Guerra com o Irã pode encarecer petróleo, alimentos e fertilizantes

Fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, já pressiona preços de energia, fertilizantes e alimentos

Guerra com o Irã pode encarecer petróleo, alimentos e fertilizantes
FrankRamspott, master1305 via Getty Images

Paul Wiseman 8 minutos de leitura

A guerra com o Irã está causando danos colaterais à economia mundial.

O conflito está elevando os preços da energia e dos fertilizantes; ameaçando causar escassez de alimentos em países pobres; desestabilizando estados frágeis como o Paquistão; e complicando as opções para os responsáveis ​​pelo combate à inflação em bancos centrais como o Federal Reserve (Fed, dos EUA).

Grande parte do problema foi causado pelo fechamento efetivo do Estreito de Ormuz — por onde passa um quinto do petróleo mundial — após os ataques com mísseis lançados pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro, que mataram o líder iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.

“Agora estamos vivendo esse pior cenário.”

Maurice Obstfeld, pesquisador

“Por muito tempo, o pior cenário que impedia os EUA de sequer cogitarem um ataque ao Irã e que os levava a instar Israel à moderação era o de que os iranianos fechariam o Estreito de Ormuz”, disse Maurice Obstfeld, pesquisador sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Agora estamos vivendo esse pior cenário.”

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Com o corte de uma importante rota de navegação, os preços do petróleo dispararam — de menos de US$ 70 o barril em 27 de fevereiro para um pico de quase US$ 120 no início da segunda-feira (9), antes de se estabilizarem perto de US$ 90. A queda arrastou os preços da gasolina junto.

Segundo a Associação Automobilística Americana (AAA), o preço médio da gasolina nos EUA subiu para US$ 3,48 o galão, ante pouco menos de US$ 3 na semana anterior. Os preços podem ser sentidos com ainda mais intensidade na Ásia e na Europa, regiões mais dependentes do petróleo e gás do Oriente Médio do que os Estados Unidos.

O DESAPARECIMENTO DE 20 MILHÕES DE BARRIS DE PETRÓLEO/DIA

Cada aumento de 10% nos preços do petróleo — desde que persistam durante a maior parte do ano — elevará a inflação global em 0,4 ponto percentual e reduzirá a produção econômica mundial em até 0,2%, afirmou Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

“O Estreito de Ormuz precisa ser reaberto”, disse o economista Simon Johnson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2024. “São 20 milhões de barris de petróleo passando por ali todos os dias. Não há capacidade excedente em nenhum lugar do mundo que possa suprir essa demanda.”

A economia mundial já demonstrou sua capacidade de resistir a impactos, absorvendo os golpes da invasão russa da Ucrânia há quatro anos e das tarifas massivas e imprevisíveis impostas pelo presidente Donald Trump em 2025.

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Muitos economistas expressam esperança de que o comércio global consiga superar a crise atual.

“A economia mundial já se mostrou capaz de se recuperar de choques significativos."

Eswar Prasad, professor

“A economia mundial já se mostrou capaz de se recuperar de choques significativos, como as amplas tarifas americanas, então há espaço para otimismo de que ela se mostrará resiliente às consequências da guerra contra o Irã”, disse Eswar Prasad, professor de política comercial da Universidade Cornell.

SERÁ QUE A COTAÇÃO DO PETRÓLEO VAI CAIR?

Especialmente se os preços do petróleo conseguirem cair para a faixa de US$ 70 a US$ 80 por barril, escreveu o economista Neil Shearing, da Capital Economics, “a economia mundial poderá absorver o choque com menos perturbações do que muitos temem”.

Mas muitas incógnitas permanecem.

"A questão é: quanto tempo isso vai durar?”

Simon Johnson, economista

“A questão é: quanto tempo isso vai durar?”, disse Johnson, também ex-economista-chefe do FMI. “É difícil imaginar o Irã recuando agora que anunciou este novo líder” – Mojtaba Khamenei. Acredita-se que o filho do aiatolá assassinado seja ainda mais linha-dura que o pai.

Outro fator que complica as perspectivas para o fim da crise é a incerteza sobre o que os Estados Unidos pretendem alcançar. “Tudo isso gira em torno do presidente Trump”, disse Johnson. “Não está claro quando ele vai declarar vitória.”

QUEM SÃO OS GANHADORES E OS PERDEDORES NA ECONOMIA

Por ora, a guerra provavelmente criará vencedores e perdedores econômicos.

Os importadores de energia – a maior parte da Europa, Coreia do Sul, Taiwan, Japão, Índia e China – serão duramente atingidos pelos preços mais altos, escreveu Shearing em um comentário para o think tank Chatham House, de Londres.

