A moda dos colégios bilíngues
Alta na procura por escolas bilíngues reflete o projeto de internacionalização de famílias ricas, enquanto o inglês se consolida menos como idioma e mais como ativo de distinção social

O avanço das escolas bilíngues no Brasil deixou de ser tendência e virou estratégia explícita de posicionamento social. O país possui hoje mais de 1.200 escolas bilíngues, cerca de 3% do total das instituições privadas. Esse número representa crescimento de aproximadamente 10% nos últimos seis anos. Entre 2019 e 2023, a procura por escolas bilíngues aumentou 64%, segundo dados do Ministério da Educação.
O movimento não é isolado. Ele acompanha uma decisão maior das famílias de alta renda: preparar os filhos para ir para fora. Em 2023, o número de brasileiros matriculados em instituições de ensino dos Estados Unidos atingiu um recorde histórico de 41.704 estudantes, crescimento de 10% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Viva América. O Brasil passou a ocupar a quinta posição entre os países que mais enviam alunos para universidades norte-americanas.
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E o investimento não para na escola. Na Universidade da Pensilvânia, o custo anual estimado ultrapassa US$ 92 mil, somando mensalidade, taxas e moradia.Cornell supera esse valor. Dartmouth e Brown também ficam acima de US$ 91 mil por ano. Em valores atuais, isso equivale a mais de R$ 550 mil anuais. São cifras muito acima da renda familiar média nos próprios Estados Unidos, o que deixa claro que estamos falando de uma parcela muito específica da sociedade brasileira.
Em algumas escolas particulares de São Paulo, o índice de alunos aprovados em universidades no exterior chegou a 40% em 2024. Nessas instituições, o planejamento para estudar fora começa cedo. Pais e estudantes são orientados desde o ensino fundamental sobre caminhos para universidades norte-americanas ou europeias. O bilinguismo é estruturado como parte desse projeto.
A narrativa costuma enquadrar esse movimento como preparação para um mundo globalizado. Mas a questão central é outra: networking.
A narrativa costuma enquadrar esse movimento como preparação para um mundo globalizado. Mas a questão central é outra: networking.
Universidades de elite não oferecem apenas formação acadêmica. Funcionam como plataformas de networking internacional. O acesso a fundos de investimento, grandes empresas, escritórios globais, centros de pesquisa e governos ocorre muito menos pelo currículo formal e muito mais pelas conexões construídas ao longo do percurso. O inglês, nesse cenário, não é apenas idioma. É o código de entrada.
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E aqui está a imensa contradição que estamos vendo: vivemos a era da tradução ubíqua. Ferramentas como Google Translate evoluíram para tradução instantânea por voz e imagem. Reuniões no Zoom e no Microsoft Teams já contam com legendas e tradução simultânea automática. Smartphones da Samsung traduzem conversas por telefone em tempo real, enquanto seus fones com inteligência artificial fazem interpretação simultânea em uma conversa ao vivo e modelos generativos produzem textos sofisticados em múltiplas línguas em segundos.
Estudar fora vira não só uma estratégia profissional, mas um símbolo de ascensão social, uma tentativa de validação externa.
Acontece que no Brasil, essa corrida pelo inglês carrega um traço histórico conhecido: a síndrome de vira-lata. A ideia persistente de que o “melhor” está sempre fora. Estudar fora vira não só uma estratégia profissional, mas um símbolo de ascensão social, uma tentativa de validação externa. Falar inglês deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade.
O problema é que esse movimento tem efeitos colaterais claros, especialmente na educação básica.
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Na ânsia de se tornarem bilíngues, muitas escolas brasileiras passaram a trocar profundidade por verniz. Cresce a contratação de professores que falam inglês, mas não necessariamente dominam pedagogia, didática ou o conteúdo da disciplina que ensinam. O resultado são aulas em inglês com menos rigor conceitual, menos pensamento crítico e mais superficialidade.
Ensina-se matemática em inglês, mas pior matemática. Ensina-se ciências em inglês, mas com menos ciência. O idioma vira um fim em si mesmo, não um meio e o discurso de “preparação global” acaba mascarando uma queda silenciosa na qualidade do ensino.
Enquanto o mercado de escolas bilíngues cresce e a procura dispara, a proficiência média do país cai.
Há um dado que expõe outra camada dessa tensão. De 2023 para 2024, o Brasil caiu da 70ª para a 81ª posição no ranking mundial de proficiência em inglês da EF, entre 116 países. O país obteve 466 pontos, desempenho classificado como baixo pela metodologia do estudo. Ou seja, enquanto o mercado de escolas bilíngues cresce e a procura dispara, a proficiência média do país cai.
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O verniz se expande mas a substância encolhe e, assim, o inglês vira embalagem de valor, não de conhecimento consolidando uma nova camada de desigualdade. Uma elite conectada internacionalmente e uma maioria que depende de traduções.
E afinal, se oportunidades circulam em inglês e o país não fala inglês, quem realmente participa do futuro que estamos desenhando?