Profissões de cuidado enfrentam escassez de homens e falta de prestígio

A ausência de homens nas profissões de cuidado é, antes de tudo, uma questão cultural; modelos positivos de masculinidade enraizados na responsabilidade, na empatia e no serviço são essenciais

mãos negras seguram medidor de pressão em um paciente branco e luvas azuis estampam o fundo rosado
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Laëtitia Vitaud 7 minutos de leitura

Durante décadas, em nome da igualdade no mercado de trabalho, incentivamos as mulheres a ingressarem em profissões dominadas por homens porque esses empregos são mais bem remunerados, mais prestigiosos e conferem mais poder.

Mulheres engenheiras. Mulheres na área de tecnologia. Mulheres em cargos de liderança. Essa agenda ainda importa, mas não é suficiente.

Um dos grandes pontos cegos da nossa época é que raramente fazemos a pergunta oposta com a mesma seriedade: por que fazemos tão pouco para inserir homens em profissões dominadas por mulheres? Precisamos, sim, de muito mais homens em profissões de cuidado — enfermagem, magistério, serviço social, cuidados infantis, cuidados com idosos e serviços de apoio.

A desigualdade de gênero da qual devemos falar não se resume apenas à ausência de mulheres em empregos na área de IA. Também se refere à ausência de homens em funções de cuidado.

OS EMPREGOS DO FUTURO JÁ ESTÃO AQUI

Nas economias avançadas, as ocupações que enfrentam a maior escassez de mão de obra são frequentemente aquelas dominadas por mulheres. Enfermagem, cuidados domiciliares, cuidados infantis, ensino, cuidados com idosos, apoio a pessoas com deficiência e serviço social estão sob pressão na maioria dos países.

O envelhecimento da população intensificará essa situação drasticamente. À medida que as sociedades envelhecem, a demanda por cuidados aumenta estruturalmente.

No entanto, quando se fala em "empregos do futuro", a imaginação ainda se volta para a tecnologia, mesmo com um crescente ceticismo neoludita questionando se o setor tecnológico ainda será capaz de gerar empregos.

Na realidade, as maiores necessidades de recrutamento são bem menos futuristas. São profissões que já conhecemos bem: enfermeiros, professores, cuidadores, terapeutas, auxiliares de enfermagem domiciliar.

A tecnologia pode auxiliá-los, mas não substituirá a atenção humana, a empatia, o discernimento e a segurança que essas profissões exigem.

Em outras palavras, muitos dos empregos mais importantes do futuro são aqueles que há muito tempo são tratados como secundários. E, por acaso, são ocupados predominantemente por mulheres.

A GRANDE ASSIMETRIA 

Durante décadas, as mulheres foram incentivadas a ingressar em áreas dominadas por homens. Governos, empresas e universidades promoveram a presença feminina em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), em cargos de liderança e na política.

Mas o movimento inverso praticamente não ocorreu (ou nunca ocorreu). Os homens fizeram pouquíssimas incursões no que o acadêmico Richard Reeves chama de profissões HEAL — saúde, educação, administração e alfabetização. Enquanto as mulheres têm ingressado cada vez mais nas áreas de STEM, os homens não migraram para as profissões HEAL.

O resultado é uma assimetria gritante. A igualdade de gênero significou, em grande parte, convidar mulheres a ingressar em profissões tradicionalmente masculinas e a adotar comportamentos considerados masculinos — assertividade, competitividade, autoridade.

O movimento inverso — encorajar os homens a ingressar em profissões dominadas por mulheres ou a abraçar habilidades tradicionalmente “femininas”, como cuidado e atenção relacional — simplesmente nunca aconteceu. Isso reforça uma hierarquia antiga: a de que o trabalho “ produtivo ” — historicamente masculino e industrial — é mais valioso do que o trabalho “reprodutivo”, ou seja, cuidado, educação e apoio social.

No entanto, essa hierarquia faz pouco sentido. Sem cuidados, nenhuma sociedade pode funcionar. Sem professores, enfermeiros e cuidadores, nenhuma economia pode se sustentar. Essas profissões não são periféricas à prosperidade. Elas são o seu próprio alicerce.

POR QUE O TRABALHO DE CUIDADO CONTINUA SENDO DESVALORIZADO

As profissões de cuidado continuam mal remuneradas, com falta de pessoal e simbolicamente desvalorizadas. Parte da razão é histórica. Atividades associadas ao cuidado, à educação, à manutenção de lares e ao cuidado de pessoas vulneráveis ​​foram tradicionalmente codificadas como femininas — e, portanto, dadas como certas.

Mas também existe uma dinâmica do mercado de trabalho em jogo. Sociólogos observaram que, quando uma profissão se feminiza, seu prestígio relativo e seus salários frequentemente diminuem. O ensino e o trabalho administrativo são exemplos de ocupações que perderam status à medida que as mulheres se tornaram maioria.

