A arma a laser mais futurista dos EUA tem um detalhe improvável: um Xbox

Armas a laser ganham agilidade com controle de Xbox, mas avanço da IA pode reduzir o papel humano no campo de batalha

controle de Xbox usado para controlar armas a laser
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Jared Keller 3 minutos de leitura

Uma das características mais distintivas da arma de laser de alta energia preferida pelos militares dos Estados Unidos não está no sistema em si, mas na forma como os operadores a controlam.

Em um episódio do programa "60 Minutes", a correspondente da CBS News, Lesley Stahl, mostrou o sistema de armas a laser Locust, criado pela Applied Visual Technology (AV).

Nos últimos anos, o equipamento tem sido usado para proteger militares norte-americanos no exterior e, ocasionalmente, até provocar o fechamento do espaço aéreo próximo à fronteira entre EUA e México.

Com drones Shahed iranianos intensificando ataques no Oriente Médio e o Departamento de Defesa dos EUA correndo para desenvolver contramedidas de baixo custo contra a crescente ameaça de drones armados baratos, a reportagem explora as vantagens (e limitações) das armas a laser e seu papel na evolução da guerra moderna.

Mas a parte mais curiosa do segmento vem quando Stahl assume o controle do Locust e descobre que a arma futurista é operada com um velho conhecido: um controle de Xbox – uma interface que a AV descreve como “um encaixe natural para o combatente moderno”.

Há anos, militares dos EUA utilizam controles de Xbox para operar desde pequenos sistemas não tripulados – como drones, robôs de desativação de explosivos e veículos experimentais terrestres – até equipamentos mais robustos.

A lógica é simples: se a maioria dos jovens combatentes cresce jogando videogame (e muitos continuam na vida adulta), por que não adotar um sistema de controle que aproveite essa familiaridade e reduza o tempo de treinamento para operar sistemas de armas avançados?

GUERRA OU GAME?

Controles de Xbox e armas a laser de alta energia, aliás, parecem uma combinação perfeita, e não apenas no caso do Locust. Mais de uma década atrás, o sistema HEL MD, um demonstrador móvel de laser montado em caminhão, já era operado com um controle semelhante.

Até sistemas mais recentes seguem a mesma lógica. No Singapore Airshow 2026, a IPG Photonics apresentou o Crossbow Mini – uma arma a laser pensada como solução compacta de defesa aérea – ao lado de um controle no estilo Xbox.

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Apesar de tornarem as armas mais fáceis e intuitivas de operar, esses controles não resolvem um problema maior. Com a rápida proliferação de sistemas de armas autônomas, o combate moderno acontece na velocidade das máquinas: decisões táticas são tomadas em segundos ou até milissegundos.

Nesse cenário, o tempo que um operador humano leva para identificar um alvo, ajustar o joystick, mirar com precisão e disparar pode ser suficiente para perder a janela de ataque. Ou seja: o próprio “sistema humano” pode se tornar um gargalo tão grande quanto a interface homem-máquina.

INTElIGÊNCIA ARTIFICIAL ENTRA EM CAMPO

Os controles de videogame reduziram a barreira de treinamento. Mas é a inteligência artificial que pode ser decisiva para extrair o máximo potencial dessas armas. Com visão computacional e aprendizado de máquina, sistemas baseados em IA conseguem identificar e rastrear alvos mais rapidamente (e com maior precisão) do que operadores altamente treinados.

O sistema Locust da AV, por exemplo, utiliza o software Wisard, baseado em IA, para aquisição, rastreamento e mira de alvos, conseguindo travar em ameaças rápidas com alta precisão e, segundo a empresa, entregar o efeito de um laser de 100 quilowatts usando apenas 20.

Militares usando IA
Foto: Freepik

O argumento a favor da combinação entre IA e armas a laser é forte. Enfrentar drones pequenos e rápidos, especialmente em enxames, exige manter o feixe de laser no alvo por tempo suficiente, uma tarefa extremamente exigente para humanos. Algoritmos, por outro lado, não se cansam nem se distraem.

Nesse contexto, o controle de Xbox pode deixar de ser uma ferramenta de controle direto e passar a funcionar como uma interface de supervisão, uma forma intuitiva de o operador humano autorizar ou abortar decisões já tomadas pelo software.

Os controles de videogame tornaram essas armas acessíveis a uma geração de militares que cresceu jogando. Mas, à medida que a inteligência artificial acelera tudo para acompanhar o ritmo das ameaças, a grande questão é: por quanto tempo os humanos ainda continuarão no circuito?


SOBRE O AUTOR

Jared Keller é o editor-chefe de conteúdo do Military.com. Ele escreve sobre sobre lasers, drones, jet packs e outras tecnologias mili... saiba mais