SXSW 2026: a gente, os agentes e o que vem depois

Avanço dos agentes de IA no SXSW aponta para uma nova fase da internet, com impacto em trabalho, consumo e decisões

SXSW 2026: a gente, os agentes e o que vem depois
paseven, helovi, StudioM1, Tanatpon Chaweewat e MicroStockHub via Getty Images

Carol Sevciuc 8 minutos de leitura

O SXSW celebrou 40 anos em março. De festival de música independente em Austin, no Texas, se transformou em um dos maiores encontros globais de inovação – um prato cheio para mentes curiosas que, como eu, estão sempre em busca de decifrar os movimentos que estão moldando o nosso futuro.

Nesta edição, pela primeira vez, toda a programação – de inovação, Film & TV, música e comédia – aconteceu dentro do mesmo período de sete dias e, como esperado, a IA foi o assunto de destaque. Volto para o Brasil ainda digerindo tudo o que vi e pensando especialmente em alguns dos pontos que, para mim, foram mais disruptivos e que valem a atenção de qualquer pessoa tentando entender para onde estamos indo.

OS AGENTES JÁ CHEGARAM

No final de 2024, quando compartilhei minhas previsões para 2025, afirmei que seria o ano dos agentes de IA. Quem acompanhou o mundo tech no último ano – e quem esteve no SXSW – já não tem dúvidas de que isso se tornou realidade.

O Claude Cowork, da Anthropic, já opera diretamente no desktop do usuário, organizando arquivos, editando documentos e executando fluxos de trabalho de forma autônoma. O OpenClaw, projeto open-source que acumulou mais de 200 mil estrelas no GitHub em poucas semanas, conecta modelos de IA a e-mails, calendários e aplicativos de mensagens, executando tarefas reais enquanto você faz outra coisa. E o GitHub Copilot, que já era referência para desenvolvedores, agora permite delegar tarefas inteiras de código a agentes autônomos que abrem pull requests por conta própria.

A IA deixou de ser uma ferramenta que responde a comandos para se tornar um colega de trabalho que age por conta própria.

A IA deixou de ser uma ferramenta que responde a comandos para se tornar um colega de trabalho que age por conta própria.

Para mim, esse tema foi um dos mais interessantes do SXSW 2026. Um dos nomes que tratou do assunto com mais profundidade foi Matthew Prince, cofundador e CEO da Cloudflare, que conversou com Stephanie Mehta, CEO e Chief Content Officer da Mansueto Ventures, na sessão The Internet After Search. Prince prevê que, até 2027, o tráfego de agentes deve superar o tráfego humano na internet. A mudança será um ponto de inflexão (muito próximo de acontecer): enquanto um humano visita cinco sites para tomar uma decisão de compra, um agente de IA com a mesma tarefa visita cinco mil.

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A implicação para quem trabalha com marcas, varejo e experiência do consumidor é enorme. Hoje, investimos bilhões em experiências digitais pensadas para olhos humanos: vitrines bonitas, navegação intuitiva, storytelling emocional. Quando quem está do outro lado é um agente, que toma decisões por eficiência e dados, como uma marca consegue cultivar lealdade? Para Prince, o caminho é a criação de novos "sinais de qualidade" legíveis por máquinas, como taxas de devolução, velocidade de resposta, rastreabilidade, métricas verificáveis. Se antes a tarefa era convencer, agora será necessário provar.

A IA COMO TELESCÓPIO APONTADO PARA A NATUREZA

Já que estamos falando das discussões mais surpreendentes sobre os impactos da IA, não posso deixar de mencionar a sessão AI for Decoding Animal Communication, de Aza Raskin. Em uma das conversas mais “mind-blowing” desses últimos dias, o cofundador do Earth Species Project apresentou modelos de IA capazes de mapear a "geometria" de qualquer linguagem em um espaço abstrato de representação – uma técnica que surgiu em 2017 para tradução entre idiomas humanos e que agora está sendo estendida para vocalizações animais.

Em termos mais simples, o plano é usar essa tecnologia para decodificar linguagens de outras espécies. Mas o que mais me marcou na fala de Raskin foi uma provocação de outra ordem. Ele relembra que toda a IA que construímos até agora foi treinada com base na inteligência humana – a mesma inteligência que, apesar de todos os seus avanços, não conseguiu resolver o desafio fundamental de viver de forma sustentável em um planeta finito.

A natureza, por outro lado, é o único sistema que conseguiu. Se estamos prestes a criar sistemas cada vez mais autônomos, argumentou Raskin, é essencial que eles aprendam com os acertos da natureza, e não apenas com os erros humanos. A metáfora que ele usou resume bem o espírito da sessão: assim como o telescópio Hubble revelou um universo inteiro onde antes víamos vazio, essas ferramentas de IA são um novo telescópio que, quando apontado para a natureza, revela uma complexidade que mal começamos a compreender e nos lembra de que somos parte de algo muito maior.

