SXSW 2026: A superinteligência já existe — e não está na IA
Pesquisadores usam tecnologia para chegar ainda mais perto de entender a real inteligência do planeta: a natureza

Se a superinteligência tivesse um formato, qual seria? Um data center? Um modelo do ChatGPT com bilhões de parâmetros? No South by Southwest (SXSW) as respostas foram outras: baleias, corvos e, até mesmo, a luz do dia.
Em diferentes painéis e entrevistas, pesquisadores apontaram que a próxima fase da evolução da IA vai vir para desvendar uma inteligência ancestral e muito maior do que qualquer computador: a inteligência natural.
Segundo o cofundador do Center for Humane Tech Earth Species Project, Aza Raskin, a inteligência natural mostra que a humanidade está longe de ser o centro do universo. Ou seja, o sistema que tenta apenas emular o humano perde uma rede gigante de inteligências - biológicas, corporais e ecológicas.
“A solução para os problemas do planeta está além da imaginação humana."
Aza Raskin, do Center for Humane Tech Earth Species Project
“A solução para os problemas do planeta está além da imaginação humana. Qual lugar melhor para procurar do que em culturas que têm 34 milhões de anos de existência, 85 vezes mais do que a espécie humana já esteve na Terra?", perguntou Raskin, durante apresentação no SXSW.
Para ele, as novas tecnologias que farão parte do futuro da humanidade já estão vivas, só não foram decodificadas.
FALANDO BALEIÊS
O primeiro espaço de exploração é onde moram os “aliens terrestres”: os oceanos. De acordo com pesquisadores do Senckenberg Ocean Species Alliance (SOSA), 91% das espécies de animais que vivem nas léguas submarinas não foram nem descobertas. As que foram encontradas ainda são um mistério para o mundo humano.
Eis o que David Gruber quer mudar. O líder do Project CETI (Cetacean Translation Initiative) usa inteligência artificial para decifrar a linguagem das baleias. “Estamos procurando superinteligência em computadores quando já temos superinteligência nadando nos oceanos”, disse Gruber.
Cachalotes vivem em sociedades complexas, com múltiplas gerações convivendo ao mesmo tempo. Algumas podem ultrapassar os 200 anos de vida, acumulando conhecimento ao longo de décadas. Essa espécie de baleias não só se comunica por cliques e sinais, como também usa um alfabeto fonético.
Elas vivem em unidades multigeracionais lideradas por fêmeas (bisavós, avós, mães e filhos). Além de terem marcas individuais, parecidas com os nomes. Gruber explica que entender as baleias não é uma questão de linguagem, mas de mudança de foco usando a tecnologia.
“Quero escutá-las mais do que fazer perguntas. Os humanos têm muito a aprender”, diz Gruber. Ele lembra que no oceano há esponjas marinhas que podem viver até 18 mil anos. Organismos sem cérebro, sem sistema nervoso central, mas que persistem, se adaptam e atravessam milênios.
A LINGUAGEM DA VIDA
Esse mesmo raciocínio se estende para a biologia. Para Glen Gowers, PhD em engenharia biológica e CEO da Basecamp Research, o DNA deve ser tratado como um sistema linguístico, ele se replica e contém inteligência. É um código sobre o qual a vida é construída.
“Se realmente entendermos a linguagem do DNA, conseguimos escrever esse código com uma complexidade que hoje não alcançamos."
Glen Gowers, da Basecamp Research
São milhares de anos de evolução biológica em uma série de pequenos mecanismos que se replicam em animais e plantas. Seres vivos que persistem e se adaptam. “Se realmente entendermos a linguagem do DNA, conseguimos escrever esse código com uma complexidade que hoje não alcançamos”, diz Gowers.
A empresa coleta dados genéticos em diferentes ecossistemas, incluindo micro-organismos ainda pouco estudados, para treinar modelos capazes de identificar padrões nesse material biológico. Pode parecer um detalhe, mas são nos menores organismos como bactérias e vírus, que é “Podemos falar com a evolução. Podemos perguntar: como você resolveria essa doença?”
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Essa lógica abre novas possibilidades do desenvolvimento de medicamentos ao desenho de sistemas alimentares mais sustentáveis e materiais inspirados na própria natureza. “É um tipo de superinteligência”.
Na visão de Aza Raskin, usar a IA para compreender a natureza é uma forma de realinhar as percepções humanas. “O mundo está inundado em comunicação, em sinal, em inteligência e significado, e é apenas nossa visão limitada que nos impede de reconhecê-lo", diz.
SIGA A LUZ
Enquanto essas pesquisas avançam, um contraste se impõe. A tecnologia amplia a capacidade de ler sistemas complexos, dos oceanos ao DNA. Mas o humano parece cada vez menos conectado a outro tipo de inteligência: a do próprio corpo.
Para Mark Reynoso, CEO e diretor da Korrus, empresa baseada em Los Angeles especializada em Human Light Interaction (HLI), esse descompasso tem origem histórica.
“Passamos a valorizar a mente como algo separado do corpo e começamos a perder a conexão com outras formas de inteligência que existem em nós, como a nossa intuição e a inteligência corporal”, diz.
Ele explica que quando nos conectamos com a “compleitude” que está dentro das nossas células, compreendemos que há ciclos e fluxos que regem o planeta. Uma inteligência natural e instintiva que equilibra forças.
"Não somos pensadores humanos. Somos seres humanos. Fazemos parte de um todo."
Mark Reynoso, CEO e diretor da Korrus
Reynoso argumenta que, embora a inteligência racional seja uma parte importante do que constitui o ser humano, ela não é fundamentalmente o que nos torna humanos. "Não somos pensadores humanos. Somos seres humanos. Fazemos parte de um todo", diz.
Com o avanço da IA, ele questiona se deixaremos de ser humanos quando a tecnologia nos superar no pensamento, concluindo que a nossa humanidade reside em algo além do intelecto, ela está em tudo aquilo que “sentimos” sem a traduzir da lógica racional.
Segundo ele, a inteligência do corpo existe há milênios, é o “frio na barriga”, o “nó do estômago”, aqueles avisos que o corpo tem uma forma própria de avisar à mente o que está acontecendo. Uma percepção que, muitas vezes, o pensamento racional ignora.
Nós somos seres biológicos que evoluíram por centenas de milhares de anos em sintonia com a luz do sol e as estações, mas estamos tentando viver em um "experimento de modernidade" de apenas 200 anos que ignora esses ritmos. Para voltar ao equilíbrio, precisamos de uma "escuta silenciosa" do próprio corpo e um retorno à integridade dos elementos naturais (comida real, luz real, conexões reais).
Talvez a tecnologia não esteja inaugurando uma nova forma de inteligência. Mas oferecendo um caminho de volta para algo que sempre esteve aqui.