Disputa entre Anthropic e Pentágono mobiliza pesquisadores e empresas do Vale do Silício
Pesquisadores e big techs se unem à Anthropic depois que o Departamento de Defesa dos EUA incluiu a empresa em sua lista de restrições

A disputa entre a Anthropic e o Departamento def Defesa dos EUA está se tornando rapidamente um teste mais amplo sobre até onde o governo pode ir ao fiscalizar as políticas das empresas de IA e quanto apoio essas companhias conseguem mobilizar dentro da comunidade de pesquisa.
Um número considerável de pesquisadores de ponta em IA já havia assinado uma carta pública em apoio à Anthropic. Agora, 37 deles deram um passo mais formal ao assinar um amicus brief (documento jurídico enviado por terceiros que não são parte direta no processo, mas têm interesse ou especialização no assunto) apresentado ao tribunal no início desta semana.
O documento destaca como o conflito está evoluindo de uma disputa contratual relativamente restrita para algo maior: um teste sobre se o governo pode, na prática, colocar uma empresa norte-americana de IA em uma lista negra por estabelecer limites para o uso de sua tecnologia.
O desfecho pode influenciar o grau de independência que empresas de IA terão para impor salvaguardas de segurança, especialmente quando esses limites entram em choque com prioridades de segurança nacional.
O grupo por trás do amicus brief inclui o cientista chefe do Google, Jeff Dean, além de 19 pesquisadores da OpenAI e 10 da Google DeepMind. Eles assinaram o documento em caráter pessoal e não como representantes de suas empresas.
O objetivo do amicus brief é apoiar o processo movido pela Anthropic contra o governo. Ela afirma ter sido prejudicada após o Pentágono classificá-la como um “risco à cadeia de suprimentos” – classificação normalmente reservada a companhias localizadas em países adversários –, o que significa que a empresa de IA não pode mais fazer negócios com o governo ou seus contratados.
O Departamento de Defesa (ou “Departamento da Guerra”, como passou a se autodenominar) teria se irritado com a recusa da Anthropic em abandonar suas políticas contra o uso de sua IA para direcionar armas autônomas ou para sintetizar dados provenientes da vigilância em massa de cidadãos norte-americanos.
TÁTICA DE PRESSÃO
Na ação, apresentada em um tribunal federal da cidade de São Francisco, a Anthropic classificou a decisão do governo como “sem precedentes e ilegal” e alegou que o governo está retaliando a empresa por exercer seus direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA. Segundo a companhia, ela pode perder “centenas de milhões de dólares” em negócios.
O amicus brief argumenta que a iniciativa do Pentágono pode afetar não apenas a Anthropic, mas todo o setor de inteligência artificial. “Queríamos garantir que o tribunal tivesse acesso à perspectiva da indústria”, disse à Fast Company Nicole Schniedman, advogada da Protect Democracy cujo nome aparece no topo do documento.

“É fundamental reconhecer que o uso dessa autoridade pelo Departamento de Defesa é extremamente preocupante – é algo sem precedentes classificar uma empresa doméstica como risco à cadeia de suprimentos apenas por adotar salvaguardas de segurança.”
O documento foi apresentado em nome dos pesquisadores pelo Laboratório de Ação de IA para a Democracia AI for Democracy Action Lab, da organização sem fins lucrativos Protect Democracy, que se descreve como um grupo “apartidário e contrário ao autoritarismo”.
Schniedman afirmou que os signatários representam uma “convergência de diferentes atores que perceberam tanto a urgência quanto o que está em jogo... diante dessa escalada e das táticas de pressão que a Anthropic vem enfrentando – e o que significa, para a democracia, ter uma empresa privada defendendo práticas amplamente consideradas como melhores padrões da indústria e estabelecendo salvaguardas para duas aplicações de IA consideradas de alto risco”.
TOMA LÁ DÁ CÁ
O apoio da indústria à Anthropic parece estar crescendo. Também esta semana, a Microsoft apresentou um amicus brief separado em favor da empresa. A gigante de tecnologia pediu que o tribunal federal conceda à Anthropic a ordem de restrição temporária solicitada pela companhia, o que atrasaria a designação de “risco à cadeia de suprimentos” enquanto o caso é analisado.
Microsoft, Google e Amazon Web Services – os três maiores provedores de computação em nuvem – afirmaram que vão continuar distribuindo os modelos da Anthropic em suas plataformas, embora não para trabalhos relacionados à defesa.
A Anthropic alega que o governo está retaliando a empresa por exercer direitos garantidos pela Constituição dos EUA.
À medida que mais empresas e pesquisadores de IA se alinham em apoio à Anthropic, cresce a possibilidade de uma grande ruptura entre a indústria de tecnologia e o governo Trump.
Muitos titãs da tecnologia, como Marc Andreessen, David Sacks, Elon Musk, Sundar Pichai, Tim Cook e Jensen Huang, apoiaram a tentativa de reeleição de Trump em 2024 e mantiveram esse apoio, inclusive financeiro, durante seu segundo mandato.
Em troca, esperavam quatro anos de supervisão mínima do governo enquanto o setor investia trilhões de dólares em infraestrutura e serviços de IA.
INGERÊNCIA DO GOVERNO NO SETOR DE IA
Talvez o governo tenha imaginado que, como o CEO da Anthropic, Dario Amodei, não financiou a campanha do atual presidente nem participou de sua posse, seria aceitável classificar a empresa como “politicamente correta” e prejudicar seriamente seus negócios.
Afinal, outras empresas de IA alinhadas a Trump – como a OpenAI, a xAI e o próprio Google – estavam prontas para fornecer seus modelos ao Pentágono. A OpenAI assinou seu novo contrato poucos dias depois de a Anthropic ser excluída.
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Ainda assim, o tratamento dado à Anthropic pelo governo acabou atraindo a atenção de pesquisadores importantes de IA, provedores de nuvem e algumas das maiores empresas do setor.
O que poderia ter sido apenas uma disputa contratual restrita começa a se parecer cada vez mais com um teste sobre o quanto de poder o governo tem sobre as empresas que estão construindo a próxima geração de sistemas de inteligência artificial.