Ativistas culpam redes sociais por crise de saúde mental entre jovens
Em Londres, ativistas espalham cartazes impactantes para chamar a atenção para a crise de saúde mental entre os jovens

Estava caminhando com meu parceiro pelo bairro de Camden, em Londres, quando vimos um anúncio que dizia: “Este aplicativo foi projetado para te manter preso”.
Na peça, um dedo aparece tocando o ícone do app do Instagram acima de uma frase que afirma: “45% dos adolescentes dizem que passam tempo demais nas redes sociais”.
Em teoria, a mensagem era direta. Mas a observação final no canto do anúncio nos deixou intrigados: “Da Meta Platforms”, com logotipo e tudo.
Nos entreolhamos, confusos, tentando entender. O anúncio parecia tão profissional que chegamos a nos perguntar: será que a própria Meta – empresa que repetidamente nega responsabilidade pelos efeitos de suas plataformas na saúde mental dos usuários – estaria divulgando algo assim?

Não. Na verdade, a controladora do Instagram e do Facebook não fez nada disso. O anúncio é obra do Just Treatment, um grupo britânico de justiça na saúde fundado em 2017.
A mais recente campanha da organização se chama "Mad Youth Organise" e tem como objetivo melhorar o acesso de jovens a serviços de saúde mental de qualidade.
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O “anúncio” que vimos é um de oito cartazes que ativistas espalharam por Londres em uma ação de guerrilha, segundo informou a Just Treatment à Fast Company. Outro cartaz, de design semelhante, traz uma foto do CEO da Meta, Mark Zuckerberg, sorrindo. A legenda diz: “Se você se sente pior, está funcionando”.
Outras peças exibem frases como “Nossa ansiedade é explorada pela Meta” e “Estamos mais solitários com a Meta”. Cada uma inclui estatísticas para sustentar as afirmações.
A campanha foi lançada na semana passada e incluiu um grupo de jovens bloqueando o escritório da Meta em Londres com outro cartaz que dizia, sem rodeios: “A crise de saúde mental da juventude, patrocinada pela Meta”.
Segundo o "Mad Youth Organise", os participantes do protesto acreditam que as redes sociais “os empurraram para uma crise de saúde mental”. De acordo com a Just Treatment, toda a campanha foi criada e organizada por jovens ativistas que já enfrentaram problemas graves de saúde mental.
Além da Meta, o grupo também mirou o TikTok. Um cartaz diz: “Transtornos alimentares começam no TikTok”, enquanto outro afirma: “A miséria começa no TikTok”. Ambos citam uma estatística segundo a qual 46% dos adolescentes dizem que as redes sociais pioram a forma como eles veem o próprio corpo.
A Fast Company procurou a Meta e o TikTok para comentar. Este texto será atualizado caso as empresas respondam.
QUAL O OBJETIVO DA CAMPANHA?
Os ativistas defendem a criação de uma “Big Tech Tax”, um imposto de 4% sobre empresas de tecnologia que faturam mais de £500 milhões (US$ 663 milhões) globalmente.
O dinheiro arrecadado seria destinado ao financiamento de serviços de saúde mental para jovens. O grupo também pede, entre outras medidas, o fim do monopólio das grandes empresas de tecnologia sobre as redes sociais.

Não é segredo que estudos vêm apontando efeitos negativos das redes sociais. Nos Estados Unidos, um julgamento de grande repercussão envolvendo redes sociais apresentou suas alegações finais na quinta-feira (dia 12).
As plataformas TikTok, Meta, YouTube e Snap Inc. foram acusadas de projetar deliberadamente produtos viciantes e prejudiciais à saúde mental de jovens. A resposta dessas empresas às acusações tem sido basicamente a mesma: negar, negar, negar.
O TikTok e a Snap Inc. chegaram a um acordo anteriormente com a autora do processo, identificada apenas pelas iniciais KGM. Ela afirma que o uso precoce das redes sociais a tornou dependente da tecnologia e agravou sua depressão e pensamentos suicidas.
a campanha foi criada e organizada por jovens ativistas que já enfrentaram problemas graves de saúde mental.
Esse, porém, é apenas o primeiro caso de um conjunto de processos que reúne mais de 1,6 mil autores, incluindo famílias e distritos escolares.
Pesquisas também vêm encontrando evidências consistentes dos danos das redes sociais à saúde mental de jovens.
Uma pesquisa de 2025 do Pew Research Center mostrou que 48% dos adolescentes dos EUA entre 13 e 17 anos acreditam que as redes sociais têm um efeito negativo sobre sua faixa etária. É um salto considerável em relação aos 32% que pensavam o mesmo em um levantamento de 2022.
Os participantes também apontaram as redes sociais como a maior influência negativa na saúde mental dos adolescentes (22%), à frente do bullying (17%), da pressão e das expectativas (16%) e da escola (5%).
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Já a YoungMinds, organização britânica dedicada à saúde mental de jovens, relata que 34% dos jovens dizem se sentir presos às redes sociais. Um em cada cinco afirma receber conteúdos perturbadores nessas plataformas pelo menos uma vez por semana.