BYD anuncia bateria que carrega em 5 minutos e pode rodar até 1.000 km

Anunciada pela BYD, a nova Blade Battery 2.0 promete mais de 1.000 km por carga, recarga em cerca de 5 minutos e vida útil estimada em até 1 milhão de quilômetros

BYD anuncia bateria que carrega em 5 minutos e pode rodar até 1.000 km
BYD (Divulgação)

Jesus Diaz 9 minutos de leitura

A BYD acaba de destruir qualquer argumento restante contra a adoção de veículos elétricos. Em um evento de lançamento em 5 de março em Shenzhen, na China, a empresa anunciou a Blade Battery 2.0, uma nova bateria que pode percorrer mais de 1.000 km com uma única carga. Com isso, a empresa expôs o quão atrasada está a indústria de veículos elétricos.

Os carros a gasolina mantiveram duas vantagens supremas por um século: a parada rápida de cinco minutos e a autonomia típica de 640 km, que permitia às pessoas fazer longas viagens sem preocupação.

Enquanto isso, os veículos elétricos sofriam com longos tempos de carregamento e autonomias curtas, o que gerava ansiedade de autonomia em potenciais compradores, que em sua maioria preferiam permanecer com carros a combustão interna ou híbridos. Com o lançamento de suas novas arquiteturas Blade Battery 2.0 e Megawatt Flash Charge 2.0, o medo acabou.

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De acordo com os números oficiais anunciados no evento, os veículoss de produção em larga escala da BYD, como o novo Denza Z9GT, agora podem percorrer mais de 1.000 km com uma única carga, adicionar aproximadamente 400 km de autonomia no tempo que leva para pedir um café e contar com uma bateria que se recusa a descarregar antes do carro, com uma vida útil garantida de 1.000.000 km, algo inédito em qualquer veículo elétrico.

Denza Z9GT [Image: Denza/BYD]
Denza Z9GT (Divulgação/BYD)

SERIA O SALTO QUE FALTAVA PARA OS ELÉTRICOS?

A mais recente tecnologia de baterias e carregamento da BYD faz com que outros veículos elétricos atuais pareçam carros antigos — pelo menos por enquanto. Como a segunda maior fabricante de baterias do mundo, a BYD fornece baterias para outras montadoras como Toyota, Kia, Hyundai e até mesmo a própria Tesla.

A nova arquitetura de carregamento da BYD elimina completamente a vantagem das paradas rápidas em veículos a combustão interna, fornecendo 1.500 quilowatts de potência máxima por meio de um único cabo, ou até 2.100 quilowatts com um sistema de carregamento duplo. Para entender a enorme potência desse fluxo elétrico, é preciso observar o padrão atual da indústria.

Pense em quilowatts como a largura de um cano de água enchendo uma piscina. Um carregador doméstico padrão fornece energia lentamente durante a noite a cerca de 7 quilowatts, como uma mangueira de jardim. Um Supercharger da Tesla — considerado há muito tempo o padrão ouro para carregamento rápido público — atinge um máximo de cerca de 250 quilowatts. A BYD está liberando seis vezes essa quantidade de energia, conectando o carro diretamente a uma rede de água municipal de alta pressão.

Durante uma demonstração ao vivo no palco, a BYD conectou seu novo sedã Han L, fazendo com que a bateria saltasse de 10% para 80% da capacidade em exatos 6 minutos e 30 segundos. Na tela principal, a BYD anunciou oficialmente uma velocidade de carregamento de “1 segundo = 2 quilômetros”. Traduzindo para a prática, cinco minutos conectado a esse equipamento proporcionam entre 400 e 500 quilômetros de autonomia.

BYD PROMETE ESTAÇÕES DE CARREGAMENTO

É claro que um carregador de 1.500 quilowatts é inútil sem uma rede elétrica. Para solucionar isso, a BYD confirmou que está instalando 15.000 dessas estações de carregamento de megawatts na China até o final de 2026. A empresa está construindo mais de 4.000 dessas estações de forma independente, enquanto o restante será implantado por meio de joint ventures. A empresa também planeja implantar uma rede europeia com 3.000 carregadores até o final de 2026.

