“Fale mais alto”: painel do SXSW discute papel de artistas e ativistas na sociedade
Entrevistados por Jéssica Weitz, Jane Fonda e W. Kamau Bell falam da coragem e da esperança para fazer a diferença

O SXSW 2026, evento com conferências e festivais que celebram a convergência das indústrias de tecnologia, cinema e música desde 1987, trouxe diversas pautas urgentes.
Nesta quarta-feira (18), em seu último dia de evento, Jessica Herman Weitz, diretora nacional de Engajamento de Artistas e Entretenimento na União Americana pelas Liberdades Civis (sigla ACLU, em inglês), entrevistou Jane Fonda e W. Kamau Bell no painel Say It Louder: Artists, Activism & the First Amendment with The ACLU.
Jane, de 88 anos, é uma renomada atriz norte-americana, além de ativista política e escritora, conhecida por sua longevidade artística e engajamento social. Walter Kamau Bell é um grande comediante de stand-up, também americano, além de apresentador, diretor e produtor, conhecido por seu humor sociopolítico e por abordar temas como racismo e justiça social.
Jéssica abriu o painel reforçando que artistas podem e devem usar suas plataformas para desafiar o poder, e a Primeira Emenda deve estar ao lado deles, pois liberdade de expressão é um direito que não deve ser silenciado.
“NÓS SOMOS ASSUSTADORES”, AFIRMA JANE FONDA
Para Jane Fonda, a perseguição a artistas acontece porque a arte ameaça o autoritarismo. Segundo a atriz, a tirania prospera na ideia de que não há alternativa, que as coisas nunca vão mudar e o papel do artista é justamente implodir essa percepção.
"Artistas dão voz a quem precisa ser ouvido e utilizam a ferramenta mais poderosa contra a tirania: a ridicularização", afirmou Fonda. Para ela, a capacidade de permitir que as pessoas sonhem com outros mundos é o que torna a classe artística "assustadora" para regimes opressores.
W. Kamau Bell aprofundou a análise sob a ótica da identidade, destacando que o risco não é distribuído de forma igual. Ele pontuou que humoristas de minorias, especialmente negros, tornam-se alvos prioritários por gerarem identificação imediata ao transformarem o sofrimento em piadas precisas.
"Homens ricos e brancos são historicamente as pessoas menos engraçadas", provocou Bell, ressaltando que o humor periférico é perigoso justamente por sua capacidade de mobilização e conexão real.
CRISE CLIMÁTICA E DEMOCRACIA SÃO URGÊNCIA CONJUNTA
Um dos pontos centrais do painel foi a conexão cada vez maior entre o colapso ambiental e a erosão democrática. Poderosos exploram recursos sem se preocupar com a futura qualidade de vida.
Fonda destacou que o cenário atual é inédito para a humanidade, pois o autoritarismo intenso agora é agravado por uma janela climática que se fecha rapidamente. "Estamos enfrentando duas crises que estão totalmente interligadas. Se não agirmos, morreremos nos arrependendo", alertou.
Fonda foi enfática ao dizer que o momento exige parar de colaborar com o sistema. A ativista reforçou que a ideia de que não podemos nos mobilizar é mentira, e como o mundo é tomado pelas grandes companhias, o boicote é o caminho. "Não está gostando do posicionamento da Disney? Cancele sua assinatura! Faça-os sentirem no bolso".
Bell complementou a ideia de resistência sugerindo que o protesto efetivo não precisa ser elaborado, mas dve gerar incômodo até em você mesmo.
"Se você está 'protestando' mas isso não está mudando nada na sua vida nem te tirando da zona de conforto, então mude a forma de protestar", desafiou o comediante.
O MONOPÓLIO DA MÍDIA É UM RISCO
A estrutura de poder da indústria também foi alvo de críticas, especialmente no que diz respeito às fusões e monopólios de mídia.
Fonda citou como exemplo o controle de grandes redes como HBO e CNN por apoiadores de figuras autoritárias, defendendo que o mercado deveria ter espaços não monopolizados para a livre expressão.
Bell seguiu a linha da desintermediação, incentivando o público a apoiar artistas diretamente para reduzir a dependência dos grandes conglomerados. "Nós, artistas, também estamos presos na realidade de depender dos monopólios para ter sucesso", desabafou.
O MEDO AINDA É MAIS FRACO DO QUE A ESPERANÇA
Ao ser questionada sobre como encontrar coragem para se posicionar, Jane Fonda relembrou o início de sua trajetória, aos 33 anos, quando rompeu com a criação voltada para o "agradar aos outros".
Para ela, a fidelidade aos valores traz uma libertação quase física. "A primeira vez que me algemaram, eu nunca me senti tão livre", revelou.
Aos 88 anos, a atriz afirma que sua felicidade vem de ter encontrado um propósito e que a esperança, tão buscada pelo público, é na verdade um resultado da ação, e não o contrário. “Quando você começa a fazer coisas, os sentimentos de esperança aparecem junto. Ações são o caminho”, reforçou.
COMO COMEÇAR A FAZER A DIFERENÇA?
W. Kamau Bell encerrou o painel com um chamado prático para quem deseja começar, mas se sente paralisado.
Ele defendeu que o ativismo deve começar onde a pessoa já está, usando as habilidades que já possui. "Você cozinha bem? Alimente quem precisa. Se você tem privilégios e plataformas, vá fazer o seu trabalho", disse ele.
O trabalho não precisa começar grande. Ajudar quem precisa com o que você tem é suficiente. Fazendo isso, busque comunidades, mobilize pessoas na sua realidade que podem firmar uma bolha mais consciente com você.
Para aqueles em situação de vulnerabilidade, como imigrantes, a recomendação da dupla foi clara: encontrar aliados que estejam fora de perigo para servir de ponte e proteção.
“Por exemplo, conheço um dono de mercearia que está entregando de graça comida para imigrantes que têm medo de sair de casa, já que o público dele é majoritariamente esse. Ele não está divulgando isso por aí, mas está mobilizando quem já conhece”, contou.
Para quem não pode se expor pessoalmente, por riscos à integridade, os ativistas recomendam fazer conexões online e gerar movimentação nas redes sociais. O importante é estar imerso na mudança.
Como resumiu Bell, "o problema não vai se vencer sozinho; nós vamos vencê-lo". Tanto Fonda quanto Jéssica afirmam que nunca se sentiram tão esperançosas, porque as pessoas estão entendendo a gravidade da nossa realidade e tendo coragem de se levantar e de fazer a diferença, custe o que custar.
Esse painel e diversos outros conteúdos da SXSW 2026 podem ser conferidos do perfil oficial do evento no YouTube.