É chegada a hora, finalmente, da vida imitar a arte

Uma leitura psicanalítica de Dias Perfeitos mostra como o vazio, a rotina e o silêncio podem sustentar o desejo em um mundo marcado pelo excesso

Filme Dias perfeitos, de Wim Wenders
(Divulgação/Dias Perfeitos)

Genesson Honorato e Conceição Vita 5 minutos de leitura

Desde o ano passado venho desejando transformar essa coluna em um espaço para boas conversas e ideias que possam refletir sobre as pessoas, o mundo, e como estamos nos relacionando, tanto ente nós, quanto entre nós e os desafios da modernidade, sendo talvez o principal deles o hackeamento da nossa atenção e consequentemente do nosso ‘tempo de viver’.

Para começar, convido a Prof. Psicanalista, Conceição Vita, que nos brinda com um texto perspicaz com base na análise do filme "Dias Perfeitos” (2023), dirigido por Wim Wenders, a partir de um roteiro escrito por Wenders e Takuma Takasaki

É um convite à observação do tempo vivido, e não apenas do tempo medido. Onde pequenos gestos do cotidiano podem se transformar em um antídoto à sociedade do cansaço presa em telas e algoritmos que já nos esgota por dentro e por fora.

Se prepare para bons insights.

Uma honra recebe-la nesta coluna Conceição Vita!

É CHEGADA A HORA, FINALMENTE, DA VIDA IMITAR A ARTE

O filme “Dias Perfeitos” (2023), de Wim Wenders, apresenta uma narrativa de aparente simplicidade, centrada em Hirayama, um homem que vive de forma solitária e ritualizada, dedicando-se à limpeza de banheiros públicos em Tóquio. A trama se desenrola com lentidão e silêncio, nos convidando a mergulhar na repetição de gestos cotidianos que, paradoxalmente, parecem preencher e esvaziar o tempo, ao mesmo tempo.

A renúncia de Hirayama aos gadgets, celulares e luxos em "Dias Perfeitos" pode ser interpretada como um esforço complexo na busca por uma forma de satisfação que se afasta do imediato e ilusório da sociedade do consumo.

O celular, o luxo e a busca incessante por novidade e distração mantêm o sujeito preso a um ciclo de consumo e dependência.

A tecnologia e o consumo em excesso da contemporaneidade atuam como dispositivos que visam a uma satisfação forçada ou a uma ilusão de completude que, paradoxalmente, gera um mal-estar e intensifica o desamparo (Hilflosigkeit). A sociedade contemporânea, impulsionada pelos gadgets e pelo luxo, opera sob um imperativo de gozo (no sentido lacaniano), uma exigência de satisfação constante e excessiva que, no entanto, nunca cessa de falhar. O celular, o luxo e a busca incessante por novidade e distração mantêm o sujeito preso a um ciclo de consumo e dependência, onde o desejo é constantemente reconfigurado e frustrado.

A renúncia de Hirayama representa a rejeição desse ciclo. Ao se restringir ao analógico (câmera, fitas cassetes, livros) e ao necessário (trabalho simples, refeições modestas), ele tenta dominar o seu desejo, canalizando sua energia libidinal para objetos estáveis e rituais concretos: a contemplação da natureza (komorebi), o cuidado com o trabalho (limpar banheiros), a leitura e a música.

filme Dias Perfeitos
(Divulgação/Dias Perfeitos/Wim Wenders)

O filme “Dias Perfeitos” oferece uma leitura estética e existencial profundamente alinhada à teoria psicanalítica da castração. A serenidade de Hirayama diante da solidão, sua relação ritualizada com o tempo e a cidade, e sua postura ética diante da falta revelam um modo de subjetivação que não busca negar a castração, mas habitá-la.

Wenders constrói, assim, uma narrativa em que a falta não é carência, mas condição de criação - aquilo que permite o desejo e o sentido. A rotina do protagonista, lida psicanaliticamente, se aproxima da sublimação: o trabalho de dar forma ao vazio. Freud e Lacan observaram que é apenas ao reconhecer os limites da completude imaginária que o sujeito pode desejar de forma autêntica. Hirayama, nesse sentido, é a figura daquele que, sem saber, vive a castração não como ferida, mas como possibilidade simbólica de existir.

A trajetória de Hirayama pode ser interpretada como uma equivalência a um final de análise. Na psicanálise, o final de análise não significa a eliminação da falta ou do desejo, mas a capacidade do sujeito de se relacionar com sua falta de forma ética, simbólica e criativa, sem recorrer à repetição compulsiva ou à alienação.

Hirayama, ao aceitar a solidão, habitar o vazio de maneira ritualizada e povoar seu mundo com leitura e música, demonstra essa conquista: ele não busca a completude imaginária, mas sustenta seu desejo dentro de um horizonte simbólico próprio. Esse estado equivale à posição de um sujeito que concluiu a análise - capaz de reconhecer a falta, lidar com a frustração e produzir sentido sem depender da satisfação total, transformando a castração em uma condição de existência ética e estética.

O silêncio do protagonista, sua parcimônia verbal e o modo como sustenta o vazio das relações humanas (especialmente com a sobrinha e a ex-mulher) indicam uma ética da castração: ele não busca preencher o vazio com palavras ou objetos, mas o sustenta. Lacan, em *A ética da psicanálise* (1959-60), propõe que o sujeito ético é aquele que não cede de seu desejo, mesmo diante da castração. Hirayama, ao aceitar a solidão e o limite, encarna essa posição. Ele não se queixa, não busca o gozo pleno, mas encontra no gesto repetitivo e silencioso uma forma de desejo que se sustenta no reconhecimento da falta.

Ao se concentrar no cotidiano e no ordinário, o protagonista combate a superficialidade e a fragmentação do mundo contemporâneo.

A rotina metódica de Hirayama, embora possa ser vista como uma compulsão à repetição ou um solipsismo (profunda solidão), funciona como um mecanismo de defesa altamente estruturado. A tecnologia e o consumo podem levar a uma alienação, onde o sujeito se perde em objetos externos, buscando um reflexo de si mesmo naquilo que possui ou que a tela mostra. O trabalho de zelador, aparentemente humilde, é elevado a uma forma de meditação ou arte. Ao se concentrar no cotidiano e no ordinário, ele combate a superficialidade e a fragmentação do mundo contemporâneo.

Os sonhos do personagem, que são imagens fugazes e naturais, podem ser vistos como o inconsciente em contato direto com a realidade simbólica, não filtrada ou poluída pela sobrecarga de informações e ruídos da vida digital.

A renúncia de Hirayama é uma solução ética e psíquica para o seu mal-estar, mas especialmente para o mal-estar moderno. É uma tentativa de elaboração e cura onde o sujeito, ao se despir dos adornos tecnológicos e materiais, encontra um caminho para o desejo autêntico (o cuidado com a vida simples) fora do imperativo de gozo da cultura do consumo.

Ainda não viu o filme?

Pois então se dê esse presente.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Genesson Honorato é psicólogo com olhar para a psicanálise, tem formação em Marketing e Design Digital pela ESPM e MBA em inovação pel... saiba mais