O Paquistão se encontra em uma posição particularmente sombria. O país do sul da Ásia importa 40% de sua energia e depende especialmente do gás natural liquefeito (GNL) do Catar, cujo fornecimento foi interrompido pelo conflito. O aumento dos preços da energia pressionará as famílias paquistanesas e prejudicará sua economia.

Longe de reduzir as taxas de juros para aliviar a situação, o banco central do país provavelmente terá que aumentá-las, afirmam os economistas Gareth Leather e Mark Williams, da Capital Economics. Isso se deve, em parte, ao fato de a inflação permanecer em níveis preocupantemente altos no Paquistão — e o aumento dos preços da energia ameaça agravar ainda mais a situação.

Mas os países produtores de petróleo fora da zona de guerra — Noruega, Rússia, Canadá — se beneficiarão dos altos preços do petróleo sem o risco de ataques com mísseis e drones.

A energia não é o único problema. Até 30% das exportações mundiais de fertilizantes — incluindo ureia, amônia, fosfatos e enxofre — passam pelo Estreito de Ormuz, de acordo com Joseph Glauber, do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares.

A interrupção no Estreito já interrompeu os embarques de fertilizantes, aumentando os custos para os agricultores — e provavelmente está elevando os preços dos alimentos. “Qualquer país com um setor agrícola significativo, incluindo os Estados Unidos, seria vulnerável”, disse Obstfeld. “Os efeitos serão mais devastadores em países de baixa renda.”

A produtividade agrícola já pode estar comprometida. Adicione esse componente de custo extra e você terá a perspectiva de uma significativa escassez de alimentos.

O Brasil, um dos maiores produtores mundiais de alimentos, pode ser um dos países a sofrer com o desarranjo no abastecimento de fertilizantes - com pressão nos custos, impacto na inflação e nos próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom) em relação à taxa básica de juros (Selic).

QUAL É A SITUAÇÃO ATUAL DOS EUA


Os Estados Unidos, agora um exportador líquido de energia, devem se beneficiar ligeiramente, no geral, com o aumento dos preços do petróleo e do gás. Mas as famílias comuns sentirão o impacto em um momento em que os americanos já estão furiosos com os altos custos, às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro.

"Se eu tiver que pagar mais por um item essencial, então reduzirei um item supérfluo."

Mark Mathews, da NRF

As famílias americanas gastam US$ 2.500 por ano, ou quase US$ 50 por semana, para abastecer seus carros, disse Mark Mathews, economista-chefe da Federação Nacional de Varejo (NRF). Um aumento de 20% nos preços da gasolina significa um gasto extra de US$ 10 por semana em seus orçamentos, forçando-as a cortar gastos em outras áreas. "Se eu tiver que pagar mais por um item essencial, então reduzirei um item supérfluo", disse Mathews.

Se a cotação do petróleo permanecerem em torno de US$ 100 o barril, calcularam analistas da Evercore ISI, o consequente aumento nos preços da gasolina anulará, para a maioria dos americanos, os benefícios dos maiores reembolsos de impostos deste ano, decorrentes dos cortes de impostos de Trump em 2025. Apenas os 30% mais ricos ainda teriam um ganho.

GUERRA GERA UM DILEMA PARA OS BANCOS CENTRAIS


A crise com o Irã também coloca os bancos centrais do mundo estão em um dilema. Os preços mais altos da energia alimentam a inflação, mas também prejudicam a economia. Então, os bancos centrais devem aumentar as taxas de juros para conter a inflação ou reduzi-las para impulsionar a economia?

O Fed já está dividido entre os formuladores de políticas que acreditam que o fraco mercado de trabalho americano precisa de ajuda com taxas de juros mais baixas e aqueles que ainda se preocupam com o fato de a inflação americana permanecer acima da meta de 2% do banco central.

"Eles se lembram facilmente da década de 1970", disse Johnson, quando o conflito no Oriente Médio e o embargo de petróleo árabe fizeram os preços do petróleo dispararem. Os banqueiros centrais são assombrados pela lembrança de que seus antecessores "não acertaram na década de 1970. Eles pensaram que era um choque temporário. Pensaram que poderiam acomodar a inflação com taxas de juros mais baixas e acabaram se arrependendo, porque a inflação ficou muito mais alta".

Johnson previu que os preços mais altos da energia, impulsionados pela guerra com o Irã, "irão intensificar enormemente o debate dentro do Fed" e tornar os cortes nas taxas de juros dos EUA menos prováveis. (Associated Press/a repórter da AP especializada em varejo, Anne D’Innocenzio, e o repórter de economia da AP, Christopher Rugaber, contribuíram para esta reportagem)


SOBRE O AUTOR

Paul Wiseman é repórter de economia da Associated Press. saiba mais