SXSW 2026: A habilidade mais necessária na era da IA? Saber dizer não
Para o estrategista cultural Matt Klein discernimento e nuance serão as maiores forças humanas na era das máquinas

A inteligência artificial promete acelerar ainda mais uma cultura que já corre para reagir a informações e acontecimentos em tempo real. Opiniões e análises saem tão rápidas quanto um promp e o ChatGPT ajuda a formatar visões em segundos.
Para o estrategista de foresight e fundador da ZINE, Matt Klein, esse ritmo pede que as pessoas desenvolvam uma habilidade, que está ficando cada vez mais rara: o discernimento.
Saber dizer não será a nossa maior força humana no mundo de oferta infinita de informação, diz o especialista. Ele vai se apresentar no dia 15 de março, na edição 2026 do South by Southwest (SXSW).
“No mundo em que tudo acontece ao mesmo tempo, o gosto se torna um salva-vidas. A curadoria, o filtro, a nossa triagem, são habilidades que precisaremos desenvolver", afirma em entrevista exclusiva à Fast Company Brasil.
O ato de desenvolver gosto é mais do que criar repertório cultural (ou capital cultural, como andam dizendo no TikTok). Significa que a pessoa consumiu algo com intenção, atenção e senso crítico. O mais importante: a pessoa teve acesso também ao que não gosta e teve que compreender que há nuances.
ENGAJAMENTO SELETIVO
De acordo com o Edelman Trust Barometer 2026, sete em cada 10 pessoas relutam em confiar em quem pensa diferente. Estamos na era da insularidade: os grupos diferentes não estão mais em bolhas, mas profundamente separados.
A nuance, diz Klein, é a força de que precisamos para fortalecer a humanidade. Assim, quem sabe, teremos uma chance de pensar em futuros que colocam o humano, e não a tecnologia, no centro.
Segundo Klein, o ceticismo e o questionamento são formas de sair do “estado de hipnose” gerado pela rapidez e pela infinidade de conteúdos.

)“Conectamos nossas mentes finitas ao infinito da internet. Com a IA, temos acesso a todas as informações do mundo, a todo documento já feito. Nos sentimos compelidos a consumir tudo isso, a reagir a tudo isso, a comentar sobre o comentário, a fazer um vídeo de reação ao vídeo publicado", aponta Klein.
Mas nem tudo precisa de resposta. “Vou dizer algo controverso: não temos que ter uma opinião extrema sobre todos os assuntos. Isso não significa que a gente deve ser ‘insentão’ e não ligar para o que está acontecendo no mundo, mas não há como ter uma opinião sobre tudo", diz.
"A curadoria, o filtro, a nossa triagem, são habilidades que precisaremos desenvolver."
Ele chama isso de engajamento seletivo – a capacidade de escolher conscientemente quando participar de uma conversa e quando simplesmente deixar passar. O que significa "desautomatizar" algumas atividades, adicionar fricção a algumas ações. A fricção aqui vem em forma de questionamento.
“Há uma compulsão de que devemos ceder nossa humanidade para a máquina, torná-la inteligente como um humano. Mas… só porque a gente pode, não significa que deveríamos”, defende.
Só porque um vídeo pode ser feito em 10 segundos, só porque é possível filmar as pessoas na rua com o celular, só porque dá para publicar para todos com um botão, só porque podemos fazer relatórios em minutos…. Será que precisamos, mesmo?
SERVIR À CULTURA – E NÃO AO DASHBOARD
As marcas, nesse sentido, estão neste ciclo de rapidez da produção e do consumo de conteúdo ultraprocessado. A lógica da reação constante também aparece nas empresas. Métricas, dashboards e indicadores passaram a orientar decisões em tempo real.
Para Klein, o risco é perder de vista algo mais importante. “Em vez de servir o KPI, o número ou o dashboard, talvez devêssemos perguntar outra coisa”, provoca. “Estamos servindo à cultura? Estamos servindo a outras pessoas?”
Em um mundo de informação infinita, talvez a habilidade mais humana seja justamente escolher.
O especialista chama a busca incessante por números e escala de “cultura do dashboard”. “As marcas se tornaram preocupadas demais com os números, com o espetáculo, com a atenção, com criar barulho. E isso as fez esquecer das perguntas básicas: o que estou fazendo aqui? ”, questiona Klein.
Ele acredita que uma transição precisa acontecer: que as marcas e as pessoas deixem de ser consumidores de tendência e comecem a ser agentes de cultura, agentes da mudança.
“Os futuros que vemos sendo criados hoje em dia, honestamente, não são tão bons. As pessoas estão testemunhando isso e percebendo que precisam ser algo diferente, que não podem ser apenas consumidoras do status quo”, diz.
O PROBLEMA DO HYPE
Essa lógica aparece também na forma como as tendências tecnológicas são discutidas no mercado de inovação. Relatórios de tendências muitas vezes circulam como se fossem respostas prontas sobre o futuro. Como se a tecnologia, e não a humanidade, fosse o futuro mais certo em que apostar.
“Fomos treinados a acreditar que carros voadores e colonizar Marte são o futuro. O desafio é transformar essa visão: no lugar de pensar em tecnologia, pensar em futuros humanos. Como a humanidade quer estar no futuro? Que habilidades queremos ver fortalecidas? Como queremos que as pessoas pensem e se sintam no futuro?”, argumenta.
Leia mais: SXSW: mudanças deixam edição 2026 mais curta e descentralizada; saiba como navegar
Em vez de tratar relatórios de previsões como gabaritos, ele sugere encará-las como pontos de partida para reflexão. “Não precisamos olhar para um relatório de tendências como um gabarito a ser copiado.”
No fim das contas, o desafio não é apenas acompanhar o ritmo das máquinas. Em um mundo de informação infinita, onde novas tecnologias ampliam constantemente o que é possível fazer, talvez a habilidade mais humana seja justamente escolher. Filtrar. Dizer não.