Grammarly é processado por usar nomes de autores sem consentimento
Escritores e jornalistas processam a plataforma pelo uso de seus nomes sem permissão ou pagamento de direitos autorais

O Grammarly, ferramenta conhecida por ajudar com ortografia, gramática e detecção de plágio, está sendo processada por causa de um novo recurso de IA chamado “Expert Review”.
A funcionalidade oferece sugestões de edição atribuídas a autores e especialistas renomados, com um detalhe importante: nenhum deles autorizou o uso de seus nomes.
O recurso entrega dicas de escrita em tempo real associadas a celebridades como Stephen King e Neil deGrasse Tyson, além de jornalistas como Julia Angwin, fundadora do site The Markup e responsável por abrir a ação coletiva contra a empresa mãe do Grammarly, a Superhuman.
Angwin afirma que a ferramenta utilizou sua imagem sem consentimento. “Passei décadas aprimorando minhas habilidades como escritora e editora, e é perturbador descobrir que uma empresa de tecnologia está vendendo uma versão impostora da minha expertise conquistada com tanto esforço”, disse em comunicado.
De deepfakes hiper-realistas, como os gerados pelo Sora, a golpes aplicados com chatbots, a IA já vem distorcendo a realidade e explorando a identidade de pessoas em ritmo preocupante.
O processo contra o Grammarly mostra que a imagem de escritores profissionais também entrou na mira, ao mesmo tempo em que a própria tecnologia ameaça suas carreiras e meios de subsistência.
Este é mais um capítulo na disputa sobre quais limites legais e éticos a inteligência artificial não deveria ultrapassar.
APROPRIAÇÃO E DIREITOS AUTORAIS
A ação federal “contesta a apropriação indevida dos nomes e identidades de centenas de jornalistas, autores, escritores e editores para gerar lucro ao Grammarly e à sua controladora, a Superhuman”, segundo documentos analisados pela Fast Company.
O processo surge no momento em que a Superhuman anunciou planos de descontinuar o Expert Review. O CEO da empresa, Shishir Mehrotra, comentou a decisão em uma publicação no LinkedIn: “esse tipo de escrutínio melhora nossos produtos, e levamos isso a sério.”

“O o agente foi projetado para ajudar usuários a descobrir perspectivas influentes e pesquisas relevantes para seu trabalho, além de criar formas de especialistas se conectarem mais profundamente com seus fãs”, postou Mehrotra.
Nos comentários do post, a reação foi de crítica. Muitos argumentaram que o posicionamento não assume responsabilidade nem reflete a gravidade do problema.
Em declaração enviada à Fast Company, Mehrotra reforçou o pedido de desculpas, mas minimizou o processo. “Analisamos a ação e acreditamos que as alegações não têm mérito. Vamos nos defender vigorosamente.”
AS NOVAS GUERRAS SOBRE IDENTIDADE
Com o avanço acelerado da IA, trabalhadores – especialmente em áreas mais vulneráveis à automação, como escrita e edição – enfrentam novas dúvidas sobre como proteger não apenas seu trabalho, mas também suas identidades.
Independentemente do desfecho, especialistas jurídicos e em IA alertam para o impacto desse caso no futuro de diversos setores, e para o fato de que muitas empresas ainda não estão preparadas.
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A ação “aponta para uma tendência preocupante”, afirma Vered Zlaikha, sócia e chefe da área de cibersegurança e IA do escritório Lipa Meir & Co. “Na corrida por usuários e participação de mercado, alguns desenvolvedores podem ser tentados a ultrapassar limites legais e éticos.”
Ela acredita que este pode ser apenas o início. “Devemos ver mais processos e ações coletivas movidas por diferentes partes afetadas, incluindo usuários e pessoas citadas ou implicadas por sistemas de IA.”
ANTES DE ADOTAR IA, PENSE DUAS VEZES
Zlaikha recomenda que empresas façam perguntas essenciais antes de implementar ferramentas de IA: quais proteções contratuais existem? Quem assume a responsabilidade em caso de ação judicial? Como garantir controle e supervisão sobre o desenvolvimento e uso dessas tecnologias?
Empresas maiores tendem a ter mais recursos para se adaptar ao cenário jurídico em transformação, mas também se tornam alvos mais prováveis.
Com o avanço acelerado da IA, trabalhadores enfrentam dúvidas sobre como proteger seus empregos.
“Quando você tem milhões de usuários e centenas de milhões em receita, é o primeiro nome que advogados de acusação procuram”, diz a estrategista de adoção de IA Dalit Heldenberg. “Empresas menores enfrentam outro risco: muitas adotam essas ferramentas sem entender totalmente as questões legais às quais podem estar se expondo.”
No caso de Julia Angwin, o objetivo é claro: segundo o processo, ela busca “impedir que o Grammarly e a Superhuman lucrem com seu nome e com o de centenas de outros jornalistas, autores, editores e até advogados”, além de barrar a prática de “atribuir a eles palavras que nunca disseram”.
Já Mehrotra alega que a empresa pretende seguir outro caminho. “Existe uma abordagem melhor para trazer especialistas para a nossa plataforma. Estamos trabalhando em uma versão que trará benefícios muito maiores tanto para usuários quanto para especialistas”, afirma.