Justiça dos EUA responsabiliza Google e Meta por vício em redes
O veredicto foi anunciado após semanas de julgamento e responsabiliza a Meta e o YouTube por mecanismos viciantes

*Atualizada em 25/03/2026, 18h57
Um júri de Los Angeles, nos Estados Unidos, responsabilizou Meta e Google (da Alphabet) por danos associados ao vício em redes sociais, em uma decisão que desloca o debate do conteúdo para o design das plataformas. O veredicto foi divulgado nesta quarta-feira (25).
De acordo como a AP News, o caso é considerado um marco porque discute o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes.
Os jurados concluíram que as duas empresas tiveram papel relevante nos prejuízos relatados pela autora da ação, hoje com 20 anos. Ela afirmou que o uso intenso das plataformas durante a infância levou a um quadro de dependência tecnológica e agravou seus quadro de saúde mental, contribuindo para a depressão e pensamentos suicidas.
O júri fixou inicialmente uma indenização de US$ 3 milhões, cerca de R$ 15,7 milhões na cotação de hoje (conversor de moedas do Banco Central). O valor ainda pode crescer, já que os jurados entenderam que houve conduta grave por parte das empresas. Uma nova etapa do julgamento vai definir possíveis danos punitivos, o que pode elevar significativamente a quantia.
COMO O CASO FOI CONSTRUÍDO
A autora relatou que começou a usar o YouTube aos 6 anos e o Instagram aos 9, segundo seu depoimento, o uso se tornou constante ainda na infância, ocupando grande parte do dia. Os jurados consideraram a Meta 70% responsável pelos problemas sofridos pela autora da ação, e o YouTube, responsável pelos 30% restantes.
Snapchat e TikTok também eram rés no processo, mas firmaram acordo com a autora antes do julgamento. Os termos não foram divulgados.
Os advogados apontaram que elementos de design das plataformas favorecem o uso prolongado. Entre os recursos citados estão a rolagem infinita, reprodução automática de vídeos e notificações frequentes. Para a acusação, essas ferramentas estimulam comportamento compulsivo, especialmente em usuários mais jovens.
No Brasil, o feed infinito e o autoplay foram proibidos de serem exibidos para usuários menores de idade pelo recém aprovado ECA Digital.
Durante o julgamento, os jurados foram orientados a não considerar o conteúdo consumido pela jovem. A análise ficou restrita ao design das plataformas, já que a legislação americana limita a responsabilização das empresas pelo que é publicado por terceiros.
Embora a decisão possa ser contestada, segundo especialistas escutados pela Fast Company, ela pode abrir uma série de novas ações. Aumenta a probabilidade de novos processos. E mostra que a justiça acredita que há elementos para responsabilizar as grandes empresas de tecnologia pela dependência.
DEFESA DAS EMPRESAS
A Meta sustentou que os problemas de saúde mental da autora não tinham relação direta com o uso das redes sociais. A empresa destacou fatores pessoais e familiares e afirmou que profissionais de saúde não atribuíram a causa dos transtornos às plataformas.
O YouTube adotou uma linha diferente, a empresa argumentou que seu serviço funciona mais como uma plataforma de vídeo do que como rede social. Também destacou que o uso da plataforma pela autora diminuiu ao longo do tempo.
Ambas as empresas ressaltaram que oferecem ferramentas de controle e segurança para usuários e famílias, incluindo opções de monitoramento e limitação de uso.
ACORDOS E OUTROS ENVOLVIDOS
O processo começou com mais empresas no polo passivo, o TikTok e Snap firmaram acordos antes do início do julgamento, o que deixou apenas Meta e YouTube como rés na fase final.
Executivos das empresas foram citados durante o caso, incluindo Mark Zuckerberg e Adam Mosseri, que tiveram seus depoimentos apresentados ao júri.
Snapchat e TikTok também eram rés no processo, mas firmaram acordo com a autora antes do julgamento. Os termos não foram divulgados.
O julgamento da Meta ocorre em meio a uma pressão crescente sobre empresas de tecnologia. O caso deve continuar nos tribunais e pode redefinir limites para o setor nos próximos anos.
Com Camila de Lira, da Fast Company Brasil