NEM TUDO É IA

Se Aza Raskin nos lembrou que a inteligência humana sozinha não deu conta dos desafios mais fundamentais do planeta, algumas das sessões mais marcantes do SXSW 2026 foram justamente aquelas que mostraram o que essa inteligência tem de melhor – sem mencionar IA uma única vez.

José Andrés, chef e fundador da World Central Kitchen, foi homenageado este ano pelo SXSW Hall of Fame, celebrado como um novo tipo de herói: alguém que atua no mundo real, usando a comida como ferramenta de impacto social. Em uma sessão improvável, sobre a intersecção entre arte e comida, Andrés subiu ao palco com Nick Lowe, editor do Homem-Aranha na Marvel Comics, e o roteirista Steve Orlando.

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A parceria do trio, que nasceu em 2013, resultou na graphic novel documental "Feeding Dangerously", que registra anos de atuação humanitária da World Central Kitchen em desastres ao redor do mundo. Agora, com o lançamento de "Spider-Man: Meals to Astonish", Andrés passa a fazer parte oficialmente do universo Marvel, trazendo para a vida real a ideia de que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades", e provando que a humanidade e a empatia também podem ser super-poderes.

José Andrés, chef e fundador da World Central Kitchen
José Andrés, chef e fundador da World Central Kitchen (Reprodução CBS News)

Abordando a inovação por outro ângulo, a sessão Breaking Through Barriers to Innovation: Lessons from Space and Earth reuniu uma dupla admirável: a ex-astronauta Katie Coleman e a professora Dava Newman, engenheira aeroespacial do MIT e ex-número dois da NASA. Em um contexto tão cercado de tecnologia como o trabalho no espaço, Newman foi enfática ao afirmar que, diante de todas as convergências tecnológicas que estão redefinindo o futuro – IA,biotecnologia, quantum, robótica, energia –, os avanços mais importantes não virão de nenhuma delas isoladamente, mas do que acontece quando elas se cruzam.

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O problema, segundo a engenheira aeroespacial, é que a maioria das organizações ainda opera em silos, tratando a inovação como algo isolado, em vez de um objetivo comum de todos os que estão lá. "Encham suas salas de reunião com gente que não foi treinada como vocês", pediu. "Precisamos dos artistas, dos designers… Vocês nos fazem pensar melhor!". Coleman complementou com a perspectiva de quem liderou equipes de cinco pessoas a 400 km da Terra: as missões mais bem-sucedidas não são as que têm os melhores especialistas, mas as que reúnem pessoas dispostas a aprender umas com as outras.

Depois de tantos dias de imersão em sessões que falaram, em sua maioria, sobre IA, é importante ecoar a mensagem de Coleman e Newman: inovar de verdade vai muito além do acesso à tecnologia. Antes de implementar novas soluções, é preciso garantir que elas estão apoiadas nas bases certas: pessoas que entendem o porquê da mudança e a adotam de verdade; processos estruturados que dão consistência à inovação; e dados de qualidade que alimentam as decisões. Sem esses pilares, até a ferramenta mais sofisticada perde força – seja na Terra ou no espaço.

ESTAMOS PRONTOS?

As mudanças que o SXSW colocou no palco já estão acontecendo e irão, cada vez mais, nos tirar da zona de conforto. Quando agentes passam a comprar em nome de consumidores, robôs passam a dividir espaço com pessoas e a IA se mostra capaz de decifrar linguagens que nem sabíamos que existiam, devemos nos adaptar em todas as frentes, e fica difícil não se perguntar que outras tecnologias disruptivas estão a caminho, prestes a transformar setores inteiros de formas que ainda não conseguimos antecipar.

O futuro vai pertencer a quem entender que implementar IA e estar preparado para conviver com ela são duas coisas completamente diferentes.

O futuro vai pertencer a quem entender que implementar IA e estar preparado para conviver com ela são duas coisas completamente diferentes. Quem investir na segunda vai colher muito mais da primeira.

Uma coisa, porém, é certa: poucos lugares no mundo provocam esse tipo de reflexão como o SXSW. Só em uma cidade que tem como slogan “Keep Austin Weird” você consegue transitar entre uma sessão sobre o futuro do e-commerce e outra sobre a comunicação entre animais e sair pensando que, no fundo, ambas estão falando sobre a mesma coisa. É esse contraste entre o esperado e o improvável que faz do SXSW um festival que não se repete em nenhum outro lugar. É por isso que, todos os anos, volto para casa com mais perguntas do que respostas, e com a certeza de que é exatamente assim que deveria ser.


SOBRE A AUTORA

Carol Sevciuc é Digital Transformation & Innovation & Sustainability & Strategy | CTO | CIO da Pepsico. saiba mais