“Previsões não descrevem o futuro. Elas influenciam decisões no presente”, diz Karen Hao

Em entrevista a FC Brasil, autora de Empire of IA e palestrante do SXSW crítica retórica da substituição e da tecnologia inevitável para enfatizar o poder da sociedade sobre uso da IA

“Previsões não descrevem o futuro. Elas influenciam decisões no presente”, diz Karen Hao
freepik.com e Karen Hao (divulgação)

Camila de Lira 5 minutos de leitura

Em 2021, quando o frenesi pela inteligência artificial generativa começou, os maiores nomes do mercado previam que, em cinco anos, já teríamos passado do ponto da singularidade. Ou seja, quando as máquinas superam o cérebro humano. Estamos em 2026, sem superinteligência artificial geral, sem tecnologia autônoma. E a AGI segue a cinco anos de distância.

“Previsões não descrevem o futuro. Elas influenciam decisões no presente”, afirma Karen Hao. A autora do livro Empire of AI, livro que conta os bastidores da indústria global de IA. A jornalista, que fará uma palestra na edição 2026 do South by Southwest (SXSW), foi a primeira a entrar nos escritórios da OpenAI, em 2019. Desde então, ela acompanha as idas e vindas de Sam Altman e sua turma.

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A investigação de Karen, feita com mais de 200 entrevistas e documentos internos, mostra que muitas das promessas que chegam ao público sobre a IA são pura narrativa e tem pouca base tecnológica. Um discurso que não só move bilhões de dólares em investimentos, como também vende a ideia falsa de que o futuro em que as máquinas substituem os homens é inevitável (e impossível de combater).

 “Cada pessoa, não importa se é um estudante de colégio ou um desenvolvedor, tem um papel crucial para formar a trajetória do desenvolvimento da IA. A IA ainda está em construção.”

Karen Hao

 

“Cada pessoa, não importa se é um estudante de colégio ou um desenvolvedor, tem um papel crucial para formar a trajetória do desenvolvimento da IA. A IA ainda está em construção”, diz.

O tema é uma constante no maior festival de inovação do mundo, que acontecerá em Austin, dos dias 12 a 18 de março. Em entrevista exclusiva para a Fast Company Brasil, Karen adiantou as discussões que trará no painel “reivindicando a humanidade na era da IA”, que acontecerá no dia 15 de março, ao lado de Timnit Gebru e John Palfrey, às 16 horas.

“Não somos só consumidores, somos membros de comunidades, cidadãos ativos, trabalhadores e donos de dados – e isso nos dá poder para influenciar como a IA é produzida.”

Karen Hao

Ela explica que há muito mais decisão na mão das pessoas do que apenas usar ou não usar ferramentas de IA. “Não somos só consumidores, somos membros de comunidades, cidadãos ativos, trabalhadores e donos de dados – e isso nos dá poder para influenciar como a IA é produzida”, diz.

RESISTÊNCIA COMEÇA NO DATA CENTER

A ação começa na infraestrutura. Literalmente. Até 2030, a OpenAI projeta investir US$ 600 bilhões em capacidade computacional física – ou seja, os data centers. “Essas infraestruturas ainda precisam ser construídas. Temos muita oportunidade de mudar a indústria”, diz Karen.

Cidades pelo mundo estão proibindo a proliferação de data centers de IA. Moradores de diversas localidades, do Ceará  ao estado americano da Virgínia, se uniram para barrar a construção dos prédios que são a espinha dorsal da tecnologia de IA. Para Karen, essa resistência é uma ferramenta de pressão real que pequenas comunidades têm contra os centros de poder do Vale do Silício.

“Temos o poder coletivo de governar onde a IA será projetada. Isso não é pouco”, afirma.

Um outro ponto que ela vai trazer para o debate do SXSW é sobre os modelos de IA que poderiam ser incentivados. No lugar da AGI (superinteligência geral), a tecnologia generalista e ampla, ela é a favor de que a indústria invista em modelos pequenos, específicos, culturalmente específicos e contextuais.

Uma IA pensada para dar assistência para os humanos e não para ter a agência por ele.

O ATO FALHO (E INTENCIONAL)

O redesenho esbarra na narrativa da indústria tecnológica. Volta e meia, CEOs das principais companhias de IA falam quando certas profissões irão acabar. Na última semana, o CEO da OpenAI foi muito além. Ao comentar sobre o uso intenso de energia que o treinamento de sistemas de IA exigem, ele fez a seguinte comparação: também é preciso muita energia para “treinar um humano”.

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“As pessoas falam sobre quanto de energia é necessário para treinar um modelo de IA. Mas também leva muita energia para treinar um humano. Leva tipo 20 anos da vida e toda a comida que você come durante esse tempo antes de você ficar inteligente.”, ele falou durante a Cúpula de IA em Nova Delhi.

O “ato falho” de Altman, segundo Karen, exemplifica um pensamento comum da indústria de IA: o de que as máquinas devem ser produzidas para substituir a atividade e o pensamento humanos. Consequentemente, expõe que as pessoas, assim como as profissões que elas exercem, são substituíveis

“Ao criar máquinas cada vez mais parecidas com humanos, passamos a tratar humanos cada vez mais como máquinas.”

Karen Hao

Para Karen, o problema não está apenas no exagero retórico dos executivos, mas no modo como a tecnologia vem sendo concebida. “Ao criar máquinas cada vez mais parecidas com humanos, passamos a tratar humanos cada vez mais como máquinas”, continua  

Reduzir a inteligência a uma série de ações automáticas, chamar o período de vida de alguém como “época de treinamento” é uma forma de baratear o significado de ser humano, afirma.

Na visão de Karen, a pergunta para moldar a indústria deveria partir de outra perspectiva. Não da substituição, mas da aprimoramento e do fortalecimento da experiência humana.

O FUTURO NAS MÃOS DE QUEM?

A retórica da substituição também depende de outro elemento recorrente no setor: os cronogramas do futuro. Ano após ano, executivos anunciam quando a superinteligência chegará – e o prazo, invariavelmente, se desloca. 

Essas projeções não são tentativas falhas de antecipar o que virá, aponta Karen. Elas cumprem outra função.

A jornalista argumenta que, ao aceitar esses cronogramas como naturais, o público também aceita a premissa central da indústria: a de que a trajetória tecnológica já estaria definida. O futuro é muito maior do que a projeção de tamanho de mercado, ou de receita para 2030. “O ponto principal da democracia é que escrevemos o futuro juntos, não é?”, finaliza.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para n... saiba mais