O oposto também acontece às vezes: quando os homens ingressam em uma profissão em maior número, seu status pode aumentar. Homens que trabalham em profissões predominantemente femininas muitas vezes se beneficiam de uma espécie de " escada de vidro" : podem ser promovidos mais rapidamente, percebidos como muito competentes ou direcionados a cargos de liderança.

Embora essa dinâmica seja injusta, ela também revela algo importante: a presença masculina pode mudar a forma como uma profissão é percebida. Se mais homens ingressassem em profissões da área da saúde, esses empregos poderiam ganhar poder de negociação, prestígio e melhor remuneração.

O CUSTO CULTURAL DA AUSÊNCIA MASCULINA DOS CUIDADOS

A ausência de homens nas profissões de cuidado é, antes de tudo, uma questão cultural. Os meninos crescem com pouquíssimos modelos masculinos visíveis na área da saúde e assistência social.

Em creches, escolas primárias, hospitais, lares de idosos e serviços sociais, eles veem mulheres quase que exclusivamente. A mensagem, portanto, é absorvida desde cedo: profissões de cuidado não são para você, rapaz.

Isso é importante não apenas para o trabalho de cuidado em si, mas também porque esse trabalho promove habilidades que as sociedades modernas precisam desesperadamente: empatia, comunicação, paciência, inteligência emocional e cooperação. A ausência dessas habilidades na socialização masculina tem consequências letais.

Discussões sobre uma “crise da masculinidade” frequentemente se concentram na solidão masculina, no declínio educacional, na radicalização online ou na fascinação por homens fortes.

Mas se presta muito menos atenção ao distanciamento estrutural que muitos homens têm do trabalho relacional — os tipos de interações diárias que cultivam a inteligência emocional e a conexão social. Eles anseiam por intimidade, mas não têm a linguagem para expressá-la. A expressão emocional foi reprimida neles.

O CUIDADO COMO ANTÍDOTO PARA A CRISE DA MASCULINIDADE

Em todo o mundo ocidental, o discurso público tornou-se cada vez mais brutal. A celebração da dominação, o desprezo pela vulnerabilidade e a glorificação da força tornaram-se características visíveis da política contemporânea — particularmente em movimentos que definem a masculinidade em termos de agressão e ressentimento.

Mas não basta criticar a masculinidade tóxica. Precisamos também de modelos positivos de masculinidade enraizados na responsabilidade, na empatia e no serviço.

As profissões de cuidado oferecem exatamente isso. Enfermeiros, professores, cuidadores e assistentes sociais do sexo masculino personificam uma forma diferente de autoridade masculina — uma autoridade baseada na competência, paciência e proteção. Eles proporcionam aos meninos exemplos visíveis de homens que ouvem, apoiam e acompanham os outros. E nos lembram que a masculinidade inclui o cuidado.

Como atrair mais homens para as profissões de cuidado?
Se a ausência de homens nos cuidados é um problema estrutural, então requer soluções estruturais.

1. Criar modelos masculinos visíveis:

Os meninos raramente veem homens trabalhando na educação infantil, enfermagem ou serviços sociais. Campanhas de recrutamento e narrativas públicas devem destacar cuidadores, professores e enfermeiros do sexo masculino como profissionais respeitados.

2. Desafiar estereótipos desde cedo:

A orientação profissional nas escolas ainda reflete normas de gênero tradicionais. Incentivar os meninos a considerarem profissões que promovam a saúde, a alfabetização e o bem-estar deve começar cedo, antes que as escolhas profissionais se consolidem.

3. Melhorar a remuneração e as condições de trabalho:

Salários baixos e condições de trabalho difíceis desestimulam trabalhadores de todos os gêneros. Revalorizar economicamente o cuidado é essencial para atrair tanto homens quanto mulheres.

4. Utilize campanhas de recrutamento direcionadas

Governos e instituições de ensino recrutam ativamente mulheres para as áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Iniciativas semelhantes poderiam incentivar os homens a ingressarem em enfermagem, magistério e trabalhos de cuidado.

5. Normalizar masculinidades cuidadoras:

A mídia e as narrativas culturais importam. Representações de homens como cuidadores — pais, professores, enfermeiros, mentores — ajudam a redefinir o que a masculinidade pode significar.

A igualdade de gênero não deve significar convidar as mulheres a abandonar o cuidado em busca de prestígio. Deve significar reconhecer o cuidado como algo central para a sociedade — e garantir que tanto mulheres quanto homens participem dele.

Esses trabalhos são essenciais. Se o futuro do trabalho estiver cada vez mais ligado à manutenção da vida humana — educando crianças, apoiando os vulneráveis, cuidando dos idosos — então a ausência de homens nessas funções é um problema.


SOBRE A AUTORA

Laëtitia Vitaud é escritora, palestrante e especialista no futuro do trabalho, com uma perspectiva distintamente feminista e europeia.... saiba mais