Gigantesca pedreira que ajudou a construir Pequim vira parque
Antiga área de mineração é transformada em paisagem ecológica que reaproveita crateras, controla a água e expõe as cicatrizes do passado industrial

Nos arredores ao norte de Pequim, enormes buracos na terra carregam as cicatrizes do preço pago para alimentar o crescimento da capital chinesa até se transformar em uma megacidade que hoje abriga mais de 22 milhões de pessoas.
O local foi uma pedreira que, entre 1990 e 2015, forneceu matéria-prima essencial para a expansão acelerada de Pequim, ajudando a erguer desde arranha-céus e estradas até o principal estádio construído para a Olimpíada de2008.
Operada pela Beijing Xingfa Cement Co., a pedreira deixou para trás um vazio físico que funciona como o oposto da verticalidade urbana da cidade. Após quase uma década de planejamento e design, a reabilitação do local resultou em um parque do tamanho de 150 campos de futebol, tão impressionante quanto surreal.
O parque foi projetado pela empresa de arquitetura paisagística SWA Group, que também liderou o planejamento responsável por transformar a antiga fábrica e os prédios administrativos da pedreira em um campus de pesquisa científica.

A complexa recuperação ambiental da área está restaurando a vida do solo e da paisagem, ao mesmo tempo em que aproveita suas características físicas únicas para criar um destino inesperado. No conjunto, trata-se de uma segunda vida notável para uma área que foi praticamente esgotada de seus recursos naturais.
“Precisávamos criar uma base ecológica. Mas, além disso, também queríamos trazer as pessoas de volta para este parque”, afirma Jack Wu, diretor do estúdio de Xangai da SWA e líder de design do parque e do campus. “Embora originalmente fosse um local de mineração, acreditamos que essas duas coisas podem coexistir.”

O parque que resultou de quase uma década de planejamento mistura restauração ambiental com arte paisagística. As cicatrizes inevitáveis das duas crateras gigantes da pedreira foram reinterpretadas como elementos centrais da experiência.
Uma das crateras funciona como um lago sazonal, que capta água de toda a área por meio de um sistema de drenagem cuidadosamente projetado para lidar com as fortes chuvas de verão que frequentemente causam enchentes na região.

A outra cratera tem uma função mais cênica, com mirantes sombreados em sua borda, um anfiteatro e trilhas que percorrem suas paredes em terraços.
Em uma escolha de design pouco convencional, os processos de extração que transformaram a paisagem em uma cavidade quase pixelada não foram escondidos. Ao contrário, foram enfatizados, colocando a natureza bruta e destrutiva do passado da pedreira no centro da experiência do parque.

A SWA coletou grandes pedras e rochas espalhadas pelo terreno para criar montes e formas esculturais que remetem à época em que o local ainda era uma pedreira ativa.
O projeto também busca compensar parte da transformação radical do terreno usando os enormes cortes e cavidades para movimentar água pelo parque.

O paisagismo foi pensado para controlar como a água é absorvida pelo solo e, ao mesmo tempo, filtrar a contaminação moderada e os metais pesados que ainda permanecem nas camadas superiores da terra.
O sistema também regula como a água deixa os limites do parque, evitando enchentes em vilarejos próximos ou a dispersão dos contaminantes que o próprio projeto busca eliminar.

“Queremos manter toda a água dentro do local para evitar que ela continue erodindo as bordas das crateras e também para reutilizá-la na irrigação”, explica Peichen Hao, diretora associada da SWA.
Talvez a decisão de design mais importante tenha sido permitir que a paisagem alterada se revele. Os projetistas desenvolveram métodos para preservar as encostas marcadas por crateras e os penhascos esculpidos da pedreira, mantendo-os visíveis como relíquias do passado industrial, ao mesmo tempo em que celebram sua escala monumental.

Wu afirma que o local tem uma ligação muito forte com o desenvolvimento de Pequim e espera que isso atraia visitantes da cidade interessados em entender melhor essa relação. Mesmo sem esse contexto histórico, ele acredita que o parque será um destino por sua imponência.
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“Como alguém que cresceu na cidade, você raramente tem a chance de experimentar montanhas enormes, uma cratera gigantesca, essa diferença de escala”, diz Wu. “Não queríamos adicionar coisas totalmente novas que fizessem parecer um parque urbano comum. Queremos preservar a sensação industrial autêntica do lugar.”