Artista com obras no MoMA decide treinar inteligência artificial

Michael Hafftka aposta na IA e transforma sua obra em dataset para treinar modelos, desafiando o medo de artistas diante da tecnologia

treinamento de IA com obras de arte
Créditos: kemalbas/ Getty Images/ logan-voss/ Unsplash

Chris Stokel-Walker 3 minutos de leitura

Ao longo de seus 50 anos no mundo da arte, o trabalho figurativo expressionista de Michael Hafftka foi exibido em algumas das galerias mais importantes do planeta. Suas pinturas já estiveram no Museu de Arte Moderna, no Museu Metropolitano de Arte (ambos em Nova York) e na Galeria Sauf, em Paris.

Agora, seu trabalho ganha um palco inusitado: o Hugging Face, site dedicado à inteligência artificial.

Nascido em Nova York e hoje com 72 anos, o artista carregou cerca de metade de sua obra para a plataforma. A iniciativa partiu dele mesmo, após pesquisar o Hugging Face e reconhecê-lo como um ponto de encontro da produção em IA. O movimento funciona ao mesmo tempo como gesto artístico e como esforço de preservação.

Michael Hafftka com sua obra "Memory", de 2016
Michael Hafftka com sua obra "Memory" (Memória), de 2016 (Crédito: Reprodução/ LinkedIn)

Seu caminho até a IA é menos surpreendente do que parece. Hafftka sempre se interessou por ferramentas emergentes, desde experimentos iniciais com arte computacional até incursões mais recentes no universo da Web3. Ele já acompanhava de perto as comunidades que monitoravam o avanço da IA generativa e apenas seguiu o fluxo.

O artista descreve o projeto como “um novo tipo de catalogue raisonné”: um registro vivo de sua obra e uma forma de torná-la disponível para experimentações não comerciais com inteligência artificial.

“Decidi que poderia usar melhor meu trabalho como um grande dataset, porque muitos artistas relutam em colaborar com a IA, e eu gosto dessa ideia”, diz Hafftka. “Assim, posso acabar contribuindo para um modelo muito melhor treinado.”

Nesse cenário, ele é uma exceção ao abraçar a tecnologia e, em especial, a IA. A maioria dos artistas vê a ascensão dessas ferramentas com desconfiança: cerca de 61% acreditam que a IA representa uma ameaça aos seus meios de subsistência.

Ainda assim, graças à facilidade de gerar imagens com prompts simples em ferramentas como Midjourney, DALL-E e Nano Banana, a internet já está inundada por arte criada por IA.

Embora seja um entusiasta da tecnologia, Hafftka também é pragmático. “É inevitável”, diz ele. Em outras palavras: se não dá para vencer, melhor se juntar.

quadro Leap of Faith (Salto de Fé), de Michael Hafftka
"Leap of Faith” (Salto de Fé), 1998 (Crédito: Wikimedia Commons)

Ainda assim, ele não vê isso como uma rendição ao futuro dominado pela IA. Para o artista, muitos colegas exageram nos temores em relação à tecnologia. “Todo esse medo sobre direitos autorais e uso de obras físicas me parece ingênuo”, afirma. “Nós, seres humanos, criamos algo diferente de uma máquina e não tenho receio de ser superado por elas.”

Até agora, o dataset (com cerca de 40,4 GB) foi acessado aproximadamente 5,5 mil vezes, embora Hafftka ainda não tenha visto aplicações concretas a partir desse material.

Enquanto outros artistas se preocupam com a "raspagem" de suas obras, ele está mais atento à forma como elas são usadas. Versões em baixa resolução de suas pinturas já circulam em acervos online de museus, e Hafftka presume que estejam sendo incorporadas a bases de treinamento.

“Essas reproduções representam apenas uma pequena parte do meu trabalho”, diz, acrescentando que pretende subir o restante nos próximos meses. “Quando esse material é capturado da internet e incluído em datasets, sinto que isso me prejudica. Prefiro que modelos treinados com minha obra tenham uma visão completa dela.”

quadro "There Is No Magic In Death" (Não há magia na morte), de Michael Hafftka
"There Is No Magic In Death" (Não há magia na morte), de 2020 (Crédito: Galeria Michael Hafftka)

Essa posição contrasta fortemente com a de artistas que processam ou protestam contra empresas de IA. A preocupação de Hafftka não é que máquinas aprendam com seu trabalho, mas que aprendam mal.

Ele também insere a IA em um arco mais amplo de transformação artística. “Não dá para parar a tecnologia”, diz. “A arte é, na verdade, sobre experimentar para criar uma visão única e diferente.”

Parte dessa confiança vem do valor contínuo das obras originais, que, no caso dele, podem alcançar dezenas de milhares de dólares. “Você faz arte para o mundo. Eu vendo o original, e o original não pode ser duplicado pela tecnologia de impressão com IA como ela existe hoje.”

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Citando o pintor Jean-Michel Basquiat, com quem conviveu, ele lembra que a imitação sempre cercou grandes artistas sem diminuir sua relevância. “É assim que a arte evolui. Artistas influenciam uns aos outros.” E completa: “A ideia de trancar tudo e temer tecnologias futuras é, em certo sentido, paranoica.”


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais