Após 53 anos, Lonely Planet entra de vez na era dos apps
A editora do guia de turismo mais vendido no mundo quer aprimorar sua experiência de viagem com um aplicativo

Desde os anos 1970, os icônicos guias da editora Lonely Planet ajudam gerações de jovens viajantes a explorar caminhos fora do circuito tradicional pelo mundo afora. Mas, por mais indispensáveis que sejam, esses guias têm suas limitações.
Em uma viagem recente a Kyoto, no Japão, dei por mim transferindo informações do guia para o celular o tempo todo, marcando locais no Google Maps, anotando roteiros dia a dia no aplicativo de Notas. Na era do smartphone, o Lonely Planet precisava de uma atualização tecnológica.
Agora, a marca tenta fechar essa lacuna ao lançar um novo e ambicioso aplicativo móvel, que reúne todo o conhecimento e a narrativa de seus livros, mas com recursos pensados para quem planeja uma viagem, ou já está no meio dela.
Você encontrou um museu ou restaurante interessante? Dá para salvar direto no seu roteiro ou no mapa. Foi surpreendido por uma chuvarada em Barcelona? O app sugere o que fazer nas redondezas.
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Ao contrário de grande parte do conteúdo de viagem disponível na internet, o aplicativo do Lonely Planet não é cheio de listas patrocinadas nem por uma enxurrada de avaliações de outros turistas.
O conteúdo é criteriosamente curado pelos mesmos especialistas locais e editores responsáveis pelos guias impressos (são 450 espalhados pelo mundo). Embora muitos recursos sejam gratuitos, parte do conteúdo premium será paga.
O lançamento do app sinaliza claramente que, aos 53 anos, a Lonely Planet está deixando de se enxergar apenas como editora para assumir o papel de plataforma de viagens.
Mas, ao abraçar a tecnologia, a empresa enfrenta um desafio: como preservar o sucesso dos guias físicos enquanto direciona clientes para o novo aplicativo?
DA MOCHILA AO CELULAR
A Lonely Planet nasceu em 1973, quando Tony e Maureen Wheeler publicaram de forma independente um guia despretensioso sobre como viajar pela Ásia. A proposta era radical para a época: dicas práticas e irreverentes voltadas a jovens com mais curiosidade do que dinheiro.
Os guias viraram fenômeno. Gerações de viajantes os colecionaram e exibiram orgulhosamente nas estantes, como troféus de uma vida bem vivida.
No pós-pandemia, com a retomada das viagens, os livros ganharam novo fôlego – impulsionados, em parte, por um público mais jovem que a marca vem cultivando por meio do Instagram e de sua própria loja direta ao consumidor.

“A marca se tornou uma comunidade”, diz Paul Yanover, que assumiu como CEO há um ano. “Você vê alguém com o guia debaixo do braço – você está viajando pela Índia, eu estou viajando pela Índia – e existe um senso de afinidade.”
O objetivo dele é digitalizar essa marca querida sem perder aquilo que a tornou especial: conhecimento especializado e um forte senso de comunidade. “De certa forma, estamos em uma missão para restaurar a Lonely Planet a algo que ela já foi”, afirma.
Ao longo do último ano, Yanover preparou o terreno para a transformação digital: um reposicionamento de marca, um site redesenhado, o lançamento do Lonely Planet Journeys (serviço de concierge de viagens com curadoria, apoiado por uma rede de planejadores locais) e a ampliação do catálogo de livros inspiracionais, além dos guias tradicionais.
O aplicativo é a peça final desse movimento.
COMO O APP LONELY PLANET FUNCIONA
O aplicativo foi construído com base em uma teoria simples: é assim que as pessoas realmente planejam viagens. Tudo começa com uma faísca de inspiração, que leva à coleta de informações – quais cidades visitar, em que bairro se hospedar, o que ver e onde comer.
“Você reúne uma quantidade enorme de informações vindas de amigos, revistas, Instagram, do seu guia da Lonely Planet”, diz Yanover. “E depois? Você resume tudo isso.”
O app foi desenhado para espelhar essa jornada. Ele tem quatro seções principais. Discover é o motor de inspiração – um feed com artigos, vídeos verticais e informações selecionadas.


Depois de escolher o destino, entra em cena o Guides: versões digitais repaginadas dos guias, com mergulhos profundos em cidades específicas. “No centro do app estão nossos guias detalhados de destinos, desenvolvidos por especialistas locais”, afirma Aly Yee, responsável pelo negócio digital. “Cada recomendação vem de alguém que realmente esteve lá.”
My Planet é o espaço de coleta, onde o usuário pode salvar qualquer conteúdo do Discover ou do Guides. Já o Trip Builder é onde tudo se transforma em um roteiro concreto: mapa atualizado com os lugares salvos, função de arrastar e soltar, possibilidade de diferenciar compromissos firmados de ideias soltas e organização por dia.
a Lonely Planet está deixando de se enxergar apenas como editora para assumir o papel de plataforma de viagens.
O app também conta com um modo específico para quando você já está no destino. Ao chegar, ele se adapta e destaca recomendações de especialistas nas proximidades para que você nunca comece do zero, nem fique encarando o celular tentando lembrar qual restaurante salvou seis semanas antes.
No lançamento, os usuários terão acesso completo gratuitamente, enquanto a editora Lonely Planet coleta dados sobre como as pessoas utilizam a plataforma. Com o tempo, será possível pagar por guias individuais ou desbloquear todo o conteúdo por meio de uma assinatura anual.
No fim das contas, Yanover acredita que o papel da Lonely Planet na era digital não é oferecer mais eficiência, mas contextualizar a viagem com narrativa e conhecimento local.
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Algo muito parecido, aliás, com o que os guias amarelos e verdes originais proporcionaram a uma geração de mochileiros: um amigo de confiança que já esteve lá, conhece a história, tem bom gosto e ajuda você a transformar a viagem em algo único.