Doutor GPT: pesquisa revela que cada vez mais brasileiros se consultam com IA

A insatisfação com explicações médicas, demora nas consultas e sensação de estar sendo maltratado empurram pacientes para ferramentas de IA

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Com o avanço da IA, debates sobre a melhora da saúde brasileira em diferentes frentes precisam continuar acontecendo/ Crédito: Pixabay

Larissa Crippa 5 minutos de leitura

No Brasil, passar por atendimento médico, seja pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou pelo convênio, costuma demorar horas. Mesmo pacientes que pagaram por consultas particulares enfrentam longas filas de espera em clínicas e hospitais.

É neste cenário que se consultar por plataformas de Inteligência Artificial (IA), como o Chat GPT, parece a opção mais rápida e eficiente, o que está longe de ser verdade.

PESQUISA MOSTRA QUE SE CONSULTAR POR IA É COMUM NO BRASIL

Um estudo recente realizado pelo Olá Doutor, plataforma de consultas online via chat, revelou que 7 em cada 10 brasileiros utilizaram a IA no último ano para tirar dúvidas sobre sintomas ou possíveis doenças. 

Foram entrevistados 500 adultos (maiores de 18 anos) residentes em todas as regiões e conectados à internet. O índice de confiabilidade foi de 95%, e a margem de erro foi de 3,3 pontos percentuais.

As ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT e Gemini, transformaram-se em uma espécie de "primeiro ponto de contato" para questões de saúde.

A pesquisa revela dados alarmantes sobre o auto diagnóstico digital. Quase metade dos entrevistados (49%) relatou pesquisar sobre medicamentos e 41,6% usam a tecnologia para tentar compreender diagnósticos médicos já recebidos.

No entanto, o uso dessas plataformas como substituto da avaliação profissional traz riscos severos e imediatos: 30,4% dos participantes afirmaram já ter interpretado sintomas como mais graves do que realmente eram, gerando ansiedade desnecessária, enquanto 22,4% minimizaram sinais que, posteriormente, mostraram-se sérios, retardando tratamentos cruciais.

IA É PROGRAMADA PARA AGRADAR USUÁRIOS, NÃO PARA CURAR PROBLEMAS SÉRIOS

Confiar sua saúde a um Grande Modelo de Linguagem (LLM), a tecnologia por trás do IAs, é um erro perigoso.

Diferente de um médico, cuja formação é pautada na verdade clínica, na evidência científica e, muitas vezes, em diagnósticos difíceis e "duros" de ouvir, a IA generativa é projetada para o processamento de linguagem natural com o objetivo principal de fornecer uma resposta que satisfaça o usuário (LLM)

Em termos simples: o ChatGPT é programado para ser prestativo, fluente e agradável. Ele é um modelo estatístico que prevê a próxima palavra mais provável em uma frase, buscando a validação do usuário.

Se você induz a IA a confirmar uma suspeita de doença grave, ou se busca conforto para negligenciar um sintoma, a ferramenta tende a moldar a resposta para "te fazer feliz" e validar sua linha de pensamento, em vez de confrontá-lo com a imparcial realidade médica.

A IA não possui julgamento clínico ou capacidade de realizar um exame físico. Ela opera com base em padrões de texto, não em conhecimento médico aplicado a um caso individual e complexo. Onde o médico busca a verdade para salvar vidas (mesmo que essa verdade seja desconfortável), a IA busca a melhor resposta textual para encerrar a interação com a satisfação do interlocutor.

QUEM SÃO ESSES PACIENTES DO “DOUTOR GPT”?

Os dados do Olá Doutor traçam o perfil de quem mais se arrisca com o Dr. ChatGPT. A prática de recorrer à IA é ainda mais comum entre pessoas com doenças crônicas (81,4%), que convivem diariamente com dúvidas sobre sua condição.

O estudo também aponta diferenças demográficas:

  • Mulheres: Utilizam mais a IA para questões médicas (74,5%) do que os homens (66,2%).
  • Jovens: O hábito é mais frequente entre estudantes e pessoas de até 30 anos.

Os temas mais buscados lideram o ranking da atenção primária: sintomas gerais como febre e dores (59,6%), seguidos por nutrição e alimentação (54%) e questões de saúde mental, como ansiedade e depressão (46,8%).

TECNOLOGIA NÃO É APENAS MALÉFICA

Apesar dos riscos de diagnóstico, o estudo identificou que a IA pode ter um papel positivo na educação em saúde e na mudança de hábitos, quando não substitui o médico.

  • 58,8% passaram a prestar mais atenção aos sinais do próprio corpo.
  • 52,4% informam-se mais sobre prevenção.
  • 45,4% adotaram mudanças de hábitos, como melhorias na alimentação e exercícios.

O problema reside no limiar entre usar a ferramenta para ler sobre "estilos de vida saudáveis" e usá-la para "interpretar exames ou laudos" (prática admitida por 35,4% dos entrevistados).

IA DEVE SER COMPLEMENTO, NÃO SUBSTITUTO

Anderson Zilli, CEO do Olá Doutor, reforça que o cenário atual exige discernimento. A tecnologia deve ser vista como um complemento, e jamais como substituta da avaliação médica.

“Ferramentas podem, sim, ampliar o acesso à informação, mas não substituem a análise clínica feita por um profissional de saúde”, explica Zilli. 

Ele destaca que, com o avanço da telemedicina, o acesso à orientação profissional tornou-se rápido e acessível. “Hoje, consultas online permitem que pacientes tenham acesso à orientação profissional em poucos cliques, reduzindo o risco de decisões baseadas apenas em informações encontradas na internet".

O FUTURO DA IA NA SAÚDE

Os brasileiros parecem conscientes de que a IA ainda precisa evoluir. Segundo o Olá Doutor, mais da metade (52,8%) dos entrevistados manifestou algum grau de desconfiança quanto ao armazenamento de seus dados pessoais de saúde nessas plataformas.

Olhando para o futuro, a maioria acredita no avanço da tecnologia, mas com limitações claras:

  • 29,8% veem a IA impulsionando inovações, desde que devidamente regulamentada.
  • 26,8% acreditam que seu uso será restrito, funcionando apenas como uma ferramenta de apoio ao trabalho do médico humano.

O QUE FAZER EM CASO DE NECESSIDADE MÉDICA?

Diante de sintomas preocupantes, feche o chat da IA e abra o agendamento de uma consulta. A verdade médica pode não ser tão "agradável" quanto a resposta de um algoritmo, mas é a única que pode garantir a sua saúde e segurança.

Atualmente, o próprio SUS oferece serviços de telemedicina e existem plataformas e aplicativos externos que vendem consultas online avulsas em preços mais viáveis.

A insatisfação com explicações médicas, demora nas consultas e sensação de estar sendo maltratado empurram pacientes para ferramentas de IA. Além de explicar porquê o uso dessas plataformas pode ser maléfico, especialistas reforçam que o debate sobre a melhora da saúde brasileira em diferentes frentes precisa continuar acontecendo.


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