Brain skills: o que são e como identificar essas habilidades
A nova abordagem propõe ir além da classificação entre habilidades técnicas e comportamentais

As brain skills passaram a ocupar posição central nas discussões sobre o futuro do trabalho, da aprendizagem e do desempenho humano em um cenário cada vez mais influenciado pela Inteligência Artificial (IA).
Durante anos, o debate esteve concentrado na distinção entre hard skills e soft skills, porém, cresce a avaliação de que essa separação já não é suficiente para explicar o que realmente diferencia profissionais em um ambiente marcado por automação acelerada.
A nova abordagem propõe ir além da classificação entre habilidades técnicas e comportamentais. O foco se desloca para a qualidade do funcionamento do cérebro e para o fortalecimento de capacidades cognitivas mais complexas, como pensamento crítico, adaptação, criatividade e tomada de decisão em contextos incertos.
O QUE SÃO BRAIN SKILLS
O conceito de brain skills refere-se às habilidades cognitivas, emocionais, sociais e de autogestão que permitem às pessoas se adaptar, tomar decisões complexas e colaborar em ambientes em constante mudança. Não se trata apenas de conhecimento técnico ou domínio de ferramentas digitais, o foco está nas capacidades que sustentam o raciocínio avançado, a criatividade e a interação humana.
Segundo o artigo publicado pelo McKinsey Health Institute, essas habilidades incluem pensamento analítico e criativo, flexibilidade mental, resiliência, autocontrole, capacidade de aprender continuamente, comunicação eficaz e letramento tecnológico. São competências que permitem reinventar processos quando as circunstâncias mudam, em vez de apenas repetir rotinas já conhecidas.
Identificar brain skills exige observar como a pessoa reage diante de desafios. Profissionais com essas habilidades costumam demonstrar autonomia, adaptabilidade e capacidade de solucionar problemas inéditos. Também apresentam maior facilidade para trabalhar em ambientes híbridos, onde humanos e sistemas de IA atuam em parceria.
COMO IDENTIFICAR ESSAS HABILIDADES?
Reconhecer brain skills nas organizações exige ir além da análise de currículo ou da verificação de competências técnicas, essas habilidades se manifestam principalmente na forma como profissionais pensam, decidem e se comportam diante de cenários novos, incertos ou complexos.
Confira a seguir 4 passos para identificar as habilidades:
1. MUDANÇAS
Um dos primeiros sinais está na forma como o colaborador lida com mudanças, profissionais com brain skills desenvolvidas tendem a responder com curiosidade e iniciativa quando processos são alterados ou novas tecnologias são implementadas.
Em vez de resistir, buscam compreender o contexto, testar possibilidades e ajustar estratégias, essa flexibilidade cognitiva é um indicador claro de maturidade mental para ambientes dinâmicos.
2. JULGAMENTO
Outro aspecto central é a qualidade do julgamento, brain skills se revelam quando a pessoa consegue analisar dados, ponderar riscos, considerar impactos humanos e tomar decisões mesmo diante de informações incompletas.
Não se trata apenas de rapidez, mas de profundidade de raciocínio e responsabilidade nas escolhas.
3. RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
A capacidade de resolver problemas inéditos também é um critério relevante, em vez de aplicar respostas padronizadas, o profissional demonstra habilidade para estruturar o problema, formular hipóteses e integrar diferentes perspectivas.
Essa competência é especialmente valiosa em contextos onde a automação já executa tarefas previsíveis.
4. COMPORTAMENTO
Indicadores comportamentais ajudam nesse mapeamento, como:
- Comunicação clara em situações de pressão;
- Colaboração entre áreas distintas;
- Abertura a feedback; e
- Disposição para aprendizagem contínua sinaliza o fortalecimento dessas habilidades.
Avaliações 360 graus, dinâmicas baseadas em cenários reais e análise de desempenho em projetos interdisciplinares podem oferecer evidências mais concretas.
Além disso, organizações podem observar métricas indiretas, como capacidade de inovação, retenção de talentos, redução de conflitos e engajamento em programas de requalificação. Ambientes que estimulam brain skills costumam apresentar maior agilidade estratégica e melhor adaptação a mudanças tecnológicas.
Para integrar essas habilidades à estratégia corporativa, é necessário incorporá-las aos critérios de liderança, aos programas de desenvolvimento e aos sistemas de avaliação de desempenho. Quando a empresa reconhece formalmente o valor da adaptabilidade, do pensamento crítico e da autorregulação emocional, cria-se uma cultura que fortalece o chamado brain capital.
