Por que o esboço à mão está voltando à arquitetura na era da IA
Em um mundo cada vez mais dominado pela IA, o desenho à mão livre agora é visto como um sinal de "pensamento real"

Em 1994, Bernard Tschumi, então diretor da Escola de Arquitetura, Planejamento e Preservação da Universidade Columbia, em Nova York, lançou um experimento radical: proibiu papel e desenhos feitos à mão, exigindo que estudantes de arquitetura usassem computadores.
Junto com a ascensão dos softwares de projeto assistido por computador, o chamado “escritório sem papel” acelerou a adoção de ferramentas digitais pela profissão e transformou a maneira como arquitetos concebiam ideias.
Agora que a inteligência artificial entrou em cena, seria fácil imaginar que o desenho arquitetônico tradicional está com os dias contados. Mas acontece exatamente o contrário. “Vivemos em um mundo dominado por ferramentas digitais, mas algo curioso está acontecendo: o esboçoo à mão está voltando”, diz Andrew Holder.
Arquiteto em atividade e chefe do programa de pós-graduação em arquitetura, paisagismo e urbanismo do Instituto Escola de Arquitetura Pratt, no Brooklyn, Holder organizou recentemente uma exposição que investiga o papel do esboço na arquitetura contemporânea.
A mostra, intitulada Levers Long Enough (algo como "alavancas longas o suficiente", reúne mais de 200 desenhos enviados por mais de 60 escritórios de arquitetura. incluindo aquarelas, esboços a lápis e até rabiscos bordados.
Ao mesmo tempo, a exposição funciona como uma resposta crítica à IA e como uma celebração da experiência física em um mundo cada vez mais digital.
COMO O ESBOÇO NA ARQUITETURA (QUASE) DESAPARECEU
Por definição – ao menos segundo Holder – um esboço é rápido, econômico e físico. Às vezes, pode ser feito em uma tela sensível ao toque como a de um iPad, desde que “seja possível sentir o contato entre a mão e a imagem”. Esse contato físico, porém, vem desaparecendo há décadas.
Com o surgimento do design assistido por computador, o esboço perdeu espaço na prática arquitetônica. Embora nunca tenha desaparecido completamente, ele ainda não recuperou seu lugar no ensino da arquitetura. Aos poucos, no entanto, o desenho à mão está voltando ao centro das atenções.
Holder percebeu esse retorno pela primeira vez em 2025, ao observar o trabalho de Hilary Sample e Michael Meredith, do escritório MOS Architects. “De repente apareceu uma seção inteira no site deles mostrando esboços feitos à mão para cada projeto”, lembra.
O MOS, que no início dos anos 2000 ficou conhecido pelo uso experimental de softwares personalizados para gerar renderizações animadas, nunca deixou de desenhar à mão. “Eles simplesmente não mostravam isso”, diz Holder, que passou a procurar sinais semelhantes em toda a indústria.

A diversidade de trabalhos exibidos na mostra é resultado dessa investigação. De gigantes da arquitetura como Steven Holl e o escritório Weiss/Manfredi até estúdios emergentes como Current Interests e Almost Studio, todos pareciam manter uma prática de desenho à mão.
A disposição de exibir um esboço à mão ao lado de fotografias de projetos prontos revela um certo orgulho por essa forma de expressão que já foi considerada ameaçada. Também mostra o quanto a narrativa mudou.
“Orgulho é a palavra certa. Mas, se pensarmos no que as pessoas exibiam com orgulho há 10 anos, seriam renderizações fotorrealistas superpolidas”, diz Holder.
O EFEITO COLATERAL DA IA
O retorno do desenh tradicional na era da inteligência artificial pode parecer surpreendente, mas se torna previsível quando se observa o que novas tecnologias costumam fazer com aquilo que substituem.
Quando câmeras digitais inundaram o mercado, a fotografia em filme ressurgiu como uma prática deliberada. De forma semelhante, em 2024 as vendas de discos de vinil nos Estados Unidos superaram as de CDs.


Sempre que uma nova tecnologia promete tornar outra obsoleta, a mais antiga tende a ressurgir, despojada de sua utilidade original, mas carregada de novos significados.
Como destaca Holder, muitos dos argumentos a favor da IA giram em torno de eficiência e velocidade. Mas, para muitos arquitetos, é exatamente para isso que serve o esboço.
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À medida que o chamado “AI slop” (conteúdos de baixa qualidade gerados automaticamente) se espalha por todos os cantos da vida digital, clientes também começam a ver o desenho à mão como um sinal de cuidado, reflexão e “pensamento real”, afirma Holder.
No fim das contas, o esboço pode ser uma das expressões mais primordiais da experiência humana. Nenhum algoritmo consegue substituir isso.


