5 perguntas para Hanneke Faber, CEO da Logitech

Executiva explica como está conduzindo a marca de hardware em meio à virada da IA e por que isso é um desafio de liderança, não apenas de tecnologia

Hanneke Faber, CEO da Logitech
Crédito: Divulgação

Robert Safian 4 minutos de leitura

A Logitech pode ser conhecida por teclados, webcams e equipamentos para games, mas a CEO Hanneke Faber está indo além do conceito de “AI-first”.

Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), ela explica como está conduzindo a marca de hardware em meio à virada da IA, tratando o tema como um desafio de liderança, e não apenas de tecnologia.

Fast Company – A empresa é conhecida por muita gente por causa do mouse de computador. Mas, nos últimos meses, a conversa sobre a Logitech tem girado em torno de IA, a fronteira mais avançada da tecnologia. Como é seguir esse caminho para uma empresa com fama de produzir um hardware pouco “sexy”?

Hanneke Faber – Bem, claro que nós achamos que mouses são muito “sexy”. Mas, deixando isso de lado, não somos apenas uma empresa que fabrica mouses. Na era da IA, o hardware voltou, definitivamente, a ser relevante e até atraente.

A IA precisa de mãos, precisa de olhos, precisa de ouvidos. É aí que entramos. Estamos desenvolvendo produtos habilitados por IA em escala, e isso é empolgante.

Fast Company – Quando você assumiu o cargo, estava claro que a Logitech precisava de uma virada. Isso foi algo que te atraiu?

Hanneke Faber – Sim. E eu diria que as águas estavam turbulentas, mas não tão problemáticas. O que aconteceu foi que saímos daquele ponto fora da curva da Covid-19. Como resultado, tivemos oito trimestres consecutivos de queda no negócio.

Então, quando cheguei, a confiança estava em baixa e o cenário era difícil. Mas ficou claro para mim, desde o início, que não era um problema estrutural. Os fundamentos eram bons.

O que faltava era uma atualização, uma injeção de energia e estratégia, para ser bem direta. E foi isso que fizemos. Agora, estamos no oitavo trimestre consecutivo de crescimento tanto em receita quanto em lucro.

Fast Company – E você simplesmente mergulhou de cabeça? Pergunto porque você foi uma atleta de alto nível na juventude, sete vezes campeã nacional da Holanda. Liderar um novo negócio, em um novo setor, é como tentar um novo salto?

Hanneke Faber – Quando me perguntam o que aprendi no esporte, costumo dizer que o salto do trampolim é, acima de tudo, uma prática que exige assumir riscos. Você está numa plataforma a mais de 10 metros de altura e precisa executar giros e rotações. É realmente assustador. E continua sendo assustador. Não é só na primeira vez; toda vez dá medo.

"Na era da IA, o hardware voltou, definitivamente, a ser relevante e até atraente."

Então, quando alguém me pergunta: "foi uma decisão assustadora? Você tem medo de fazer apresentações? De gravar um podcast? De mudar de setor?”, eu respondo: “olha, fazer um mortal duplo e meio de costas saltando de 10 metros de altura – isso dá medo.” Comparado a isso, poucas coisas são realmente assustadoras.

Fast Company – Assim que você começou a implementar seus planos na Logitech, surgiu um novo desafio: as tarifas impostas por Donald Trump. Cerca de 40% dos seus produtos para o mercado norte-americano eram fabricados na China. Houve um momento em que você pensou “e agora”?

Hanneke Faber – Foi, sem dúvida, um dia difícil – o “Dia da Libertação”, em 1º de abril de 2025. Para quase todo mundo do nosso setor, os produtos são fabricados em várias partes do mundo, mas não necessariamente nos Estados Unidos – e os EUA são um mercado importante para nós.

Mas rapidamente percebemos que estávamos, na verdade, em uma posição de força competitiva. Apenas 30% do nosso negócio está nos Estados Unidos. Os outros 70% não estão, então não foram impactados pelas tarifas.

Temos uma base de produção muito diversificada – mérito total do meu antecessor, não levo crédito por isso.

Sim, 40% dos produtos vinham da China, mas também produzimos em outros cinco países. Conseguimos redistribuir a produção e, até o fim do ano, apenas 10% dos produtos destinados aos EUA vinham da China.

Temos uma marca forte, que gera lealdade e também poder de precificação. Isso foi essencial.

Fast Company – No Fórum Econômico Mundial, em fevereiro, o presidente Trump disse que o ex-presidente da Suíça (onde a Logitech está registrada) o desagradou ao explicar as tarifas aplicadas aos EUA. O quanto você se preocupa com novas disrupções relacionadas a Trump?

Hanneke Faber – Isso não tira meu sono. O mundo é extremamente dinâmico. Costumo dizer ao meu time: “hoje é o dia mais lento do resto da sua vida.”

Muita coisa está acontecendo, não apenas nos Estados Unidos e com a administração local, mas no mundo todo. Então seguimos em frente, nos adaptando.

Claro que fazemos avaliações de risco e pensamos no que pode acontecer e como mitigar esses impactos. A diversificação da produção é uma parte crítica disso. Ela nos torna mais resilientes, já que não dependemos de um único lugar para produzir.

Observamos constantemente o que pode acontecer no mundo e como nos preparar, mas não podemos perder o sono com isso todos os dias. Caso contrário, não estaríamos fazendo nosso trabalho.


SOBRE O AUTOR

Robert Safian é diretor e editor do The Flux Group. De 2007 a 2017, dirigiu as operações da Fast Company em mídia impressa, digital e ... saiba mais