Amazon, Walmart e Starbucks estão entre 20 empresas com baixos salários
Relatório cita 20 grandes empregadores dos EUA e aponta que muitos trabalhadores recebem salários baixos e acabam dependendo de programas de assistência pública

Nos últimos 50 anos, o abismo entre o salário médio do trabalhador e a remuneração dos CEOs aumentou drasticamente. Entre 1978 e 2024, a remuneração dos diretores executivos aumentou 1.094%, de acordo com o Instituto de Política Econômica (Economic Policy Institute) — o que significa que o CEO médio ganha 281 vezes mais do que o trabalhador médio.
Um novo relatório do Instituto de Estudos Políticos, uma organização de pesquisa progressista, mostra como essa disparidade persiste em algumas das maiores empresas dos Estados Unidos e como os trabalhadores de baixa renda que elas empregam são forçados a depender de benefícios sociais.
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O relatório utilizou dados do S&P 500 e compilou uma lista de 20 empresas apelidadas de "As 20 de Menor Salário" — que inclui alguns dos nomes mais conhecidos dos setores de varejo e supermercados, como Amazon, Walmart, Target e Kroger. Completam a lista os seguintes empregadores: AutoZone, Best Buy, Chipotle, Costco, Darden Restaurants, Dollar General, Dollar Tree, FedEx, Home Depot, Lowe’s, MGM Resorts, O’Reilly Automotive, Ross Stores, Starbucks, TJX e Tyson Foods. Algumas delas têm operação no Brasil.
"A remuneração na Amazon está entre as melhores do setor — bem mais que o dobro do salário mínimo federal e significativamente maior do que a de outros varejistas", afirmou um porta-voz da Amazon em comunicado.
Ainda segundo a nota, “apontar o dedo para a Amazon em relação ao SNAP (sigla em inglês para o Programa de Assistência Nutricional Suplementar, que concede aos beneficiários, como pessoas de baixa renda, desempregados e em situação de vulnerabilidade, crédito em um cartão para comprar alimentos básicos) e/ou Medicaid (programa de saúde social dos EUA para famílias e indivíduos de baixa renda e recursos limitados) é uma cortina de fumaça, visto que a elegibilidade é baseada na renda e no tamanho total da família, e não nos salários individuais. Por exemplo, dois funcionários que trabalham no mesmo local e recebem o mesmo salário, no mesmo estado, podem ter elegibilidade completamente diferente para o SNAP ou Medicaid, dependendo se sustentam filhos, pais idosos ou se são os únicos provedores da família."
“Como temos dito há anos, o que realmente precisa acontecer é um aumento significativo e substancial do salário mínimo federal — isso seria um grande impulso para as famílias americanas”, continuou o porta-voz.
Em um comunicado, um porta-voz da Starbucks afirmou que a empresa “oferece o melhor emprego no varejo, com salário competitivo, benefícios que lideram o setor e fortes oportunidades de crescimento na carreira.
“Os funcionários que trabalham apenas 20 horas por semana recebem assistência médica completa, participação acionária na empresa (Bean Stock) e cobertura total de mensalidades escolares, e todos os funcionários são elegíveis para o plano de previdência 401(k) com contribuição equivalente da empresa”, acrescentou o porta-voz. “Nossa abordagem se reflete no fato de que os funcionários permanecem na Starbucks em taxas muito mais altas do que a média do varejo, e mais de um milhão de pessoas se candidatam anualmente para fazer parte da nossa equipe.”
As outras empresas citadas no relatório não estavam imediatamente disponíveis para comentar quando contatadas pela Fast Company.
ASSISTÊNCIA PÚBLICA COMO SUBSÍDIO CORPORATIVO?
No total, as empresas destacadas no relatório empregam cerca de 6,7 milhões de pessoas. Mesmo o salário médio mais alto entre elas não ultrapassou US$ 48.000. Embora os empregadores não sejam obrigados a divulgar quantos de seus funcionários utilizam benefícios públicos como o programa de assistência alimentar SNAP ou o Medicaid, o relatório mostra que muitos trabalhadores nessas empresas não recebem o suficiente para cobrir suas necessidades básicas.
Em 2024, a remuneração mediana em 13 dos empregadores citados no relatório teria qualificado uma família de três pessoas para receber os benefícios do SNAP, ficando abaixo do limite de renda de US$ 33.576. No estado americano de Nevada, onde a lei estadual exige que o governo publique dados sobre os beneficiários do Medicaid em grandes empresas, quase 78% dos funcionários da Amazon e do Walmart recebem o benefício.
O relatório analisa que as empresas estão, na prática, "usando a assistência pública como subsídio corporativo", mantendo seus salários tão baixos.
