5 perguntas para Charlie Tyrell, codiretor do documentário “The AI Doc”

Documentário sobre IA expõe incertezas do futuro e provoca debate emocional sobre tecnologia, responsabilidade e o mundo que estamos construindo

Charlie Tyrell
Crédito: Fast Company Brasil

Marty Swant 4 minutos de leitura

Vale a pena ter filhos na era da IA?

Essa é a pergunta no centro de "The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist" (O doc IA: ou como virei um apocaliptotimista, em tradução livre), novo documentário sobre as promessas, os riscos e as incertezas que cercam a inteligência artificial.

Codirigido por Charlie Tyrell e pelo vencedor do Oscar Daniel Roher, o filme acompanha Roher – prestes a se tornar pai – enquanto tenta entender como a IA funciona, quais perigos pode trazer e em que tipo de mundo ele e sua esposa estão prestes a receber o filho.

Ao longo da jornada, ele encontra tanto os críticos mais contundentes da tecnologia quanto seus defensores mais entusiasmados.

O longa reúne dezenas de especialistas, incluindo CEOs como Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, além de pesquisadores preocupados com o futuro e vozes críticas como Tristan Harris, que também participou do documentário "O Dilema das Redes" (de 2020).

Antes da estreia nos cinemas, marcada para 27 de março, o filme foi exibido no SXSW, em Austin, onde a IA tem sido tema constante, entre hype e apreensão.

Por lá, a Fast Company conversou com Tyrell sobre o filme, o processo criativo e por que a obra provoca tanta conexão – a ponto de, após as sessões, desconhecidos começarem a conversar entre si.

Fast Company – Começar pelos realistas de IA e continuar até chegar aos especialistas de startups foi uma estrutura pensada desde o começo?

Charlie Tyrell Quando você está começando a entender [a inteligência artificial] e vai pesquisar, a primeira coisa que encontra são os conteúdos mais apocalípticos. Depois, aparece o contraponto, os "aceleracionistas" e, por fim, uma terceira via: os realistas, que olham para o que está acontecendo agora.

Não importa por onde você comece ou a ordem que siga, você acaba chegando à mesma pergunta: quais são, de fato, as respostas – e qual é o plano?

É por isso que, no filme, vamos até os CEOs, porque são eles que estão construindo tudo isso. Então, teoricamente, deveriam ter um plano, certo? … Deve haver adultos na sala com um plano.

E aí, como o filme mostra, você chega lá e não existe plano. Isso transfere a responsabilidade para os usuários, para quem não é da área de tecnologia, de decidir o que fazer.

Fast Company – Vocês ficaram decepcionados com as respostas que receberam?

Charlie Tyrell Com certeza. Como cineasta, você quer que as pessoas expressem suas emoções de forma mais evidente. É assim que estamos acostumados a assistir filmes, com tudo um pouco mais elevado.

O teatro leva isso ao extremo. O cinema traz para um nível mais moderado, mas, na vida real, quando alguém sofre um acidente de carro ou vê a própria casa pegando fogo, a reação costuma ser bem contida. Essa é a realidade.

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Então o cinema é uma técnica narrativa em que você precisa traduzir isso de forma humana, para que o público entenda o que aquela pessoa está sentindo por dentro.

Isso aparece muito nas reações do Daniel. Dá para ver a frustração dele ao ouvir pessoas com poder sobre o ritmo e a direção da IA avançando a todo vapor, mesmo estando preocupadas.

Fast Company – Essa frustração fica bem evidente na tela, não é?

Charlie Tyrell Todo mundo acredita na própria verdade dentro desse universo. E é muito difícil, quando você transforma algo em fato absoluto na sua cabeça, aceitar que outras verdades possam existir.

É isso que essa tecnologia é: ela vai ser mais de uma coisa ao mesmo tempo… e todo mundo precisa reaprender a lidar com essa ideia.

cena do documentário "The AI Doc"
"The AI Doc" (Crédito: Focus Features)

Hoje, especialmente num mundo tão dividido em polos – bom ou ruim, esquerda ou direita –, estamos condicionados a pensar em termos de certo ou errado.

Mas as pessoas são muito mais complexas do que isso. E os problemas que enfrentamos, assim como as tecnologias que usamos, também são muito mais complexos.

Fast Company – É um filme surpreendentemente emocional para um tema tão denso, não acha?

Charlie Tyrell Muita gente diz que não esperava se emocionar com um filme sobre tecnologia. Mas você precisa se emocionar para encarar essa tecnologia, para entender o que nos diferencia de algo que não é humano, que não é tecnologia, e identificar o que realmente valorizamos. Precisamos decidir o que importa, o que nos define e como vamos construir máquinas a partir disso.

Fast Company – Cinco anos atrás, "O Dilema das Redes" chegou quando parecia tarde demais para mudar alguma coisa. Este filme busca ser mais proativo?

Charlie Tyrell Mesmo com aquela sensação de que já era tarde demais depois de "O Dilema das Redes", a verdade é que as coisas acontecem quando acontecem. E isso significa que não dá para ficar lamentando o atraso quando ainda há trabalho a ser feito, certo?

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"O Dilema das Redes" conseguiu mobilizar muita gente e mudar a forma como muitas pessoas enxergam as redes sociais, inclusive eu. E eu cresci como nativo digital.

O Instagram já foi algo legal. Hoje parece mais um shopping. Não suporto mais. Mas entender o que realmente estava acontecendo ali fez diferença.

Foi tarde demais? Teria sido melhor antes. Mas ainda não é tarde.


SOBRE O AUTOR

Marty Swant é um jornalista freelancer baseado em Nova York, com foco em tecnologia, marketing, mídia e políticas públicas. Ele passou... saiba mais