Nova York usa rios para entregas e reduz trânsito de caminhões
O programa Blue Highways busca modernizar o transporte de cargas em Nova York e reduzir a dependência dos caminhões de entregas

Marcus Hoed, imigrante holandês que fundou a empresa de logística DutchX na cidade de Nova York em 2013, sempre se interessou pelo potencial das bicicletas, especialmente as de carga, para preencher a lacuna das entregas no mesmo dia na logística urbana.
Nos últimos anos, a empresa se posicionou como uma transportadora de emissão zero: uma frota de vans elétricas percorre ruas e pontes, enquanto bicicletas de carga assumem os últimos quilômetros das entregas.
Mas, desde dezembro, a DutchX encontrou uma forma de reduzir drasticamente o tempo de entrega. Normalmente, o trajeto entre seu centro de triagem no Terminal Marítimo do Brooklyn e Midtown West levava cerca de 75 minutos, após atravessar uma ponte ou passar por um túnel sob o East River. Agora, usando uma balsa, o mesmo percurso é feito em um terço do tempo.
“Não precisamos dirigir uma van até Manhattan, lidar com estacionamento ou pagar a taxa de congestionamento”, diz Hoed. Em vez disso, as mercadorias são deixadas no Pier 70 e carregadas diretamente em bicicletas, que conseguem trafegar pelas ruas movimentadas de Manhattan com mais agilidade.

O teste em andamento da DutchX é apenas uma parte de um plano mais amplo impulsionado pela cidade de Nova York para reinventar o transporte de cargas, revisitando o potencial da vasta rede de vias navegáveis urbanas.
O programa Blue Highways busca modernizar o transporte aquático – incluindo transformar o Terminal Marítimo do Brooklyn em um porto totalmente elétrico – e reduzir a dependência dos caminhões, que hoje respondem por cerca de 90% do transporte de cargas na cidade.
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É um movimento que fecha um ciclo histórico. O comércio em Nova York já foi concentrado em píeres e áreas portuárias movimentadas, que hoje deram lugar a edifícios residenciais de alto padrão e parques urbanos.
Parceria público-privada, a iniciativa Blue Highways aposta que o litoral pode voltar a ser peça-chave do sistema de transporte, desta vez com energia limpa e muito menos carros, vans e caminhões.
ALTERNATIVAS ZERO CARBONO
O projeto piloto no Pier 79 faz parte de uma série de investimentos da cidade para criar alternativas de transporte de cargas. Píeres e centros logísticos estão sendo (ou serão) adaptados para esse modelo. O plano inclui ainda a introdução de barcos elétricos até 2027.
Essa abordagem surge em um momento no qual cidades enfrentam o aumento do tráfego impulsionado pelo e-commerce, enquanto empresas e consumidores buscam opções de entrega com baixas ou zero emissões.

Hoed afirma que sua empresa transporta muitos produtos pequenos, como perfumes e itens de moda, mas observa um interesse crescente de grandes companhias – incluindo aquelas que entregam móveis e eletrônicos – por soluções de entrega sem emissões de carbono.
A cidade também vem testando alternativas para tornar essa transição mais limpa, como o uso de diesel renovável produzido a partir de gorduras e óleos reciclados, que pode reduzir as emissões em até 50%, além da expansão da infraestrutura de recarga em portos e píeres.
“Nem todas as entregas poderão ser feitas por água e ainda levará tempo para resolver parte da logística. Mas é uma das várias ferramentas que a cidade pode usar para descarbonizar”, afirma Joy Gardner, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Empire Clean Cities.
Hoed diz que ainda está avaliando o impacto do piloto do Blue Highways. Ele já tem certeza de que o modelo barco + bicicleta reduz o tempo de entrega sem aumentar o preço, mas ainda não sabe se diminui custos ou mesmo se há espaço para ganhar ainda mais eficiência com o tempo.
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Atualmente, a empresa realiza o trajeto uma vez por dia durante a semana, saindo do Brooklyn às 10h30 em uma embarcação com capacidade equivalente a 45 vans.
Para Hoed, é difícil imaginar que o projeto piloto seja interrompido, já que já traz resultados concretos. “O congestionamento custa muito para empresas como a nossa. E nem estou falando só do trânsito – as horas perdidas em engarrafamentos pesam muito na folha de pagamento.”