Identificar brain skills, portanto, não é um exercício pontual, mas um processo contínuo de observação.
IMPORTÂNCIA DE BRAIN SKILLS
A IA está remodelando funções e redefinindo exigências profissionais. Levantamentos recentes do McKinsey Health Institute indicam que 59% dos trabalhadores precisarão de qualificação adicional até 2030 para acompanhar as novas demandas do mercado.
Nesse cenário, tarefas repetitivas tendem a ser automatizadas, o diferencial passa a ser a capacidade humana de interpretar contextos complexos, exercer julgamento crítico e manter relações de confiança. Empresas que combinam tecnologia com habilidades humanas estratégicas ampliam produtividade e inovação.

A habilidade de usar e gerenciar ferramentas de IA cresceu sete vezes em dois anos, mas apenas o domínio técnico não garante desempenho sustentável. Organizações que investem simultaneamente em saúde mental e no desenvolvimento de brain skills registram melhores indicadores de performance e engajamento.
SAÚDE CEREBRAL COMO BASE DAS HABILIDADES
As brain skills não existem isoladamente, elas dependem de um estado adequado de saúde cerebral. Condições como:
- depressão;
- ansiedade;
- distúrbios neurológicos; e
- estresse crônico.
Acabam afetando diretamente a capacidade cognitiva e a produtividade.
Atualmente, condições relacionadas à saúde do cérebro representam 24% da carga global de doenças, a metade dos transtornos mentais surge até os 14 anos e três quartos até os 24. Entre idosos, doenças neurodegenerativas avançam rapidamente, com crescimento expressivo de casos de demência nas últimas décadas.
Ampliar o acesso a tratamento e prevenção poderia evitar mais de 260 milhões de anos de vida perdidos por incapacidade até 2050. O impacto econômico estimado pode alcançar US$ 6,2 trilhões em ganhos acumulados no PIB global.
Além disso, intervenções precoces apresentam retorno significativo, programas de qualidade na primeira infância geram retornos anuais entre 7% e 13%, com proporção benefício-custo que pode chegar a nove para um em países de baixa e média renda.
COMO DESENVOLVER BRAIN SKILLS?
O fortalecimento dessas habilidades começa na infância, e ambientes seguros, nutrição adequada, estímulo cognitivo e redução de estresse tóxico favorecem o desenvolvimento cerebral. Programas integrados de educação e apoio familiar demonstram impacto duradouro na renda e no desempenho profissional futuro.
Na fase adulta, o ambiente de trabalho torna-se central, mais de um quinto dos trabalhadores relata sintomas de esgotamento. Investimentos estruturados em saúde mental e desenvolvimento de competências socioemocionais podem elevar o PIB global em até 12%, com geração estimada de US$ 11,7 trilhões em valor econômico.
Treinamentos voltados à flexibilidade psicológica e à autoconfiança mostram associação com maior inovação e melhor desempenho. Entre trabalhadores mais velhos, manter brain skills ativas contribui para prolongar a vida profissional, preservar independência e reduzir vulnerabilidades, como fraudes financeiras.
INVESTIMENTO E RETORNO ECONÔMICO
Apesar da relevância, apenas 2% dos orçamentos governamentais globais de saúde são destinados à saúde mental, em países de baixa renda, mais de 75% das pessoas com transtornos mentais e neurológicos não têm acesso adequado a serviços.
A escassez de profissionais especializados é significativa, e em algumas regiões da África Subsaariana, há um psiquiatra para cada milhão de habitantes. Globalmente, a média de neurocirurgiões é inferior a um por 100 mil pessoas.
O subinvestimento gera impacto direto na economia, com perda de produtividade e sobrecarga para famílias e cuidadores. Por outro lado, inovações que reduzam apenas 10% da carga não atendida relacionada à saúde cerebral podem evitar cerca de 54 milhões de anos de vida perdidos por incapacidade até 2050.
Modelos de financiamento misto, parcerias público-privadas e instrumentos baseados em resultados são apontados como caminhos para ampliar recursos e reduzir riscos para investidores.
A transição para uma economia baseada em ideias e algoritmos reduz a vantagem de ativos físicos e mão de obra de baixo custo. Países e empresas que estruturarem estratégias centradas em brain capital estarão melhor posicionados para sustentar crescimento.
O fortalecimento das brain skills não é apenas um diferencial individual, trata-se de uma estratégia econômica. Ao proteger a saúde cerebral e estimular habilidades adaptativas, sociedades ampliam coesão social, estabilidade institucional e prosperidade compartilhada.