MODELO DE NEGÓCIO BASEADO EM SALÁRIO DE FOME
O relatório argumenta que as empresas em questão estão, na prática, "usando a assistência pública como subsídio corporativo", mantendo seus salários tão baixos.
"Quando elas têm permissão para transferir grande parte dos custos básicos de vida de seus funcionários para os contribuintes, isso significa que estamos apoiando esses modelos de negócios baseados em salários de fome", afirma Sarah Anderson, autora do estudo e supervisora do Projeto de Economia Global do Instituto de Estudos Políticos.
"Acho que essa é uma parte importante do debate sobre acessibilidade que não está recebendo a atenção necessária. A maior parte da atenção se concentra no aumento dos custos de itens como moradia e alimentação, e tudo isso é uma grande preocupação", continua Sarah. “Mas se não tivéssemos esse modelo de negócios baseado em salários de fome e a supressão salarial relacionada às táticas antissindicais dessas empresas, não teríamos uma crise de acessibilidade agora, porque os salários seriam significativamente mais altos — e as pessoas não estariam se preocupando em colocar comida na mesa ou um teto sobre suas cabeças.”
MUITOS TRABALHADORES MAL CONSEGUEM SOBREVIVER
Mesmo com algumas dessas empresas aumentando os salários por hora, analisa Sarah, elas continuam a empregar muitos trabalhadores de meio período e contratados sazonais — o que significa que muitos não têm direito a benefícios de saúde, por exemplo.
"Muitas dessas empresas optaram por ter um modelo de negócios baseado em funcionários de meio período."
Sarah Anderson, do Projeto de Economia Global do Instituto de Estudos Políticos
“Temos ouvido muito dessas empresas sobre como estão aumentando o salário mínimo e se gabam de sua remuneração média”, diz Sarah. “Mas quando você olha para a remuneração mediana… ela inclui os trabalhadores de meio período. É aí que você tem uma visão muito mais clara, porque muitas dessas empresas optaram por ter um modelo de negócios baseado em funcionários de meio período.”
Em outras palavras: mesmo quando seus empregadores são lucrativos e extremamente bem-sucedidos, muitos desses trabalhadores ainda lutam para sobreviver.
A análise de Sarah também constatou que, embora os trabalhadores possam ter se beneficiado de aumentos salariais temporários durante a pandemia, esses ganhos não se mantiveram. Na verdade, entre 2019 e 2024, a remuneração mediana caiu 4,6% entre os 20 empregadores analisados no relatório — de US$ 30.474 para US$ 29.087 (ajustado pela inflação).
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Não está totalmente claro o motivo disso. Os relatórios observam que, na Costco, a queda na remuneração pode ser atribuída a uma significativa rotatividade de funcionários durante a pandemia, que levou à entrada de trabalhadores iniciantes com salários mais baixos. A FedEx registrou uma queda na remuneração mediana após grandes demissões que eliminaram milhares de empregos. Em outras empresas, no entanto, o relatório sugere que a causa pode ser um aumento no número de trabalhadores de meio período.
A REMUNERAÇÃO DOS CEOS CONTINUA SUBINDO
Enquanto isso, a remuneração dos CEOs continuou a subir, com executivos como Brian Niccol, da Starbucks, ostentando uma remuneração total avaliada em mais de US$ 95 milhões/ano. A remuneração mediana de seus funcionários, em comparação, era de US$ 14.674.
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A Starbucks também informou à Fast Company que a remuneração total dos baristas de meio período subiu para US$ 17.279 no ano fiscal de 2025 — ou quase US$ 35.000 para aqueles que trabalhavam em tempo integral — e que a remuneração total do CEO foi de cerca de US$ 30 milhões em 2025, de acordo com o relatório mais recente aos acionistas. A remuneração média dos CEOs nas 20 empresas destacadas no relatório foi de US$ 18,6 milhões
Pelo menos 16 bilionários no país construíram suas fortunas por meio das 20 empresas mencionadas no relatório, e às custas do trabalho de operários de baixa renda.
Mas uma descoberta do relatório ilustra claramente o quanto os líderes empresariais se beneficiaram do aumento exorbitante da remuneração dos executivos, mesmo com os poucos ganhos obtidos por seus funcionários. Pelo menos 16 bilionários no país — metade dos quais da família Walton, herdeiros do Walmart — construíram suas fortunas por meio das 20 empresas mencionadas no relatório, e às custas do trabalho de operários de baixa renda.
“Eles devem sua riqueza ao trabalho árduo que todos esses trabalhadores dedicaram à criação de valor nessas empresas”, afirma Anderson. “E, no entanto, [esses trabalhadores] ainda precisam lutar para sobreviver e até mesmo depender de assistência pública.”