Blade Battery 2.0, nova bateria da BYD
Blade Battery 2.0, nova bateria da montadora chinesa (Divulgação/BYD)

A bateria Blade 2.0 amplia a autonomia de veículos futuros como o Yangwang U7 para mais de 1.000 km, superando facilmente um tanque cheio de gasolina, que geralmente oferece entre 560 e 640 km para sedãs (embora alguns modelos a diesel, híbridos e a gasolina com tanques maiores possam ultrapassar os 960 km).

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O PASSO A PASSO DA MONTADORA ATÉ AGORA

A BYD alcançou isso por meio de um grande salto na densidade de energia, uma medida de quanta energia elétrica bruta pode ser armazenada em um determinado peso físico. Por anos, a indústria automobilística enfrentou um dilema complexo. Era possível construir uma bateria usando a química de fosfato de ferro-lítio (LFP), que é barata, altamente durável e extremamente segura, mas a densidade padrão da indústria gira em torno de apenas 150 a 180 watts-hora por quilograma. A química alternativa de níquel-cobalto-manganês (NCM), que normalmente oferece de 200 a 280 watts-hora por quilograma, é mais cara e propensa a incêndios.

Devido à sua arquitetura e composição química, as baterias NCM têm baixa tolerância a abusos e liberam muito oxigênio quando perfuradas em um acidente, o que alimenta o fogo e torna praticamente impossível extingui-lo. As baterias LFP são muito mais resistentes a perfurações e, caso ocorram, liberam uma quantidade mínima de oxigênio.

O aumento na densidade se deve à nova estrutura interna da Blade Battery 2.0. Primeiramente, os engenheiros da BYD moeram os materiais químicos da bateria LFP em uma estrutura ultracompacta. Eles usaram um pó microscópico fino para comprimir muito mais energia bruta no mesmo espaço físico. Em segundo lugar, construíram supervias internas mais curtas e diretas para a carga elétrica, permitindo que a bateria absorva quantidades enormes de energia em segundos sem superaquecer. Isso aumentou a densidade de energia da nova versão em 36% a 40% em relação à geração anterior. Os novos pacotes atingem entre 190 e 210 watts-hora por quilograma e, segundo eles, por um custo menor (eles não divulgaram o custo, mas a BYD afirma que isso aumentará suas margens de lucro).

Efetivamente, a fabricante chinesa cumpriu as promessas feitas por Elon Musk em 2020, quando apresentou a ideia de sua chamada “célula de bateria revolucionária 4680”, que aumentaria drasticamente a autonomia e reduziria drasticamente os custos. Meia década depois, o lançamento da 4680 da Tesla tem sido assolado por gargalos de fabricação e números de densidade decepcionantes.

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A Tesla foi obrigada a comprar as baterias Blade de primeira geração da BYD para alimentar o Model Y fabricado em sua gigafábrica de Berlim, enquanto utilizava a bateria 4680, que apresentou problemas, em alguns Model Y produzidos em sua fábrica no Texas. A Cybertruck utiliza uma versão aprimorada da 4680, chamada Cybercell, que, segundo informações, possui uma densidade de 272 Wh/kg.

A MUDANÇA NA VIDA ÚTIL DA BATERIA


Outro grande diferencial da nova tecnologia de baterias é sua vida útil. As baterias representam cerca de 30% a 40% do custo dos veículos elétricos, portanto, os consumidores naturalmente temem o dia em que suas baterias se degradarem a ponto de exigirem uma substituição extremamente cara. Atualmente, a média de vida útil das baterias de veículos elétricos no mercado é de aproximadamente 150.000 a 300.000 milhas (240.000 a 480.000 km).

