O pior dia do ano
Em meio ao aumento da violência de gênero e à frustração com os avanços da igualdade, o 8 de março também se torna um espaço para disputar narrativas sobre o lugar das mulheres na sociedade

Por que o Dia Internacional das Mulheres desperta tanta raiva nas próprias mulheres?
“Sem motivos pra comemorar.” “No dia em que pararem de nos matar, eu celebro.” “Se você comemora o dia internacional das mulheres, você ainda não entendeu nada.”
Para alguém cujo trabalho é centrado justamente na interseção entre mulheres e poder, o algoritmo não brincou em serviço e me trouxe manifestações relacionadas ao Dia Internacional das Mulheres ao redor do mundo. Falas históricas de personalidades, celebridades e mulheres na política. Protestos de todos os tamanhos. Mulheres carregando cartazes. Posts motivacionais e inspiracionais. Curadoria de mulheres invisibilizadas nas ciências, nas artes, na economia. E um monte de gente se posicionando contra o 8 de março.
A raiva sempre me instiga porque, na minha visão, é o principal motor de qualquer mudança na sociedade.
A raiva sempre me instiga porque, na minha visão, é o principal motor de qualquer mudança na sociedade. Nunca nada mudou sem passar pela raiva. De forma que eu aprendi a conviver com ela, gostar dela e, mais do que tudo, torná-la útil. Ainda assim, ouvir mulheres falando do 8M como “o pior dia do ano” me intrigou.
Os argumentos são justos. O Brasil segue atingindo patamares recordes de feminicídio, que ocorrem de forma cada vez mais desinibida, documentada, televisionada. As ações afirmativas que ganharam força no início dos anos 2020 foram desmanteladas ou estão operando abaixo do radar em boa parte das organizações que as adotaram. Na política, testemunhamos nos últimos anos uma ofensiva incansável para perdoar partidos que não cumpriram cotas para mulheres e negros, o que havia sido considerado uma vitória consagrada.
Não é fácil ser mulher no Brasil, ainda mais se você for negra, pobre ou menor de idade.
Não é fácil ser mulher no Brasil, ainda mais se você for negra, pobre ou menor de idade – essa é a parcela que se sente mais insegura e é de fato mais vitimada. Segundo o Pacto Nacional contra o Feminicídio, lançado pelo Governo Federal este ano, são 4 vítimas e 10 tentativas de feminicídio por dia no país. E a violência de gênero é personalíssima: a maior parte das mulheres sofre violência de pessoas que elas conhecem, com quem convivem e com quem compartilham afeto.
O aumento do volume do tema na mídia, tanto tradicional quanto social, é absolutamente justificado e vem corrigir um apagamento histórico. A sensação é de que nunca se falou tanto sobre isso antes, e ela tem respaldo. Mas existe um risco aí que ainda debatemos pouco: estamos ganhando espaço quando nos tornamos vítimas. Mas quais outros espaços nos estão sendo dados?
Que outros imaginários estamos forjando enquanto sociedade a respeito do papel das mulheres que não passe necessariamente por termos sido violentadas, agredidas, abusadas e mortas? Em que outros momentos as mulheres estão sendo noticiadas? Quando vamos falar de mulheres que lideram? Mulheres que inovam? Mulheres que solucionam problemas complexos? Mulheres que geram emprego em escala? Mulheres que impulsionam o desenvolvimento do país?
A violência de gênero é o sintoma de uma orquestração cultural que precisa ser, ao mesmo tempo, denunciada e desmontada.
É aqui que somo minha raiva e que vejo, na contrapartida, um valor imenso no Dia Internacional das Mulheres. A violência de gênero é o sintoma de uma orquestração cultural que precisa ser, ao mesmo tempo, denunciada e desmontada. Não adianta apenas denunciar sem criar o que podemos colocar no lugar. Um imaginário só se destrói quando outro o substitui, com novos símbolos, novas histórias e novas referências.
Então, é aqui que cravo a importância do Dia Internacional das Mulheres. É nesse dia que o mundo experimenta por 24 horas o tipo de orquestração cultural que precisamos sustentar o ano inteiro. Ele serve como um protótipo do que precisamos alcançar do ponto de vista de comunicação: mensagens fortes, repetidas de forma consistente, com mensageiros e mensageiras capazes de engajar audiências em escala. Digo de novo: o ano inteiro.
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Imagina se a gente não descansasse nunca de, sim, denunciar o que as mulheres enfrentam, mas também falar de mulheres que prosperam, que resolvem, que lideram, que são extraordinárias por serem quem são, na escala da sua casa ou na escala do mundo. Imagina se todo dia a gente, homens e mulheres, acordasse com a energia do 8M e fizesse isso como parte do nosso dia a dia: hoje, eu vou falar de mulheres. E amanhã também.
Imagina que nosso compromisso com a equidade de gênero fosse marcado em todos os dias do calendário, como uma rotina de auto-cuidado. Ou que a gente tratasse como uma dieta: hoje eu relapsei, amanhã eu volto. Isso é importante pra mim.
Se você imaginou, é porque dá pra fazer.
