Robotáxis chegam a Londres, mas taxistas resistem
Testes com carros autônomos começam na capital britânica, mas motoristas dos tradicionais black cabs questionam se a tecnologia consegue lidar com o tráfego, os pedestres e o traçado histórico da cidade

O Ford Mustang Mach-E percorre uma rua congestionada de Londres, usando seu sistema de inteligência artificial para evitar pedestres e ciclistas que atravessam fora da faixa e para navegar por obras na via enquanto se dirige ao seu destino.
O veículo autônomo da startup britânica Wayve Technologies está em fase de testes antes do início dos testes de robotáxis do governo do Reino Unido, previstos para a primavera. Empresas de tecnologia, incluindo a americana Waymo e a chinesa Baidu, também planejam participar do programa piloto, tornando Londres o mais recente palco da competição global de robotáxis.
Embora táxis autônomos não sejam novidade, o antigo traçado viário e as ruas movimentadas de Londres podem representar desafios específicos para a tecnologia.
Os taxistas de Londres já se opuseram a tecnologias que impactaram seu setor e protestaram contra a chegada do Uber.
Há também ceticismo por parte dos famosos taxistas londrinos, que precisam passar por um rigoroso curso de treinamento conhecido como “The Knowledge”, que exige a memorização de centenas de rotas e leva anos para ser concluído. Eles já se opuseram a tecnologias que impactaram seu setor e protestaram contra a chegada do Uber.
Táxis autônomos são “uma solução em busca de um problema”, disse Steven McNamara, secretário-geral da Associação de Motoristas de Táxi Licenciados, que representa os taxistas tradicionais.
Ele duvida que os robotáxis tenham qualquer vantagem na malha viária de Londres, que é um emaranhado de ruas que remonta à época romana — ao contrário do traçado em grade de cidades americanas como São Francisco e Phoenix, onde a Waymo opera.
A FAMA DOS TÁXIS DE LONDRES
A capital britânica é notória por ser uma das cidades mais congestionadas do mundo e suas ruas já estão congestionadas com outros meios de transporte, incluindo carros particulares, ônibus, scooters, bicicletas e bicicletas elétricas de aluguel.
McNamara e muitos outros observaram que os robotáxis enfrentam outro desafio: os pedestres que atravessam as ruas. Embora atravessar fora da faixa de pedestres seja ilegal nos Estados Unidos e em muitos outros países, não é uma infração na Grã-Bretanha.
“É praticamente impossível dirigir em qualquer lugar (em Londres) sem que alguém atravesse na sua frente.”
Steven McNamara, da Associação de Motoristas de Táxi Licenciados
“É praticamente impossível dirigir em qualquer lugar (em Londres) sem que alguém atravesse na sua frente”, disse McNamara. Em Londres, com uma população de quase 10 milhões, ele se perguntou: “Como esses carros vão lidar com esse volume de pessoas?”
Leia mais: Tesla cobra assinatura por seu sistema de direção “quase autônoma”
As empresas de robotáxis afirmam que há espaço para a nova tecnologia. “Acho que os londrinos vão adorar a direção autônoma. Será mais uma opção além do metrô, da bicicleta e da caminhada“, explicou Alex Kendall, CEO da Wayve, em uma entrevista recente durante um workshop da empresa.
A Wayve está se unindo à Uber para os testes com táxis, que fazem parte da iniciativa do Reino Unido de adotar regulamentações nacionais para veículos autônomos. O país busca se posicionar como líder mundial nessa tecnologia.
Leia mais: Uber apresenta robotáxi desenvolvido com Lucid e Nuro
A empresa chinesa de tecnologia Baidu também está se unindo à Uber, assim como à sua concorrente Lyft, para operar seu serviço de veículos autônomos Apollo Go no projeto piloto em Londres.
A Waymo, pertencente à Alphabet, controladora do Google, também participará e planeja lançar um serviço de transporte de passageiros em Londres até o terceiro trimestre de 2026, conforme informaram representantes da empresa a jornalistas em janeiro passado.
Representantes da Waymo buscaram tranquilizar os ânimos quanto à possibilidade de a empresa inundar repentinamente as ruas de Londres com robôs-táxis, destacando que já opera um total de 1.000 veículos em São Francisco desde o início de suas operações em 2024.
“Não estamos aqui para substituir ninguém”, diz Ethan Teicher, porta-voz da Waymo. “Estamos aqui para oferecer mais uma opção para quem opta por táxis tradicionais ou outros meios de transporte quando lhe convém, e escolhe a Waymo quando faz sentido.”
COMO ANDAM OS TESTES
Os sedãs Jaguar I-Pace autônomos da Waymo foram vistos realizando testes em Londres. Os veículos Ford Mustang Mach-E da Wayve também foram testados em vias públicas com motoristas humanos de apoio ao volante, prontos para intervir em caso de necessidade.
Em um recente teste para a Associated Press, o Ford da Wayve percorreu automaticamente um circuito de cinco quilômetros (três milhas) no norte de Londres sem qualquer problema.
Deslizando por um trecho reto e aberto da estrada, o carro manteve uma velocidade constante de 30 quilômetros por hora, um pouco abaixo do limite permitido.
Um semáforo mudou quando o carro se aproximou, forçando-o a frear bruscamente e dando um leve solavanco para a frente — o único momento em que a condução não foi tão suave.
O QUE A WAYNE PROMETE COMO DIFERENCIAL
Kendall conta que a Wayve adota uma abordagem diferente da tecnologia tradicional de direção autônoma. Ela não depende de mapas de “alta definição” e regras de sistemas de segurança “codificadas manualmente” por programadores que antecipam cada cenário.
Em vez disso, utiliza uma IA treinada com milhões de horas de dados coletados por seus carros para aprender e entender como o mundo funciona.
“Você não pode confiar que um carro autônomo seja instruído sobre como se comportar em cada situação que encontrar.”
Alex Kendall, CEO da Wayve
“Este é o ponto crucial para a direção autônoma, porque cada vez que você dirige na estrada, você vai vivenciar algo diferente”, explica Kendall. “Você não pode confiar que um carro autônomo seja instruído sobre como se comportar em cada situação que encontrar.”
Leia mais: Por que os carros pequenos voltaram ao radar dos Estados Unidos
Kendall diz que a Wayve está se posicionando como uma empresa de tecnologia que fornece hardware e software que podem ser adicionados a qualquer veículo para torná-lo autônomo. A empresa firmou um acordo com a Nissan em dezembro para construir carros autônomos que serão vendidos no Japão e na América do Norte. (Associated Press)