O fado tropical de quem não foi para Austin ouvir o que já sabe
Uma provocação sobre o SXSW e a busca constante por validação externa — enquanto o Brasil já constrói, há décadas, soluções que o mundo começa a descobrir

Hesitei em escrever este texto. Não fui para Austin este ano. De longe, o risco de soar como o crítico chato que dita regra sobre o que não viveu é alto. Mas a música do Chico Buarque não sai da cabeça e ela explica o que vejo no South by Southwest melhor do que qualquer relatório de tendências que recebi nos últimos dias.
Fui ao evento por mais de dez anos. Gosto de Austin. Gosto da energia, da serendipidade e dos encontros no meio da rua. Gosto de sentar no chão para comer um lobster roll ao lado de um CEO e de um estagiário. O SXSW sempre foi isso para mim. Um lugar de trocas reais.
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Só que este ano essa imagem de Austin começou a ser atravessada por uma música que entrou em loop no meu fone. Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra, escrita em 1973 para a peça Calabar.
A música é uma crítica velada à nossa eterna dependência cultural. O SXSW parece ter se tornado o palco principal dessa dependência. Uma peregrinação anual para ouvir em inglês o que já estamos fazendo aqui em português.
O evento virou uma rotina de validação. Uma inércia de buscar lá fora a autorização para o que já é o nosso cotidiano. Sentamos no chão para ouvir o óbvio com sotaque gringo. Receitas prontas de futurismo que ignoram a nossa própria capacidade de resolver problemas complexos com o que temos à mão. A validação e o selo de qualidade precisam vir de fora.
O absurdo é aceito como inovação apenas porque vem com sotaque de fora.
É a síndrome de Amy Webb que em sua última visita ao Brasil sugeriu o plantio de cana de açúcar em cavernas de minas abandonadas. Uma ideia bizarra que soa revolucionária para quem nunca assistiu ao Globo Rural ou ouviu falar da Embrapa, que faz isso de verdade há 50 anos. O absurdo é aceito como inovação apenas porque vem com sotaque de fora.
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Essa busca por validação externa ignora o que formou o meu próprio olhar. Minha escola de tecnologia não foi o Vale do Silício. Foi o domingo de manhã assistindo ao Siga Bem Caminhoneiro no SBT. Para um filho de caminhoneiro, aquilo martelava o valor da indústria e do trabalho real muito antes de qualquer slide de keynote.

Logo depois vinha o Globo Rural, com os pesquisadores da Embrapa explicando genética e biotecnologia de forma simples. Eles já resolviam problemas de escala e produtividade enquanto o mundo ainda engatinhava nesses temas. O Brasil construiu o sistema de pagamentos instantâneos mais avançado do planeta porque precisava resolver um problema real de exclusão. O PIX não é uma promessa de futurista. É uma ferramenta que funciona e que o mundo agora tenta copiar.
Nossa agricultura tropical é ciência aplicada que alimenta o mundo e que nasceu da necessidade de dominar climas difíceis. Nossa cultura do gato e do improviso é uma tecnologia social de resolução de problemas que nenhuma big tech consegue replicar. É a nossa essência imaginativa, a nossa mistura, o que nos torna um dos povos mais criativos do planeta. Temos o repertório. Temos a tecnologia. Falta a coragem de olhar o que já temos em casa antes de comprar a receita pronta lá fora.
É aqui que entra a potência de Calabar. O personagem histórico retratado na peça não é um traidor, mas um pragmático. Diante de dois sistemas de governo, ele escolheu o que lhe parecia mais eficiente para o lugar onde vivia. Calabar fez uma escolha de sobrevivência e de pragmatismo. Uma traição à lealdade cega em favor de um sistema que funcionava melhor.
Hoje nossa lealdade está com o modelo de Austin. Com a narrativa de que a inovação vem de fora embalada em inglês com um crachá pendurado no pescoço. Talvez esteja na hora de um novo elogio da traição. Trair a dependência cultural. Trair a necessidade de validação externa. Trair o lamento pelo que não somos e começar a acelerar o que já somos.
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Existem dois caminhos possíveis. O primeiro é continuar a peregrinação. Ir para Austin, ouvir as mesmas palestras e voltar com a sensação de que estamos alinhados com o futuro. É o caminho seguro que gera posts, fotos e a ilusão de pertencimento. O segundo é mais difícil. É fazer uma auditoria interna do nosso próprio repertório. Mapear nossas competências, nossas tecnologias e nossas soluções. A partir daí definir o que realmente precisamos aprender fora. É o caminho da soberania.
Eu escolho o segundo. O futuro não é um evento no Texas. É uma construção diária. Já passou da hora de pararmos de ouvir receitas prontas e começarmos a exportar as nossas.