e de baixo custo foi desenvolvida para combater uma doença que está matando rãs na Austrália

Em um parque perto de Canberra, na Australia, uma série de pequenas caixas brancas em formato de pirâmide faz parte de um novo experimento: será que “saunas para rãs” podem ajudar a trazer de volta uma espécie ameaçada?
A rã-verde-e-dourada – um anfíbio típico da Austrália, cujo coaxar soa como um cruzamento entre uma ferramenta elétrica e um pato grasnando – já está extinta na região. Como outras espécies de anfíbios pelo mundo, ela foi vítima de um fungo letal chamado quitrídio, que vem dizimando populações há décadas.
Agora, cientistas estão reintroduzindo o vibrante animal na esperança de que uma intervenção de design ajude na sua sobrevivência. A “sauna” tem um desenho simples: tijolos dentro de uma pequena estrutura plástica que aquece sob o sol. A rã gosta de se aquecer e, por sorte, as altas temperaturas matam o fungo.
“A tecnologia que estamos usando é extremamente simples”, diz Simon Clulow, professor de ecologia da conservação na Universidade de Canberra e líder da pesquisa. “Isso é positivo, porque tudo o que fazemos em ciência e conservação, idealmente, precisa ser acessível, acessível financeiramente e escalável.”
Clulow começou a desenvolver a ideia em seu doutorado, quando percebeu que sapos em um recinto da universidade gostavam de se abrigar nos buracos de tijolos – provavelmente porque se sentiam protegidos e mais aquecidos ali dentro. Ao mesmo tempo, ele sabia que o fungo quitrídio é mais perigoso quando os sapos ficam frios.
“Isso levou à seguinte pergunta: seria possível criar bolsões de refúgio contra a doença ao gerar pequenos pontos quentes no ambiente?”, explica.
FUNGO MORTAL
No começo, Clulow e outros pesquisadores testaram tijolos pintados de preto, mas eles não aqueciam o suficiente. A solução foi adicionar uma pequena estufa plástica para manter o calor. Pesquisas já demonstraram que esse tipo de ambiente faz diferença.
“Sabemos que, se mantivermos os animais em um gabinete com temperatura controlada nesse intervalo por apenas alguns dias, geralmente há eliminação completa [do fungo]. Mas mesmo picos de calor de curto prazo já têm efeitos benéficos claros”, explica.

A rã-verde-e-dourada já foi comum ao longo do litoral leste da Austrália. Até que, nos anos 1980, o fungo devastou a população, assim como ocorreu com diversas outras espécies. Restaram apenas bolsões isolados ao longo da costa.
Curiosamente, os locais onde a espécie sobreviveu eram um pouco mais quentes no inverno e tinham água levemente mais salina.
Isso levou à segunda parte da intervenção: pequenos lagos com água um pouco mais salgada, que estudos indicam também eliminar o fungo sem prejudicar os animais. Os cientistas apelidaram esses laguinhos salinos de “spas”, instalados ao lado das saunas.

O novo experimento é o maior do tipo até agora. A equipe implementou 15 áreas úmidas experimentais espalhadas por centenas de quilômetros quadrados no Território da Capital Australiana, mantendo algumas áreas como controle para comparar resultados.
Cerca de 450 rãs já foram soltas este ano. A primeira geração foi criada em cativeiro e recebeu um reforço adicional: uma vacina contra o quitrídio. A próxima geração, nascida na natureza, dependerá das saunas e dos spas para combater o fungo.
TESTE NO MUNDO REAL
Quando conversamos, Clulow havia ficado acordado até as três da manhã rastreando as rãs recém-soltas. Elas não são difíceis de identificar. “Elas têm um chamado fantástico e bem evidente, um pouco como o ronco de uma motocicleta acelerando”, explica.
Os animais receberam microchips para facilitar o monitoramento. Até agora, cerca de um mês após a primeira soltura, a população parece prosperar.

O primeiro grande teste virá no próximo inverno australiano e, depois, no inverno seguinte, quando a nova geração terá que sobreviver sozinha. A temperatura externa pode cair para -5 °C. Dentro das pequenas saunas, porém, o ambiente pode permanecer aconchegante, entre 25 °C e 30 °C.
A equipe ainda precisa comprovar que as intervenções funcionam tão bem na natureza quanto no laboratório. Mas, se der certo, a solução poderá ser replicada globalmente. Pelo menos 90 espécies de anfíbios já foram extintas por causa do fungo e centenas de outras seguem ameaçadas.