As baterias NCM padrão, utilizadas pela maioria dos concorrentes, atingem seu limite após 1.000 a 2.000 ciclos de carga, antes de perderem uma porcentagem significativa de sua capacidade e precisarem ser substituídas. A Blade 2.0 tem uma vida útil estimada em mais de 5.000 ciclos de carga. Embora multiplicar esses ciclos pela autonomia máxima resulte em um limite teórico de milhões, a BYD estima oficialmente a curva de degradação para garantir uma vida útil operacional de 1,2 milhão de quilômetros, ou aproximadamente 745.000 milhas.

O americano médio dirige cerca de 13.500 milhas por ano. Nesse ritmo, seria preciso dirigir este carro todos os dias por 55 anos antes de chegar ao fim da vida útil da bateria.

O americano médio dirige cerca de 13.500 milhas por ano. Nesse ritmo, você teria que dirigir este carro todos os dias por 55 anos antes de chegar ao fim da vida útil da bateria. A bateria durará mais que o chassi de metal, os bancos e provavelmente o próprio motorista.

COMO A NOVIDADE VAI IMPACTAR O PREÇO DO CARRO

Você poderia supor que essas especificações vêm com um preço exorbitante, mas a lógica financeira aqui é inversa. A BYD conseguiu reduzir o custo de produção do Blade 2.0 em 15% a 30% em comparação com a geração anterior.

Embora a geração anterior do Blade fosse praticamente exclusiva de veículos de luxo de seis dígitos (em dólar), a empresa chinesa agora afirma que as novas baterias e arquiteturas de carregamento serão utilizadas em modelos populares de grande volume de 2026, como o Tang e o Song, que se situam na faixa de preço de US$ 19.000 a US$ 30.000 (nos EUA).

TEM ALGUM PONTO DE ATENÇÃO NA NOVA TECNOLOGIA?

No entanto, não é perfeito. Ainda existe uma vantagem inegável para o motor de combustão interna: invernos rigorosos em alguns mercados (o que não é o caso do Brasil). As baterias LFP historicamente não toleram temperaturas congelantes. Um tanque de gasolina armazena exatamente a mesma quantidade de energia combustível a -4 graus Fahrenheit (aproximadamente -20 graus Celsius) que à temperatura ambiente.

Uma bateria de veículo elétrico, por outro lado, geralmente perde de 10% a 20% de sua autonomia para aquecer a cabine, e suas reações químicas diminuem tanto que o carregamento rápido se torna impossível até que a bateria aqueça.

Yangwang U7, da BYD
Yangwang U7 (Divulgação/BYD)

A BYD integrou um sistema interno de aquecimento por pulsos e um sistema completo de gerenciamento térmico líquido diretamente no Blade 2.0 para evitar tanta perda de energia e permitir o carregamento rápido em ambientes extremamente frios. A -20°C, a Blade 2.0 retém mais de 85% da sua capacidade. A -30°C, mantém 80% da sua capacidade (veículos elétricos com baterias LFP de gerações anteriores podiam perder até 50% da capacidade a essa temperatura). As baterias padrão de níquel-cobalto-manganês (NCM) para veículos elétricos normalmente retêm de 70% a 80% da sua capacidade total a -20°C, caindo para cerca de 40% a 60% a -30°C.

Veículos elétricos com baterias NCM padrão também restringem ativamente ou bloqueiam completamente o carregamento rápido em baixas temperaturas para evitar danos físicos permanentes às células da bateria. Mas, de acordo com o CEO da empresa, Wang Chuanfu, durante o evento, “a nova bateria Blade pode ser carregada de 20% a 97% em menos de 12 minutos em temperaturas tão baixas quanto -20°C, permitindo uma autonomia de 777 km”. Isso, embora não se compare à perda de 0% da gasolina, também é uma afirmação impressionante.

Teremos que esperar pelos testes de condução para ver como todas essas afirmações se confirmam. Mas, a julgar pelo bom desempenho da geração anterior, não tenho motivos para duvidar. Some-se a isso o fato de que toda essa tecnologia estará disponível em toda a linha de carros da BYD, desde o luxuoso sedã Yangwang U7 até o econômico Dolphin, e aparentemente podemos ter entrado em uma nova era para veículos elétricos. Uma pena que não chegue aos EUA tão cedo.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais