“Ibarabô, agô lonã, Olukumí”
O que o carnaval nos ensina sobre tecnologia, linguagem e futuro

O que vem à cabeça quando falamos em tecnologia? Inovação industrial, eficiência, velocidade? Sim, quase sempre é isso. Mas há muito mais em jogo.
Existem tecnologias mais antigas do que qualquer plataforma digital, forjadas na experiência de povos que aprenderam a organizar a vida, transmitir conhecimento e orientar decisões em contextos difíceis. Ao olhar para elas, a conversa se amplia e o sentido de “avanço” muda de lugar.
O carnaval, nesse contexto, segue como um espaço privilegiado de produção de sentido. Um samba-enredo, por exemplo, transcende a festa e o espetáculo para se apresentar como uma linguagem coletiva que articula música, corpo, visualidade, memória, território e comunidade num mesmo gesto.
Circula ensinando, constrói repertório ao emocionar e opera como uma tecnologia social sofisticada, capaz de transformar ideias densas em experiência compartilhada.
Nesse registro, a Paraíso do Tuiuti levou à avenida, no carnaval carioca deste ano, o enredo "Lonã Ifá Lukumí". O desfile acompanhou o caminho do oráculo Ifá da África às Américas, passando por Cuba e chegando ao Brasil como saber em circulação.
Ifá apareceu ali como sistema vivido: linguagem, método e orientação para a vida. Seu papel é organizar o mundo por meio de combinações, narrativas e orientações éticas.
Os 256 odus (conjuntos de signos e caminhos do oráculo, formados a partir da combinação dos 16 principais) estruturam um sistema lógico e relacional usado para orientar escolhas e buscar equilíbrio. É um saber em que racionalidade, filosofia, espiritualidade e técnica caminham juntas.

Quando esse sistema ganha corpo na avenida, ritual, história e presente se encontram, revelando uma inteligência construída ao longo do tempo, ligada à vida cotidiana e às decisões que fazemos todos os dias.
É justamente aí que essa leitura ganha força no debate contemporâneo sobre tecnologia. Ao evidenciar um sistema de conhecimento que organiza o mundo, orienta decisões e produz sentido fora do repertório dominante, o samba desloca o ponto de partida da conversa: menos ênfase nas ferramentas em si, mais atenção aos sistemas de sentido que escolhemos reconhecer como legítimos.
A tecnologia, quando passa a ser entendida dessa forma, se aproxima da linguagem – e da disputa em torno do que pode ou não produzir significado.
Um samba enredo opera como uma tecnologia social sofisticada, capaz de transformar ideias densas em experiência compartilhada.
Ao colocar o òrò-Ifá no centro do samba, o enredo amplia o repertório do que pode codificar o mundo, organizar conhecimento e orientar a imaginação sobre o que ainda pode ser construído.
Essa leitura conversa com reflexões recentes sobre crítica algorítmica, pedagogia e disputas simbólicas em curso. Em vez de fechar o futuro em um único caminho, ela propõe ampliá-lo, a partir de repertórios diversos e sistemas de pensamento que seguem produzindo sentido.
Cosmologias afro-diaspóricas, indígenas e populares aparecem, assim, como fontes vivas de criação, orientação e invenção de futuros.
O livro "Ifá Lucumí: O resgate da tradição", do maravilhoso Nei Lopes, citado como referência central do enredo, ajuda a compreender esse percurso.

Ao apresentar Ifá como sistema filosófico e técnico, o autor evidencia como saberes ancestrais seguem oferecendo ferramentas para pensar a vida contemporânea, sem revelar segredos rituais, mas afirmando sua relevância pública.
A força desse gesto esteve em mostrar que o futuro também passa por aprendizado, canto, ritual e partilha. E, sobretudo, pode ser reprogramado a partir de outros centros, outras linguagens e outras tecnologias – muitas delas já em pleno funcionamento há séculos.
O samba da Paraíso do Tuiuti faz esse deslocamento também pela língua. Quando canta “Ibarabô, agô lonã, Olukumí” – uma saudação e um pedido de licença para iniciar o caminho – anuncia uma travessia coletiva.
Ao entoar “Babá moforibalé”, afirma respeito e reverência: “eu me deito aos seus pés”. As palavras operam como gesto e como código, colocando em circulação um sistema de pensamento vivo.
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Tecnologia passa então a ser entendida como um modo de organizar a vida, orientar escolhas e sustentar relações. Uma linguagem em que razão e ética caminham juntas, em que método e cuidado se encontram, em que conhecimento se vincula à vida cotidiana.
Ao circular no samba, esse repertório reafirma que futuros podem ser construídos assim: com memória, escuta e sentido compartilhado.
